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Prefeitura: lei de faixa indicativa em vitrines é aprovada

A partir de agora, lojas devem ter tarja em vidraças e portas de vidro, internas e externas, para evitar trombadas

Por: Mariana Barros - Atualizado em

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Fotomontagem mostra como poderão ficar os estabelecimentos comerciais da Rua Oscar Freire após a implantação da norma: trinta dias para se adaptarem (Foto: Fernando Moraes)

Os versos da canção ‘As Vitrines’, de Chico Buarque, ganharão no próximo mês uma versão paulistana: “Nos teus olhos também posso ver / As vitrines e suas tarjas de sinalização...”. Todos os estabelecimentos comerciais da cidade serão obrigados, a partir do mês que vem, a colocar faixas indicativas em suas vidraças e portas de vidro, internas e externas. Aprovada pelo prefeito Gilberto Kassab na semana passada, a lei é válida tanto para os lojistas de rua quanto para os de shoppings. Exige a fixação de uma linha horizontal de pelo menos 2 centímetros de espessura a uma altura entre 50 centímetros e 1,5 metro do chão. Não há especificação de cor; ela precisa apenas se destacar. Segundo a prefeitura, o intuito é garantir a segurança dos cidadãos — ou, em outras palavras, impedir que os distraídos deem com a cara no vidro.

Esses traços contínuos modificarão mais uma vez a fachada dos estabelecimentos comerciais, que, três anos atrás, já haviam sido enquadrados pela Lei Cidade Limpa. A norma extinguiu os tamanhos de suas placas expostas, extirpando do cotidiano da cidade os letreiros. “Ficou tudo mais ‘clean’, mais bonito. Mas agora parece que a prefeitura resolveu enfear o que estava bom”, diz Driely Jamile, vendedora de uma loja de roupas do Bom Retiro. “As vitrines ficarão horríveis.” Quem caminha pelo bairro percebe que há muito mais obstáculos a ser vencidos do que a percepção das transparências instaladas entre consumidores e manequins. É preciso desviar- se de buracos e postes e manter-se atento aos desníveis da calçada, da entrada das lojas e da guia na hora de atravessar a rua, já que nem todas as esquinas possuem rampa de acesso. “Nunca bati a cabeça em uma vidraça daqui, mas já tropecei nas falhas do caminho”, afirma a comerciante Dora Gonçalves Omarine. “Muitas vezes, estamos justamente concentradas na vitrine e não prestamos atenção no resto.” E mesmo quem está atento precisa fazer algumas manobras para prosseguir. Na quarta-feira passada (5), a reportagem encontrou no mesmo quarteirão da Rua José Paulino mais de dez ambulantes com barracas improvisadas nas calçadas, atrapalhando a passagem. Policiais militares que rondavam o local informaram tratar-se de vendedores licenciados para a atividade — apenas os que não possuem barracas são obrigados a se retirar dali.

Nos Jardins, onde a Associação de Lojistas da Oscar Freire começou uma ampla revitalização em 2006, enterrando fiação elétrica, reformando calçadas e criando mecanismos de acessibilidade, a medida também desagradou aos comerciantes, que ficaram surpresos com a decisão. “Quando eu soube, já estava aprovada. Não houve nem discussão”, conta Rosangela Lyra, presidente da associação e diretora-geral da Christian Dior no Brasil. Segundo ela, a filial paulistana da grife será a única em todo o mundo a desrespeitar o desenho de vitrine sazonalmente criado pela matriz francesa. O atual é composto de faixas verticais coloridas, que, apesar de sinalizarem a vidraça, terão de ser atravessadas por uma linha horizontal para se adequar à regra. “Vamos respeitar a lei, mas, se percebermos que a medida está tirando o charme, teremos de conversar”, diz. “A vitrine é a alma da coleção.” Haverá uma tolerância de noventa dias para que os comerciantes se adequem às exigências. Quem for flagrado sem a devida sinalização será multado em 500 reais, valor que dobra em caso de reincidência. De acordo com o autor da proposta, o ex-jogador de futebol e ídolo do Palmeiras Ademir da Guia (PPS), vereador na legislatura passada, o projeto foi motivado por relatos de pessoas que se machucaram. “Queremos ajudá-las a não colidir com o vidro.” Não há estudos sobre quantas pessoas trombam com as vitrines na cidade. Nem se os sustos provocados pelos preços altos aumentam o risco de colisão.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO