Esporte

Lucas Moura: a construção de um craque

Um time de assessores cerca de mimos o jogador do São Paulo para transformá-lo em novo ídolo nacional

Por: Daniel Salles - Atualizado em

Lucas Moura
Lucas Moura, 19 anos: em doze meses de carreira, ele já ganha 320.000 reais por mês (Foto: Fernando Moraes)

O paulistano Lucas Moura, habilidoso meio-campista do São Paulo e figura frequente nas últimas convocações da Seleção Brasileira, é um jogador cercado de números impressionantes. Tem só 19 anos de idade, completados no sábado passado, e soma apenas doze meses na categoria de elite do esporte. Mas já recebe 120.000 reais mensais de salário e ganha outros 200.000 reais por mês com publicidade.

A multa de rescisão de seu contrato com o tricolor, que vai até 2015, é de cerca de 180 milhões de reais. O valor representa quase a soma das cláusulas de venda de Neymar e Ganso, do Santos, e o coloca em segundo lugar no ranking dos atletas mais caros do futebol brasileiro — a dianteira é ocupada por Ronaldinho Gaúcho, atado atualmente ao Flamengo por uma multa de 400 milhões de reais.

Tímido e franzino para seu 1,72 metro de altura, Lucas costuma chamar atenção por onde passa também por conta do staff que geralmente o acompanha. Para receber VEJA SÃO PAULO, por exemplo, em um restaurante argentino em Moema, ele veio escoltado pelo pai, o ex-metalúrgico Jorge Rodrigues da Silva, que administra suas finanças, e por três assessores, que cuidam de seus contratos e de suas relações com a imprensa.

Lucas Moura
O atleta em jogo contra o Vasco: imagem trabalhada dentro e fora dos gramados (Foto: Renato Pizzutto)

Dessa turma, comandada pelo empresário Wagner Ribeiro, fazem parte ainda o ex-jogador Ronaldo Fenômeno e os empresários Marcus Buaiz e Evandro Guimarães, sócios da agência 9ine, contratada para cuidar de sua imagem. E vem mais gente por aí para ajudá-lo fora de campo. O atleta, que já se reúne periodicamente com um psicólogo do clube, para aprender a lidar com o assédio da torcida, e faz um curso semanal de media training, para não dar caneladas no português e não dizer besteiras nas entrevistas, deverá ter em breve aulas de inglês e de etiqueta. “Hoje em dia, tanto os clubes como os empresários sabem que podem perder dinheiro com publicidade caso seus atletas se envolvam em escândalos”, avalia o comentarista Mauro Beting, da Rádio Bandeirantes. “Qualquer deslize cometido no Brasil poderá repercutir na Europa e atrapalhar a eventual transferência do Lucas no futuro”, acrescenta Wagner Ribeiro.

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O jogador trata de seguir os ensinamentos à risca, fugindo das tentações que costumam transformar bons moços em bad boys dos gramados. “Sou caseiro, não vejo muita graça em noitadas”, jura ele, que abriu uma exceção para comparecer à própria festa de aniversário, organizada no último dia 14 na casa noturna Royal, de onde saiu às 5 da manhã. Como profissional, foi expulso de campo apenas uma vez, em abril passado, em uma partida contra o Santa Cruz, pela Copa do Brasil, ao se desentender com o juiz. “Ele achou que eu havia dado uma cotovelada em um adversário, e isso me deixou revoltado”, lembra. Mas não tira a razão do árbitro responsável pela outra expulsão de sua carreira, ainda nos tempos de amador. Quem conta é o pai: “Lucas estava sendo marcado com violência e acabou dando um chute num oponente”. Depois de fazer essa bobagem, saiu de campo aos prantos. Tinha 8 anos — o jogo fazia parte de um campeonato infantil em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo.

Até os 14 anos de idade, ele viveu no Jardim Miriam, bairro pobre da periferia da capital. Sua mãe, Fátima da Silva Moura, com quem mora hoje, junto com o irmão Thiago, de 21 anos, trabalhava como cabeleireira. Seu pai foi funcionário da montadora Ford por dezoito anos — afastou-se no início do ano devido a uma lesão por esforço repetitivo, e, dado o sucesso do filho, não pretende voltar. “Tive uma infância simples. Às vezes acordava com tiroteios perto de casa”, rememora Lucas. “Mas não pretendo deixar de visitar meus amigos do passado.”

Os primeiros dribles de sua carreira foram dados em 1998, em uma escolinha de futebol do Marcelinho Carioca, ex-jogador e ídolo do Corinthians. A experiência, aliás, lhe rendeu o apelido de Marcelinho, do qual só há pouco conseguiu se livrar. Contratado pelo São Paulo em 2005, começou a embolsar 15.000 reais mensais quando passou a integrar o elenco profissional, em agosto de 2010 (seu salário foi reajustado em oito vezes em fevereiro passado). Quase tudo que ganha vai para a conta do pai. “Faço um relatório mensal para Lucas e sua mãe, de quem me separei há três anos, explicando o que fiz com o dinheiro”, ele se apressa em dizer.

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Parte do montante amealhado até agora serviu para comprar um apartamento em Perdizes, próximo ao centro de treinamento do clube, e um Hyundai i30 preto, com o qual o jogador circula pela cidade. “Meu pai deixa na minha conta apenas 3.000 reais por mês, para diversão”, afirma Lucas, apontando uma cifra difícil de acreditar. “Preciso me concentrar em campo para conseguir justificar tudo o que tem sido investido em mim.”

PREPARAÇÃO FORA DOS CAMPOS

Media training: O curso, geralmente semanal, também praticado por Neymar, ensina o atleta a se expressar com clareza e a fugir de mancadas em entrevistas.

Inglês: Terá aulas particulares do idioma duas vezes por semana. “Sofro por não entender nada do que me dizem quando saio do país”, lamenta ele.

Etiqueta: A partir de setembro, receberá lições para aprender a se comportar em premiações e eventos como o sorteio das eliminatórias da Copa de 2014.

Psicologia: Para ajudá-lo a lidar com a pressão da torcida, a comissão técnica do São Paulo promove encontros regulares entre o jogador e um psicólogo.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO