Tecnologia

Rede social Laboratório de Garagem ganha sede física

Espaço virtual foi criado para reunir gente que produz de robôs a projetores. Sobrado na Vila Mariana agora promove o desenvolvimento de novas experiências

Por: Catarina Cicarelli - Atualizado em

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Nas horas vagas: Rodrigues (em primeiro plano, à esq.) investiu 15 000 reais na iniciativa (Foto: Fernando Moraes)

O desenvolvimento de novas tecnologias não é tarefa exclusiva de centros de pesquisa, universidades e empresas. Muitas invenções surgiram no fundo de um quintal. Para estimular esse tipo de atividade, foi criado, em meados do ano passado, o Laboratório de Garagem (www.labdegaragem.com), rede social que conta com mais de 2600 adeptos. Lá é possível compartilhar novos experimentos e buscar soluções para torná-los realidade: até agora, doze estão disponíveis no site. Mas o que era virtual ganhou forma no mundo real. No começo de novembro foi inaugurada uma sede física em um sobrado na Vila Mariana. A ideia é que os membros possam se conhecer pessoalmente e criar em conjunto. “Na rede, discutimos ideias. Aqui, a gente as põe em prática”, explica o fundador, Marcelo Rodrigues. Engenheiro eletricista, ele só se dedica à ciência nas horas vagas, entre um expediente e outro como diretor pedagógico da Escola do Max, na Chácara Klabin. Nesses momentos, sua atenção é canalizada para artefatos como um robô com câmera, controlado via internet, que se tornou a mascote do Laboratório. A sensação de que não era o único inventor caseiro o motivou a buscar colegas, mas ele não contava com o crescimento tão rápido da rede. “Eu não tinha noção de que havia tantas pessoas produzindo em casa. Contamos com membros no país inteiro”, comenta.

A inscrição no site é gratuita, e o cadastro exige apenas alguns dados básicos, como nome, idade e profissão. O uso da oficina também não é cobrado caso o projeto seja divulgado na rede, para que outros possam reproduzi-lo. Se quiser manter sigilo, a mensalidade sai por 50 reais — estudantes têm 50% de desconto. A casa fica aberta de segunda a sexta, das 9 às 21 horas, e aos sábados, das 10 às 15 horas, mas é raro o dia em que o horário não é esticado. O Laboratório tem até um estagiário, Dalton Hioki, que aos 25 anos alterna o trabalho com o curso de engenharia elétrica na FEI. Outra presença constante é o estudante Leonardo Yoshiak Kamigauti, que acaba de completar o 1º ano do ensino médio e passa em média sete horas por dia no local.

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Robô wi-fi: equipado com três rodas, dois motores e uma câmera, pode ser controlado pela internet (Foto: Fernando Moraes)

Os novos equipamentos usam materiais baratos, fáceis de encontrar, ou até mesmo improvisados. Para construir uma câmara hiperbárica, dispositivo em que a pressão interna é controlada, foram utilizadas uma panela de pressão e uma bomba de ar automática. “O lixo de uns é o tesouro de outros”, brinca Kamigauti, ao mostrar o “ferro-velho”, uma caixa repleta de pedaços de metais, fios e placas velhas. Todos colaboram com peças, e Rodrigues ganhou pontos em casa por ter dado fim a seu lixo. “Minha mulher está super feliz porque eu tirei essa tranqueira toda de lá”, diz. A grande quantidade de objetos espalhados não impede que o Laboratório seja organizado, com bancadas, caixas e um painel para pendurar ferramentas. “Não é nada parecido com a bagunça das garagens que eu frequentava na faculdade”, conta o biólogo Victor Skrabe, que desenvolveu um scanner 3D.

A rede e a sede foram financiadas por Rodrigues, a um custo inicial de 15 000 reais. “Tem gente que gosta de gastar com carros, viagens ou roupas. Eu prefiro investir em ideias”, afirma. Além da criação de produtos alternativos, mais baratos que os do mercado, o Laboratório busca a viabilização comercial das invenções. Os garagistas têm a opção de tentar a fabricação própria, vender o projeto a empresas ou buscar parcerias. Essas possibilidades são discutidas no andar de cima do sobrado, onde funciona a “incubadora”, com salas de reunião e escritórios coletivos. Uma loja virtual foi aberta há duas semanas. Nela, os membros vendem componentes para ajudar a tornar a rede autossustentável. Por enquanto, nenhuma das criações chegou ao mercado.

Fábrica de ideias

Criações do Laboratório vão desde novidades até reinvenções mais acessíveis de produtos que já existem

■ Projetor de texto: um microcontrolador move pequenos espelhos e lasers em alta velocidade, e a luz refletida forma as palavras, projetadas na tela ou na parede

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(Foto: Fernando Moraes)

■ Projetor multimídia: usa uma lâmpada de vapor metálico, que custa cerca de 30 reais, enquanto os projetores comuns funcionam com lâmpadas de 500 a 1 000 reais

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(Foto: Fernando Moraes)

■ Garaquático: o robô aquático pode ser operado remotamente e, com uma câmera acoplada, capta imagens submarinas em 3D (o equipamento sendo testado em câmara hiperbárica produzida a partir de panela de pressão)

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(Foto: Fernando Moraes)

■ Fresadora: versão mais barata da máquina, utiliza peças como réguas de pedreiro e possibilita corte de materiais como madeira, plástico e metais leves

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(Foto: Fernando Moraes)

Laboratório de Garagem. Rua Berta, 60, Vila Mariana, tel. 3804-0126.

Fonte: VEJA SÃO PAULO