Crônica

Loucos por academia

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Loucos por academia
(Foto: Veja São Paulo)

Ouço um cumprimento. Passeio o olhar pelo corredor do shopping. Em minha direção vem um rapaz de braços musculosos com a cabecinha desproporcional empilhada no peito forte. Sorri:

- Não se lembra de mim?

Assusto-me ao ouvir seu nome. Há um tempo relativamente curto era esguio e de gestos tranquilos. Agora caminha

como um super-herói de história em quadrinhos.

- Você mudou! - espanto-me.

- Entrei na academia, faço musculação diariamente. Não fiquei ótimo?

Sorrio como se concordasse, mas é truque para não responder. Parecia uma coxinha de bar. Exercitou muito o peito, pouco as pernas, que pareciam finas, desproporcionais (e isso é comum!). A semelhança se tornou maior devido a um bronzeado suspeito, que acentuava o aspecto de um salgadinho à milanesa. Não precisei falar muito: ele mesmo se elogiou quanto pôde! Segundo acreditava, a nova forma física lhe dava uma aparência saudável, de esportista.

De fato, ficou igual a centenas de loucos por academia que andam por aí. É uma espécie de anorexia ao contrário. Pesquisei no Google: chama-se vigorexia. Ou seja, a obsessão por um corpo musculoso. A pessoa acaba parecida com o Incrível Hulk. Mas se acha o máximo! É mais comum entre homens, mas também atinge mulheres. Conheci uma, casada, cujo marido, apaixonado, costuma malhar com ela. Trocou as formas femininas por músculos. Toma hormônio para se fortalecer. Resultado: a voz ficou mais grossa e cresceram bigodes!

Um conhecido sofreu riscos de saúde sérios, apesar do corpo aparentemente impecável. Tomou injeções para “inflar” os músculos. Sem consultar médicos, claro. Em certas academias, há quem consiga essas bombas por baixo do pano. Os furúnculos aumentaram. Já não podia sentar-se. Finalmente, marcou uma consulta. O médico horrorizou-se:

- Você tomou um remédio veterinário!

Foram meses de tratamento. Aprendeu? Nós nos encontramos recentemente. Descobriu nova bomba! Seus bíceps rompem a camiseta. É igualzinho a um chester: 90% de peito, 10% de pernas e 0% na cabeça! Atualmente só é considerado bonito quem agride o corpo. Já conheci modelos esquálidas. Desenvolver músculos é a outra ponta da mesma forma de ver a vida. Intelectuais querem parecer pugilistas; executivos, marinheiros. No fim, assemelham-se a figurantes de filmes de batalha em Hollywood! E quando o sujeito abre a boca? O amigo a quem me referi no início sentese um Super-Homem. Mas tem voz fina e sotaque caipira!

Soube de plásticas para colocar bíceps, peitorais e panturrilhas. Nos braços e nas pernas, usam-se próteses de silicone. No corpo, um peitoral com os músculos desenhados, incluindo os sulcos de uma barriguinha de tanque. O magricela se interna e sai da clínica com o corpo redefinido! Muito bem, e depois? Se a barriga crescer, a prótese virá para a frente, para a frente... Em vez de tanque, vai parecer uma máquina de lavar! Lutei séculos com a minha barriga. Hoje ainda travo batalhas constantes, porque ela teima em renascer. Sou a favor de um corpo saudável. Mas ele deve refletir quem a pessoa é interiormente! Imagino o viciado em músculos diante do espelho, perguntando:

- 'Espelho, ó espelho meu, existe alguém mais bombado do que eu?'

Prefiro ter a aparência de uma pessoa comum. Quero ter o aspecto de quem eu sou realmente. E não dar a impressão de que tomei um corpo emprestado de alguém com outro estilo de vida!

Fonte: VEJA SÃO PAULO