Crônica

Lições hospitalares

Por: Ivan Angelo

cronica edição 2359
(Foto: Divulgação)

O grande hospital acolhe o doente com sorrisos e roupas de verde suave. É o primeiro sinal animador após o périplo da internação. Quando se chega a essa necessidade, planos de saúde não são garantia de que vai ser tudo fácil, beleza, seremos encaminhados com presteza e cuidados condizentes com os valores pagos antecipadamente. Nada disso. É como aplicar em poupança e, na hora em que precisamos, o dinheiro não entra na conta. Sorriso é bom, mas hospital é hospital. É onde nascemos e morremos, e aonde todos vão por obrigação, inclusive os que lá trabalham.

Medo e apreensões caminham em passos abafados por chinelos, há sussurros nas cabeceiras, esperanças nos abraços, lágrimas na penumbra. Até a cemitérios tem gente que vai por gosto, estranho gosto que seja; a hospitais não se vai para espairecer ou meditar. Não há beijos, não há risadas, espalhafato. Grosseiros se comportam como gente fina, em tom menor. É respeito pela soturna visitante, que pode estar a caminho em algum corredor. Até a faxina se faz com meticulosidade temerosa, ninguém quer ser culpado!

Decoradores modernos têm feito de tudo para quebrar esse clima, e suavizam os apartamentos, disfarçam metais, tubos, medidores, recursos de emergência, utensílios. Buscamares de hotel. Tá. Mas quem manda na comida é o nutricionista, não o chef. Aqui, o sujeito é objeto. Sujeito a. Sujeitado. O soberbo toma lições de humildade. Veste o que não vestiria, aquelas camisolas que não têm a parte de trás, franqueando o quê, a quê? Come o que não quer, noutro lugar não comeria. Em procedimento a que dão o nome erudito de tricotomia, perde pelos que a vida inteira estiveram lá, desde quando eram motivo de secreto orgulho adolescente.

E os exames, ah, os exames. É urina, quando não se tem para fazer, ou quando se tem muita e a coleta tarda; é sangue, quando já se está cansado de agulhas; é ressonância magnética, e bebe-se antes aquele caldo âhnn! do contraste; é eletro ou ultrassom, e se é pincelado com um geladíssimo álcool gel; é tomografia, e acaba-se enfiado naquele tubo como quem vai ser lançado ao espaço e, se acaso a pessoa comenta que um muito gordo não caberia naquele foguete espacial, respondem com franca frieza que os muito gordos são levados a fazer tomografia no Jockey Club.

O internado perde seu direito constitucional à privacidade. Além da camisola devassada, do sono interrompido a qualquer momento, tem a invasão corporal: ele é atacado por todos os orifícios, e, onde não há orifícios, os produzem. Não lhe resta o livre-arbítrio de que falam as Escrituras. Suas escolhas ou são de margem estreita ou vêm feitas. Quem está nessa condição, sujeito, negocia com a morte com certa naturalidade; outros, os desenganados, já a tratam com intimidade; os pessimistas, com fatalismo; alguns, os estoicos, aparentam até alguma leveza, como se falassem a um desconhecido sobre o tempo. Na relação delicada entre pessoas e hospitais, há no entanto um momento de beleza e alegria, quando mulheres bojudas entregam ao mundo e aos homens o seu bebê. Louvemos os bebês do novo ano.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO