Especial

Lei antifumo: melhora qualidade do ar?

Revisitamos seis bares e baladas campeões de poluição para medir a qualidade do ar

Por: Maria Paola de Salvo - Atualizado em

Em abril, a reportagem de VEJA SÃO PAULO visitou uma série de estabelecimentos para verificar a qualidade do ar em seu interior. No pub All Black, nos Jardins, a situação era crítica. Logo na entrada, uma cortina de fumaça recepcionava os clientes. O nível de poluentes era vinte vezes mais alto que o verificado em avenidas e túneis da cidade. No último dia 7, data em que a lei estadual antifumo entrou em vigor, voltamos ao All Black com o mesmo aparelho usado na medição anterior. Constatamos redução de 93% na quantidade de poluentes. "Fregueses que afirmavam não vir aqui por causa do cheiro de cigarro reapareceram", conta a gerente Núbia Costa. "Trabalho há quinze anos na noite e nunca cheguei tão limpa e cheirosa em casa." Agora, só é permitido fumar na varanda localizada no 1º andar.

Além do pub, foram revisitados os outros cinco bares e baladas que tinham apresentado os piores resultados entre setenta pontos avaliados há quatro meses na reportagem de capa "Nosso ar está uma vergonha" (29 de abril). O teste da fumaça foi feito com um aparelho do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP que mede o poluente mais agressivo ao organismo: as partículas finas, aquela fuligem preta que cobre cortinas e carros. Produto da emissão de veículos e da fumaça do cigarro, essas substâncias podem provocar doenças vasculares e até câncer. Por isso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece um limite aceitável para a absorção pelo organismo ao longo de um dia - uma média de 25 microgramas do material por metro cúbico. A casa noturna Pink Elephant, no Itaim, ficou com o título de campeã da poluição. Lá, as concentrações ultrapassaram a casa dos 3?000 microgramas por metro cúbico, uma paulada e tanto para os pulmões. Na segunda avaliação, o índice baixou para 483 microgramas por metro cúbico, o que ainda é muito. "Num ambiente onde se fumava, é normal que o cheiro continue", afirma Leonardo Quialheiro, um dos sócios da casa. "Mas deve diminuir ainda mais, porque vamos trocar todos os estofados, que agora não serão queimados por bitucas."

Com um vigésimo da espessura de um fio de cabelo, as partículas finas podem ficar depositadas por algum tempo em cortinas, carpetes e revestimentos, segundo especialistas. Características que podem explicar, por exemplo, os índices ainda altos. Curiosamente, o Clash Club, na Barra Funda, foi o único dos seis locais em que as concentrações aumentaram. A explicação pode estar no jardim da casa, onde é permitido fumar e que, por isso mesmo, tem reunido dezenas de clientes. "Pela lei, a área externa pode receber fumantes, já que a distância da parte interna do clube impede a chegada de fumaça", diz o advogado da Clash, Augusto de Arruda Botelho. Segundo ele, já foram feitas ali quatro vistorias pela Vigilância Sanitária e o local foi aprovado em todas. "É verdade que o ar ainda não está ideal, mas a tendência de queda nos poluentes e os benefícios da lei são visíveis", afirma o engenheiro Paulo Afonso de André, pesquisador do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP.

Fonte: VEJA SÃO PAULO