Exposições

Como é feita a conservação das obras do acervo do Masp

Temperatura, luz e umidade relativa do ar são controladas na sala de armazenamento. Museu possui ainda uma máquina que retira insetos das telas sem tratamento químico

Por: Bruna Ribeiro - Atualizado em

Cerca de duzentas obras são exibidas no Masp a cada ciclo de exposições. No acervo, entretanto, elas somam mais de 8 000 e incluem Casal ao Luar, de Vincent van Gogh, O Grande Pinheiro, de Paul Cézanne, e O Capitão Andries van Hoorn, de Frans Hals. Desde 2007, esse valioso material vai a público em montagens com diferentes recortes temáticos sob a supervisão do curador-chefe do museu, Teixeira Coelho.

Antes de ganhar um espaço sob os holofotes, cada peça passa pelo Departamento de Conservação e Restauro, fundado em 1992 pela restauradora de pinturas Eneida Parreira. Entre os principais instrumentos utilizados está a câmara de desinfestação por gases inertes. A máquina é capaz de eliminar insetos das obras sem tratamento químico.

Outro aparelho é o de reflectografia de infravermelho. Ele permite a visualização do desenho subjacente de uma pintura. Ou seja, é possível observar todas as etapas de criação. "Conseguimos descobrir um arrependimento no nosso Rafael. Um dos soldados, que aparece com um dos braços para cima, inicialmente havia sido desenhado com as mãos para baixo", exemplifica a coordenadora do departamento, Karen Cristine Barbosa.

A temperatura da sala de armazenamento também é uma preocupação. Semanalmente ela é medida e deve ser mantida entre 20 e 22 graus Celsius. A umidade relativa do ar, por sua vez, permanece sempre em 50%. "Apesar de simples, se você respeitar essas condições, dificilmente terá problemas", diz Karen.  

A iluminação é outra questão importante. Um aparelho chamado luximetro mede o nível de luminosidade. A exposição das pinturas não pode exceder a 200 lux. Já o limite permitido para papel é de 50 lux. "Alguns museus já permitem tirar fotos, pois os problemas causados são de luz contínua. Por isso algumas obras mais sensíveis não ficam em exposições permanentes", explica a coordenadora. No Masp, não é permitido fotografar por segurança.

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Questionado sobre as críticas recentes em relação aos cuidados com o acervo, Teixeira Coelho afirma se tratar tudo de hipocrisia, já que poucas pessoas no Brasil se interessam por conservação de obras. "O primeiro ponto que deveríamos levantar é a dificuldade de conseguir recursos do governo, da iniciativa privada ou da sociedade civil", argumenta. De acordo com o curador, o Masp precisa apelar para instituições estrangeiras, como o Bank of America Merril Lynch, que investiu 140 mil reais na restauração da tela Moema (1866), de Victor Meirelles, entre julho de 2012 e fevereiro deste ano.

O exemplo de iniciativa é resultado do Programa Masp de Restauração Patrocinada. A ideia é incentivar empresas e particulares a contribuírem com projetos que vão de 150 000 a 2 milhões de reais. Quem tiver interesse, pode procurar o departamento. O museu pretende, no futuro, criar um sistema para contribuições menores de visitantes. Por enquanto, só é possível patrocinar projetos completos.

A coordenadora Karen aponta ainda a falta de financiamento para pesquisa: "Não há incentivo aqui. No exterior, o restaurador trabalha ao lado do historiador, o que enriquece a documentação final. Não temos equipe, porque o museu não tem como pagar. Queremos incentivar empresas e pessoas a ajudarem, pois as obras do Masp são patrimônio nacional. Fazemos muito com o pouco que temos".

Nova exposição

Desde 1º de novembro, o Masp abriga uma mostra denominada O Triunfo do Detalhe - e Depois, Nada. A ideia é chamar a atenção sobre como os pequenos objetos foram desaparecendo das telas ao longo dos séculos. O curador explica: "As obras serão organizadas da maior para a menor importância dos detalhes, a começar por uma carta na mão de um personagem até o desaparecimento do pormenor na arte contemporânea".

Coelho Teixeira destaca Retrato do Conde-Duque de Olivares, de Diego Velázquez, e Retrato do Cardeal Cristoforo Madruzzo, de Ticiano. Na primeira, veem-se as diferentes texturas do tecido da roupa do conde e os objetos que carrega na cintura. Já na segunda, há um relógio no canto da tela.

Fonte: VEJA SÃO PAULO