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Lobão lança caixa de sucessos e autobiografia

Todo o trabalho foi produzido na cidade que adotou para viver e que homenageia em canção

Por: Mariana Barros - Atualizado em

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O roqueiro em sua casa no bairro de Perdizes: “Nunca me senti tão bem em um lugar” (Foto: Mario Rodrigues)

João Luiz Woerdenbag Filho acabara de fazer 50 anos quando decidiu passar sua trajetória a limpo. A partir daí, tal qual o personagem Jorge Fraga do conto “Os Passos no Rastro”, de Julio Cortázar, sua vida tomaria outro rumo. No caso de Lobão, porém, como é mais conhecido nosso protagonista, não se trata de ficção, mas de realidade. Quando o roqueiro completou meio século, em 2007, o último disco que havia lançado, “Acústico MTV: Lobão”, fora um fracasso de vendas. Naufragava também sua revista, “Outracoisa”, que nos quatro anos anteriores servira de trampolim para álbuns e talentos do cenário independente. À vista, apenas a possibilidade de se fixar na MTV, onde havia poucos meses começara a apresentar um programa semanal. “Pensei: ‘Estou morto, terei de ressuscitar de novo’”, diz o músico, referindo-se às intempéries colecionadas em quase quatro décadas de uma carreira inquieta. 

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Lobão com a banda Vímana, em 1977 (Ele é o segundo da esquerda para a direita) (Foto: Luiz Paulo Machado)

A solução foi (mais uma vez) criar — desta vez, depurando e decupando a sua própria história. Decidiu relançar faixas que estouraram na década de 80 remasterizadas pelo produtor americano Roy Cicala, que já trabalhou com John Lennon e Tom Jobim. As canções aportarão em três CDs na caixa “Lobão 81/91”, da Sony Music, com previsão de lançamento em dezembro. “Pela primeira vez as coisas saíram como eu queria”, afirma Lobão, que nos últimos anos evitou ouvir sucessos como “Vida Bandida” por considerá-los tecnicamente ruins. Já sua biografia, que mais parece um romance, ganhou as páginas de “50 Anos a Mil”, com lançamento marcado para sábado (27), pela editora Nova Fronteira, no evento Vira Cultura. 

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Lobão desfilando na Mangueira (Foto: Ricardo Chvaicer)

Nessa revisita ao passado, necessária para a elaboração da coletânea e do livro, Lobão sentiu despertar a vontade de recomeçar em outro lugar. “Não faço esporte, não gosto de Carnaval, não tinha família nem amigos, as pessoas me tratavam mal. O que eu estava fazendo no Rio de Janeiro?”, diz, sobre a cidade onde nasceu e passou toda a vida. “Com exceção de uma temporada em Los Angeles, quando eu tentava escapar de ser preso novamente”, acrescenta.

Poucos laços o ligavam à capital fluminense: uma filha de 22 anos com quem não se dá, o gosto por longas caminhadas na Lagoa Rodrigo de Freitas e a saudade de antigos parceiros cariocas, como Cazuza e Cássia Eller. Seus pais, que moravam no Rio, já são mortos: ela, em 1984, e ele, vinte anos depois, ambos por suicídio. Há ainda uma irmã que vive na Holanda, com quem perdeu o contato. Sua família é a empresária Regina Lopes, companheira de duas décadas, e três gatos, Dalila, Lampião e Maria Bonita. Essa última passa o dia ronronando atrás do dono e não raro o escala até os ombros. Vivem os cinco em um sobrado numa rua pacata de Perdizes, na Zona Oeste, para onde se mudaram em maio de 2008, encerrando um ano de procura por um endereço paulistano. “São Paulo é o mais próximo de primeiro mundo que há no Brasil”, afirma. 

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Lobão e o amigo Cazuza (Foto: Cristina Granato)

A residência ganhou um estúdio nos fundos. Ali, Lobão pratica bateria todas as manhãs. Mantém o hábito desde os tempos de Vímana, banda em que estreou ao lado de Lulu Santos e Ritchie, ou da Blitz, que largou no auge do sucesso. Sabe tocar todo o repertório de Villa-Lobos para violão, mas confessa gostar mesmo é de guitarra. “Jovem de classe média sofre de síndrome de dignidade intelectual: tem de ser esquerdista, gostar de Chico Buarque, de chorinho...”, provoca. “E eu quase caí nessa.”

Sua rotina é acordar por volta das 6 horas, assistir um pouco à televisão, cuidar dos gatos e se pôr a trabalhar, compondo ou escrevendo. “Gosto de ficar em casa.” Não abre mão, porém, dos almoços semanais com amigos no restaurante Spot e de encontrar músicos das bandas Cachorro Grande, Faichecleres e Nação Zumbi nos arredores do bairro ou em baladas da Rua Augusta. Seu entrosamento com a cidade o inspirou a compor a homenagem “Song for Sampa”, que pode ser baixada gratuitamente pela internet por quem comprar o livro. “Nunca me senti tão bem em um lugar”, diz, sobre a metrópole de nebulosas de faróis, como define a letra da canção.

Trecho de Song for Sampa

(...)

Passageiros no metrô

rua Augusta e rock’n’roll

eu penso essa é a minha cidade,

eu jamais vou te esquecer,

para sempre vou te amar,

mesmo em algum tempo

depois do futuro.

E vai acontecer,

eu vou te encontrar

pra gente sair, sonhar feliz

pelas noites sem luar.

E de que vale o céu se as

nebulosas de faróis vêm me

dizer que isso é pra sempre.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO