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Manifestações evocam Caras-pintadas de 1992

Protestos contra Dilma Rousseff lembram passeatas que ajudaram a tirar o presidente Fernando Collor do poder. Veja fotos da época e entenda as diferenças

Por: Veja São Paulo - Atualizado em

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Cerca de 1 milhão de pessoas confirmaram presença em uma manifestação contra a presidente Dilma Rousseff, no domingo (15). Organizada principalmente por três grupos, Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre e Revoltados ON LINE, a passeata está marcada para às 14h, em frente do Masp, na Avenida Paulista. Entre as reivindicações, está o pedido de impeachment da presidente.

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O protesto remete, assim, ao movimento Caras-pintadas, de 1992, que foi às ruas de todo o país exigindo a saída do então presidente Fernando Collor de Melo, o primeiro e único a sofrer impeachment. “Existem algumas semelhanças entre os atos”, afirma Hilton Fernandes, cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “Em sua maioria, apresentam-se como apartidários e estão incomodados com a situação do país.”

Há, entretanto, uma diferença bastante significativa. "Não há nenhuma investigação contra a presidente Dilma, diferentemente de Collor, cujo envolvimento com um esquema de corrupção estava comprovado”, explica Fernandes.

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O alcance de público hoje é maior e mais rápido devido à tecnologia. As redes sociais se mostram o principal meio de convocação, assim como aplicativos de mensagens instantâneas, com as correntes virtuais. No passado, o chamamento foi feito, principalmente, dentro das escolas.

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Cara-pintada durante manifestação estudantil para o impeachment do presidente Collor, organizada pela UNE e Ubes, na Avenida Paulista, em 25 de agosto de 1992 (Foto: Antonio Milena)

Hoje com 41 anos, a empresária Roberta Suplicy foi uma das estudantes que participaram das passeatas. Ela conta que foi responsável pela convocação dentro de seu colégio, o Pentágono, no Morumbi. “Pedi autorização para a diretora para faltar e levar minha turma ao centro”, lembra. “Naquela época, tinha a esperança de que a minha voz mudaria alguma coisa. Hoje, não mais. Mas vou continuar tentando.” Ela confirmou presença na manifestação deste domingo (15).

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HISTÓRICO

No início de 1992, o presidente Fernando Collor era alvo de investigação. Em maio daquele ano, seu irmão, Pedro, declarou em uma entrevista a VEJA que Collor e seu ex-tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, comandavam juntos um esquema de corrupção, do qual PC era o testa-de-ferro. A notícia só inflamou os ânimos da população.

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Capa de VEJA, de maio de 1992, quando Pedro Collor de Melo acusou o irmão de ter um esquema de corrupção ao lado de PC Farias (Foto: Reprodução Revista Veja)

Na televisão, fazia sucesso a minissérie Anos Rebeldes que incitava ainda mais o sentimento de patriotismo dos jovens. As manifestações, que começaram em agosto, aconteceram principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. A garotada recitava os versos de canção Alegria, Alegria, de Caetano Veloso. O nome "caras-pintadas" se deu porque os primeiros jovens a aparecerem na mídia pintavam palavras de ordem nos rostos.

Destacaram-se na multidão Cecília Lotufo, que virou a musa do movimento, e hoje é responsável por um projeto que recupera praças e dona de uma pizzaria em Pinheiros, e Lindberg Farias, senador pelo Rio de Janeiro, que recentemente se viu envolvido na Operação Lava Jato (ironicamente, ao lado de Collor).

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Cecília Lotufo, em 1992, a musa do impeachment (Foto: Eder Chiodetto/Folhapress)

Na capital paulista, cada ato chegava a reunir cerca de 10 000 estudantes em frente ao Masp. Em sua maioria de escolas particulares, foram convocados pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), que imprimiu 50 000 panfletos e cartazes com dizeres como “Anos Rebeldes, próximo capítulo: Fora Collor, Impeachment Já.”

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“Existia uma ideia de que aqueles jovens só foram curtir, que não ligavam para a política”, diz Fernandes. “Mas mostraram o contrário: existia uma comoção geral, um desejo de mudança, e não a polarização atual.” Segundo o cientista político, por serem de colégios privados, conseguiam acesso mais fácil à informação ou mesmo aproximação com políticos.

O fato de acontecerem em dias de semana e em horário comercial também ajudou a dar mais destaque aos jovens. “Ou as pessoas estavam trabalhando ou não conseguiam chegar porque moravam mais na periferia”, explica.

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Passeata pró-impeachment do presidente Collor, na Avenida Paulista, em 25 de agosto (Foto: Roberto Loffel)

O principal protesto que antecedeu ao impeachment aconteceu em 16 de agosto. Três dias antes, Collor havia convocado em rede nacional aqueles que o apoiavam para vestir as cores da bandeira nao próximo protesto. A população foi para a rua, mas misturou o preto, em sinal de luto, ao verde e amarelo.

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Foram seis atos em São Paulo, com eleitores de diversos partidos. Diferente de passeatas anteriores, como O Petróleo É Nosso, liderada por Getúlio Vargas; Marcha da Família de Deus pela Liberdade, que terminou com a queda de João Goulart e teve apoio de governadores e da Igreja; as Diretas Já, com Ulysses Guimarães e o PMDB por trás; os Caras-pintadas não tiveram nenhum representante majoritário, a não ser os próprios jovens.

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Populares reunidos no Vale do Anhangabaú em 29 de setembro, quando aconteceu a votação do impeachment de Collor (Foto: Andre Penner)

Fonte: VEJA SÃO PAULO