Esporte

Astros do futebol amador são disputados por times de bairro

Em alguns casos, eles têm o privilégio raro de receber cachê

Por: Silas Colombo

Futebol Varzea
Felipe Carvalho dos Santos (Felipinho) Idade: 24 anos Profissão: motorista Posição: meia-esquerda Times atuais: Grêmio Espada de Ouro e Estrela do Rio Pequeno Passado profissional: jogou nas categorias de base de times como a Portuguesa Auge da carreira: em 2010, ao lado de Edmundo e Ronaldinho Gaúcho, disputou partida beneficente no Panamá contra Lionel Messi e outros craques (Foto: Ricardo D'Angelo)

Felipe dos Santos, o Felipinho, trocou os primeiros passes como jogador da Portuguesa aos 15 anos. Destaque em campeonatos de juniores pelo clube, foi promovido para a equipe principal cinco anos depois. Chegou a ganhar 3000 reais por mês. Após fases menos produtivas, foi emprestado a agremiações de Minas e do Rio. Quando defendia o Macaé, da segunda divisão fluminense, soube da gravidez da namorada, que ficara em São Paulo, e decidiu voltar. Empregou-se como motorista de executivos, função que exerce ainda hoje.

+ Confira as fotos de um verdadeiro jogo de várzea

Aos 24 anos, já divorciado, o meia-esquerda, nascido no Jardim Bonfiglioli, na Zona Oeste, mantém as chuteiras nos pés. Ele é o Neymar do futebol de várzea paulistano, o que lhe confere posição singular entre o exército de peladeiros. Um dos privilégios é ser disputado pelos times a cada temporada — desde 2012, vestiu cinco camisas amadoras de equipes da capital (atualmente, joga pelo Espada de Ouro e pelo Estrela do Rio Pequeno, em torneios distintos).

O outro bônus é inimaginável para a maioria dos colegas: ele recebe cachê, de cerca de 200 reais por partida. O sucesso em terra de cego lhe dá ânimo para vislumbrar novos dias de glória. “Farei um teste para o Pumas, do México”, diz. A oportunidade, relata, surgiu depois que o Espada de Ouro enviou ao clube da primeira divisão mexicana um vídeo com seus momentos mais brilhantes.

Futebol Varzea
Lucas Francisco Teixeira Silva (Lucas Paulista) Idade: 24 anos Profissão: barman Posição: atacante Time atual: Santos do Parque Regina Passado profissional: atuou na base do São Paulo, do Grêmio e do Audax Auge da carreira: na semifinal do campeonato gaúcho de juniores, em 2009, marcou de falta o único gol do Grêmio na vitória sobre o São José, levando o time à final (Foto: Lucas Lima)

Para cada Felipinho nos campos da metrópole, há milhares garantindo o tradicional festival de caneladas e “bicudas”. Só na Liga Paulistana de Futebol Amador (LPFA), entidade que regulamenta a modalidade, estão cadastrados cerca de 27000 jogadores e 1200 equipes. Eles entram em disputas como a Copa da Liga, iniciada no último dia 25. Além de consagrar os destaques de cada região da cidade, o campeonato distribui prêmios que passam de 10000 reais (geralmente, revertidos em churrasco) e vagas de acesso para a cobiçada Taça Brahma.

O evento patrocinado pela cervejaria tem sua final no Estádio do Pacaembu, com uma média de 10000 presentes, entre eles dirigentes dos melhores times de várzea. É a chance ideal para impressionar o meio e, quem sabe, ser cooptado pela concorrência dos gramados.

Futebol Varzea
Juvenal Ferreira da Silva Junior (Juninho) Idade: 31 anos Profissão: segurança e aluno da faculdade de sistemas de informação Posição: atacante Times atuais: Grêmio Espada de Ouro e Casarão Passado profissional: equipes principais dos paraenses Paysandu e Remo e do paulista Portuguesa Auge da carreira: “Aos 17 anos, quando assinei o primeiro contrato profissional com o Paysandu, senti meu sonho realizado” (Foto: Ricardo D'Angelo)

Almejar o ingresso (ou o retorno) à categoria profissional é algo para poucos, como Lucas Silva. Com passagem pelas bases do Grêmio e do São Paulo, o atacante sabe que não pode repetir os erros de anos atrás. “Ele não teve maturidade para encarar a realidade do futebol”, lamenta o pai, Wilson Silva, treinador do Santos do Parque Regina.

O técnico se refere à demissão do filho do Audax, recém-alçado à primeira divisão do Paulista, após briga com dirigentes por não concordar em ficar um período de molho. No amador, ele ajudou (sem cachê) o time do pai a conquistar a última Taça Brahma. “É minha chance de voltar a brilhar”, afirma ele. Para quem insiste em perseguir esse sonho, driblar os desafios da rotina é o jogo mais duro.

Juvenal Junior, o Juninho, faz musculação nos momentos livres entre a faculdade de sistemas de informação, as aulas de informática que ministra em uma ONG no Campo Limpo e os plantões como segurança noturno. Mesmo assim, ainda encontrou tempo para garantir a artilharia do torneio eliminatório, com dez gols. Ele recebe 100 reais por partida. “Tenho muito prazer no esporte e isso facilita a dedica-ção”, diz Juninho, que já foi das equipes principais dos paraenses Paysandu e Remo e do paulista Portuguesa.

Fonte: VEJA SÃO PAULO