Crônica

Lutar com palavras

Por: Ivan Angelo

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(Foto: Veja São Paulo)

A cena do quadro é impressionante: um velho alquebrado, seminu, de longas barbas, ombros e pernas cobertos por um manto vermelho, coteja grossos livros com uma pena na mão; uma luz de fonte invisível o destaca da escuridão; um crânio sobre um livro faz contraponto com sua calva.

Assim Caravaggio (1571-1610) retratou um dos primeiros doutores da Igreja no extraordinário quadro “São Jerônimo que Escreve”, exposto no Masp junto com outras obras suas e de seus imitadores até 30 de setembro. (Por coincidência, Dia do Tradutor.) Ver essa mostra é obrigação cultural. O jovem e tormentoso artista italiano é apenas um dos maiores pintores de todos os séculos.

O quadro me remete ao retratado, ao seu trabalho de tradutor e ao dos tradutores em geral. Entre os séculos IV e V, o dálmata Jerônimo foi encarregado pelo papa Dâmaso de fazer uma tradução definitiva da “Bíblia” para o latim, a partir do hebraico, cotejando-a com as versões gregas e latinas existentes, que circulavam no Ocidente com textos conflitantes. A fim de aprimorar seu conhecimento do hebraico, mudou-se para a Palestina, onde viveu por 35 anos, quinze dos quais traduzindo a “Bíblia”. Quinze anos! Morreu em Belém. Passaram-se alguns séculos até sua versão receber o título oficial de Vulgata, a única autorizada em latim.

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Traduzir tem algo de dramático. Momentos de indecisão, angústia e desafio. Você se divide entre os papéis de destruidor e de criador. Intenções, sons, matizes, características, cacoetes, jargões, metáforas e aliterações do texto se perderão, e outro tanto será criado, procurando compensar a perda. É como fazer uma feijoada na Holanda: vai faltar metáfora.

Não que as línguas em si não tenham recursos. Têm. Mas serão sempre substituições, só eventualmente equivalentes. Quando um autor escreve “lindo” em vez de “belo” ou de “bonito”, ele tem intenções que vão mais longe do que graduar a beleza que descreve. Há entre as palavras relações de som, de oposição, de acomodação, de fricção ou de regionalidade que é difícil traduzir. Isso quando se percebe a intenção. E quando não se percebe?

Se dentro de uma mesma língua as palavras adquirem um matiz diferente quando se associam a outras, que dirá na tumultuada viagem de uma língua para outra? Se as palavras não fossem assim tão ricas, um clássico moderno como o americano Raymond Carver não escreveria um conto com o nome de “What We Really Say When We Say Love”, o que dizemos na verdade quando dizemos amor. Palavras muitas vezes são armadilhas. Pasta, em português, pode ser macarrão, posto de ministro, bolsa, dentifrício, substância pastosa... Pena pode ser de ave, caneta, dó, sofrimento, condenação... Até mesmo corriqueiras expressões do dia a dia oferecem dificuldades, e nem sempre as soluções satisfazem.

Por exemplo, um personagem de nome Omar de Moura, que um bajulador chama de doutor Omar. Nos Estados Unidos esse “doutor Omar” vai virar “Mr. De Moura”. Ganha-se formalidade, perde-se a bajulação. Uma tradutora me perguntava: que que eu faço com “mãe de santo”, “quebrei a cara”, “dar tempo ao tempo”, “é o fim da picada”? Empacou no nome de uma antiga revista de cinema, “A Cena Muda”. Me perguntava: “A cena é silent ou changing, silenciosa ou que muda, que se move?”. Expliquei que era as duas coisas. E aí, para traduzir?

Imagino as inquietações do velho Jerônimo na Palestina. A sua responsabilidade de passar para os povos, com exatidão, a essência do livro: a poética e a fé, a história e os mitos, o mistério e a realidade, a parábola e o fato, a palavra e a substância, a evolução e a permanência. Santo homem.

E-mail: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO