Educação

Medidas controversas do reitor aumentam temperatura política na USP

Escolhido pelo então governador José Serra, João Grandino Rodas não se preocupa com pressão de funcionários e alunos

Por: Redação VEJA SP

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Quinta, 31 de março: estudantes preparam manifestação por maior bônus para aluno de escola pública (Foto: André Bueno/AE)

Com quatro prédios antigos já no chão e a demolição de outros quinze programada para até agosto, a Cidade Universitária, no Butantã, está tomada por tratores, marretas e operários. Após pouco mais de um ano no cargo, o reitor João Grandino Rodas comanda um amplo plano de revitalização do principal câmpus da Universidade de São Paulo (USP), a mais importante do país, que deve consumir 240 milhões de reais ao longo de quatro anos.

O barulho causado pela nova administração, no entanto, extrapola o dos bate-estacas e das britadeiras. Além das obras, a gestão vem imprimindo sua marca por meio de medidas enérgicas e necessárias, acompanhadas de protestos de um grupo radical e inexpressivo de alunos e professores, além de funcionários sindicalistas.

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Rodas: reforma na infraestrutura e gestão mais eficiente (Foto: Lailson Santos)

A própria remodelação do câmpus, com novas sedes para museus e um centro de convenções, é foco de controvérsia. Essa pequena fatia de insatisfeitos reclama que os projetos estão sendo tirados do papel sem que suas necessidades tenham sido devidamente discutidas com a comunidade acadêmica. “Se a Universidade de São Paulo não tiver uma infraestrutura predial, se não procurar fazer com que sua gestão seja mais eficaz, não se deve esperar que continue a ser importante para o Brasil como é hoje”, diz Rodas, cuja trajetória está totalmente ligada à instituição — viveu ali 45 de seus 65 anos (ex-aluno de direito e pedagogia formado em 1969, lecionou na São Francisco durante quarenta anos e deu aulas na Faculdade de Educação por dez). “Uma grande parte do nosso patrimônio se encontra num estado lastimável.”

Nas últimas semanas, uma medida relacionada a essa reformulação dos prédios tem feito subir a temperatura do conflito entre a militância e a reitoria. Cerca de 400 funcionários estão sendo deslocados para outras unidades dentro ou fora do câmpus, como, por exemplo, para um centro comercial em Santo Amaro. Para aproximadamente 100 deles, a mudança será permanente, em uma medida que visa ao melhor aproveitamento do espaço no Butantã. O reitor afirma que ninguém será transferido contra a vontade, mas, segundo o Sintusp, o sindicato dos funcionários, quase nenhum deles aceitou a medida. O assunto foi a gota-d’água na relação entre as duas partes, bastante estremecida desde o ano passado, quando houve a demissão de 260 funcionários que acumulavam salário com a aposentadoria do INSS.

Vale lembrar que a USP tem 12.000 funcionários, ou seja, estamos falando de uma parcela de cerca de 5% de reclamões. Em paralelo, também nos últimos dias, alguns poucos estudantes desfilavam com cartazes nas mãos cobrando uma política mais agressiva de incentivo para egressos de escolas públicas no vestibular da Fuvest, depois do anúncio de que o bônus, que antes podia chegar a 12%, havia sido revisto para o máximo de 15%, mas passou a ter regras mais rígidas.

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Prédio da USP Leste: "Depois de tantas greves, os alunos estão cansados" (Foto: Sérgio Castro)

Trata-se dos mesmos que criticam Rodas desde as eleições para o cargo, pelo fato de ele defender maior entrada do capital privado na instituição, com inspiração no modelo de Harvard, onde cursou mestrado em direito. Seus opositores gostam de lembrar que na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da qual foi diretor antes de assumir a reitoria, ele tentou batizar salas tecnológicas com o nome de seus patrocinadores. Seria uma forma inteligente e simples de conseguir recursos, mas o velho corporativismo falou mais alto.

O que espanta no atual embate é o grau de polêmica levantado por medidas que deveriam ser consensuais, como a necessidade urgente de investimentos para evitar o sucateamento dos prédios. Na USP, porém, que tem um histórico farto de rixas entre a diretoria, alguns grupos de alunos e o sindicato dos funcionários, as reformas e medidas implementadas pelo reitor serviram de pretexto para o início de uma guerra política no câmpus. “Ele está no caminho certo, quebrando a cristaleira, fazendo o que tem de fazer”, afirma o especialista em educação Claudio de Moura Castro, colunista de VEJA. “Toda decisão pisa no calo de alguém.”

Nos últimos dias, a discussão chegou à Assembleia Legislativa de São Paulo, quando um evento convocado pelo deputado Carlos Giannazi (PSOL) reuniu centenas de membros da universidade para debater tópicos diversos sobre a atual gestão. Rodas não compareceu, e o representante enviado por ele, Wanderley Messias, coordenador de relações institucionais da USP, saiu antes do final, após ser vaiado. “O reitor foi eleito sob o signo do diálogo, mas isso não está acontecendo”, diz Thiago Aguiar, um dos líderes do Diretório Central dos Estudantes (DCE). “O que a gente percebeu nos últimos anos na universidade foi a utilização de diálogos feitos para não acabar”, afirma Rodas. “Isso é palco preparado, não é diálogo.”

A oposição aos planos do reitor chegou a tal ponto que um grupo de alunos engajados criou o movimento Roda, Rodas, que pede seu impeachment. Quem visita os corredores da USP, porém, nota rapidamente que essa ala mais radical, apesar de barulhenta, é muito pequena. Pouquíssimos estudantes parecem dispostos a embarcar nessa mobilização ou na proposta de paralisação total das atividades no câmpus que o Sintusp ameaça organizar em breve. “Depois de tantas greves nos últimos anos, os alunos estão cansados”, diz Felipe Ribeiro, do 4º ano de sociologia.

Rodas não se assusta com o movimento. Escolhido pelo governador José Serra, ele assumiu com a missão de comandar uma cidade universitária de 100.000 pessoas (os alunos representam 80% do total), administrar um orçamento anual de cerca de 3 bilhões de reais e recuperar a imagem do mais prestigioso centro de ensino superior do Brasil. “Eu não fui eleito como reitor para ficar sentado distribuindo cartões. Vou fazer o que tenho de fazer.”

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PM no câmpus: baderna e reivindicações oportunistas em 2009 (Foto: Marlene Bergamo)

O QUE ESTÁ SENDO FEITO

■ Revitalização da Cidade Universitária, que deve custar 240 milhões de reais e se estender ao longo dos quatro anos de gestão. Inclui uma praça de museus projetada pelo escritório de Paulo Mendes da Rocha. As obras já começaram.

■ Implementação de maior estrutura para mais cursos noturnos, com a revitalização de salas já em andamento, visando ao aumento de vagas.

■ Foi criado o cargo de vice-reitor de relações internacionais para ampliar a presença de alunos e pesquisadores estrangeiros na instituição.

AS MEDIDAS CONTROVERSAS

■ Demissão de 260 funcionários que acumulavam salário com a aposentadoria do INSS. Quatro deles conseguiram na Justiça voltar ao cargo. Cabe recurso.

■ Transferência de cerca de 100 funcionários para Santo Amaro. O sindicato aponta arbitrariedade na medida, mas a reitoria diz que consultou os trabalhadores antes da mudança.

■ Aquisição de imóveis fora do câmpus, ao custo de 24,5 milhões de reais. Uma audiência na Assembleia Legislativa foi marcada para que o reitor prestasse esclarecimentos sobre o assunto e outros temas. Ele não compareceu, e seu representante deixou o local sob vaias, antes do final do debate.

■ Proposta do conselho de professores do câmpus da USP Leste, ligados a Rodas, para a redução de vagas em algumas faculdades e a extinção do curso de obstetrícia.

Fonte: VEJA SÃO PAULO