Arte

Los Carpinteros no CCBB: por trás das obras

Descubra as histórias de trabalhos imperdíveis assinados pela dupla de cubanos em cartaz no espaço do centro

Por: Julia Flamingo

Los Carpinteros_Marquilla cigarrera cubana
Marquilla Cigarrera Cubana: madeira trabalhada remete às caixas de charuto. O negro em primeiro plano é enaltecido em meio ao museu Hermitage, na Rússia (Foto: Collection of the Morris and Helen Belkin Art Gallery, The University of British Columbia, Vancouver, Canada. Purchased with funds from the Morris and Helen Belkin Art Gallery Acquisitions Fund © Los Carpinteros)

Quando estudavam no Instituto Superior de Arte da Havana, Marco Castillo e Dagoberto Rodríguez tinham poucos recursos para produzir a sua arte. No início dos anos 90, Cuba sofria uma de suas maiores crises. A solução era surrupiar as carteiras da sala de aula e as "reciclar" em obras. Não demorou muito até que a dupla recebesse o nome de Los Carpinteros.

"Eles colocavam a mão na massa e eram artesãos", conta Rodolfo de Athayde, curador da mostra Los Carpinteros: Objeto Vital, aberta na última semana, no CCBB. Feitos na época da formação do coletivo artístico, em 1992, muitos trabalhos em madeira tomam o quarto andar do prédio, onde se inicia a mostra. Os objetos chamam a atenção pelo rebuscamento, mas principalmente, pelas críticas escrachadas - e muito inteligentes - ao seu próprio país. 

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O ambiente lúdico e fresco da época de escola continua presente até hoje. As peças transbordam bom humor para abordar assuntos como socialismo, abuso de poder de Fidel Castro, arquitetura soviética e prostituição. São mais de setenta instalações, pinturas e vídeos que fazem desta retrospectiva imperdível até para os próprios artistas: "Estamos vendo muitas das obras depois de vinte anos", conta Rodríguez.

O sucesso foi tão grande que muitas das peças foram adquiridas por museus como Moma e Tate quando os cubanos ainda tinham 25 anos: foi a produção questionadora e irreverente que fez os olhos do mundo se voltarem para os jovens. Desde então, receberam retrospectivas nos maiores museus do mundo. "Seu sucesso só aumenta porque não levam nada a sério, tudo é brincadeira", explica o curador. "A profundidade do trabalho está em tudo, mas vem acompanhada de frescor e inspiração." 

Descubra abaixo histórias curiosas por trás de obras imperdíveis da mostra:

Los Carpinteros_el pueblo se equivoca
(Foto: Galeria Fortes Vilaça © Los Carpinteros)

" O Povo se equivoca", disse Fidel Castro em entrevista a um jornalista italiano. A frase generalista do presidente cubano acabou sendo estampada em uma das obras da dupla. Eles construíram um prédio de arquitetura soviética e porte autoritário para criticar o abuso de poder de Castro. Note que atrás desta obra há um púlpito feito em papelão. É a réplica exata do púlpito do político, onde ele pronunciava seus famosos discursos. Ali, a idéia é dar um caráter descartável ao palanque, com o intuito de fazer refletir sobre o monopólio e o uso da palavra.

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(Foto: © Los Carpinteros)

O discurso político também é satirizado nesta instalação. "Me cago en el corazónde tu madre" é uma frase popular (dispensa tradução), que está no lugar de propagandas políticas. Em Cuba, poucos outdoors mostram publicidades - por ali, os cartazes costumam enaltecer o governo.

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(Foto: Cortesia coleção particular, São Paulo © Los Carpinteros)

O mapa de Havana foi detalhadamente esculpido nesses chinelos. A obra é uma declaração de amor à cidade: você não só anda sobre a Havana, mas a carrega sob seus próprios pés.

Los Carpinteros_ Conga Irreversible
(Foto: Cortesia Ivorypress, Madrid Sean Kelly Gallery, New York Galeria Fortes Vilaça, São Paulo © Los Carpinteros)

Esta é, talvez, uma das performances mais trabalhosas da dupla. Em Conga Irreversible, que aparece em um vídeo no primeiro andar do museu, um bloco de Carnaval segue ao contrário. Os movimentos dos bailarinos são invertidos, as partituras foram escritas ao contrário e as letras também são cantadas ao revés. Trata-se de um rewind em tempo real. Todo o movimento arquitetado pela dupla mostra que, como se diz por aí, Cuba é a terra da beleza e diversão. Mas, por trás disso, há um lado sombrio e repressor. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.

Los carpinteros
(Foto: Julia Flamingo)

Esta instalação gigantesca na entrada do museu é uma recriação do presídio onde ficou detido Fidel Castro. Construído entre entre 1926 e 1931 na Isla de la Juventud, o prédio é hoje uma ruína arquitetônica. É, também, uma biblioteca vazia, que remete à estrutura decadente do socialismo.

Los Carpinteros_Dos pesos
(Foto: © Los Carpinteros)

Dos Pesos foi feita com a madeira da carteira escolar. Nos anos 90, o país não oferecia nenhum tipo de recurso para que se produzisse arte, por isso a dupla era obrigada a produzir com o material que estivesse à mão. Na tela, pintaram uma nota cubana que, normalmente, leva à figura de heróis nacionais. Na imagem, porém, registraram a si mesmos colhendo madeiras do bosque ao lado da escola, que seria matéria-prima para a produção dos seus trabalhos.

Fonte: VEJA SÃO PAULO