Crônica

"ME SOLTA, LAVA-JATO?"

Confesse: você não consegue tirar os olhos do noticiário político nos últimos tempos. A escritora Francine Bittencourt também não - e decidiu elaborar um artigo sobre como é estar rodeada por esse assunto 24 horas por dia

Por: Francine Bittencourt - Atualizado em

lava-jato
Ilustração (Foto: Danilo Braga)

Enquanto aguardamos cheios de expectativa a prisão dos envolvidos nos escândalos da Lava-Jato, não estamos percebendo uma coisa bem simples.

Estamos todos tão presos quanto eles.

A diferença é que cumprimos pena a céu aberto.

Livres, porém algemados num um único assunto.

Cumprimos pena tomando uma cerveja.

Cumprimos pena discutindo no Facebook.

Cumprimos pena fazendo Pilates.

Lutamos contra o golpe mas vivemos uma ditadura particular. 

Brigamos contra corrupção enquanto nossos amigos são roubados com nosso consentimento.

Paulista na sexta?

Unfollow.

Paulista no domingo?

Unfollow.

Que pena, eram tão legais.

Mas coxinhas não passarão.

Defensores do governo também não.

Perdi as contas de quantos amigos a Lavo-Jato me roubou. 

Só dá ela.

Na fila do cinema, no trabalho, nos restaurantes.

O filme perdeu a importância.

O job ganhou prazo.

A foto do prato gostoso não vai mais para o Instagram porque toda e qualquer postagem que não seja sobre isso não vale um like.

Parece um heresia falar de outra coisa num momento como esse.

Velho Chico?

Bonita novela, mas que semana para estrear.

Obama em Cuba?

Histórico, mas não agora.

O auge da loucura foi quando minha mãe me ligou chorando para contar que uma amiga havia morrido.

-Que pena, mãe.

Juro que meu primeiro pensamento foi:

“Que chato morrer bem agora e ficar sem saber o que vai acontecer”. 

Por favor, vamos ficar meia hora sem falar disso?

Todo mundo concorda, saturado.

Cinco minutos depois estamos todos de novo falando no grande absurdo que se tornou tudo isso.

Três minutos e estamos brigando por um dos lados absurdos de tudo isso.

A Lava-Jato não está prendendo apenas políticos

Está me prendendo.

Prendendo você.

Seus amigos. Seu chefe. Seus pais.

Somos todos prisioneiros.

Sobre o que falaremos quando tudo isso acabar?

Estamos no epicentro de uma cadeia sem grades.

Não vejo a hora dos culpados serem presos.

Para gente ser solto.

E voltar a viver.

Vai ser uma delícia reencontrar todo mundo.

Fonte: VEJA SÃO PAULO