Negócios

JK Iguatemi à espera dos clientes

Lojistas e funcionários vivem a expectativa da inauguração. Com abertura vetada pela Justiça, o shopping contabiliza prejuízos de 20 milhões de reais em um mês

Por: João Batista Jr. - Atualizado em

JK Iguatemi Shopping - Negócios 2271
O gerente-geral Fernando Bonamico e alguns dos 3.600 profissionais já contratados: últimos preparativos (Foto: Fernando Moraes)

Nove horas da manhã da última quinta-feira, dia 24. O empresário Carlos Jereissati Filho, acionista de doze shoppings, começa a circular pelo mais novo empreendimento do grupo, o JK Iguatemi, criado em sociedade com a construtora WTorre. Calçando protetores de algodão nos sapatos, similares aos usados em centros cirúrgicos, ele caminha pelo piso de mármore e granito seguido por um batalhão que anota as pendências em pranchetas. “O foco da luz está correto?”, “Essa poltrona fica exatamente aqui?”, “As descargas do banheiro estão funcionando?”, pergunta aos responsáveis por áreas diversas, da segurança à cenografia, em preparação para inaugurar o centro de compras na próxima semana. A expectativa era abrir as portas na quarta-feira (30), após um mês de batalha judicial. Em encontro com o sócio Walter Torre horas antes, o prefeito Gilberto Kassab teria se comprometido em acelerar os trâmites burocráticos e emitir um Termo de Recebimento e Aceitação Provisório (Trap), documento que permitiria o funcionamento, o que não havia acontecido até o fechamento desta edição.

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A maioria das 182 lojas está com as vitrines reluzentes, como a joalheria Van Cleef & Arpels — cujas peças já enfeitaram o pescoço de Grace Kelly e Liz Taylor — e a marca de acessórios Goyard, ambas de origem francesa e inéditas no país. Se o colosso de paredões brancos e envidraçados, que nascerá como um dos shoppings mais sofisticados do país, realmente começar a funcionar na quarta, será o fim de uma novela arrastada. No dia 14 de março, o Tribunal de Justiça acatou o pedido da Promotoria de Habitação e Urbanismo para impedir o início das operações. Motivo: não estavam finalizadas todas as obras atenuantes a seu impacto no trânsito da região, conforme acordado com a prefeitura. O que se viu a partir daí foi uma queda de braço como poucas no histórico urbanístico de São Paulo. Os sócios calculam ter desembolsado 3 milhões de reais em advogados que tentaram (sem sucesso) medidas revogatórias.

Em outra frente, investiram em saídas pelo caminho administrativo e político, para conseguir o tal documento provisório, sob o argumento de que as contrapartidas poderiam ser “fatiadas” em etapas — afinal, conforme demonstraram, elas dizem respeito não apenas ao shopping propriamente dito mas a todo o complexo WTorre Plaza, que, no total, será composto de cinco prédios até 2014. Faz semanas que Torre fala diariamente com o prefeito Gilberto Kassab a respeito, mas, por causa da burocracia, nada estava decidido, com prejuízo não só para os empreendedores, lojistas e funcionários como também para a prefeitura — os cofres municipais vão arrecadar 250.000 reais por mês só de IPTU. Na terça, ele encontrou-se com um aliado, o ex-presidente Lula, que teria prometido intervir pessoalmente na tentativa de acelerar o desfecho. “Todos entendem que o shopping é vantajoso para a cidade”, afirma Torre. “Vamos atrair turistas e já criamos 3.600 empregos.”

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O construtor Walter Torre: apelo a Lula e ansiolítico Rivotril para aguentar a pressão dos lojistas (Foto: Mario Rodrigues)

Diante do desgaste de imagem com a pendenga, a inauguração deverá ser discreta. O plano inicial era abrir o JK Iguatemi em 18 de abril com a presença de celebridades, políticos e empresários. Mais de quarenta convidados do exterior, entre estilistas e diretores das grifes, haviam confirmado presença. Agora falta clima para tanto. Aos mais próximos, Torre confidenciou tomar quatro comprimidos do ansiolítico Rivotril por dia para aguentar a pressão dos lojistas. “Gasto 160.000 reais por mês para honrar minha folha de pagamento”, lamenta Sylvio Lazzarini, dono da churrascaria Varanda, que investiu 5 milhões de reais no novo negócio e contratou 67 funcionários. As setenta mesas, 210 cadeiras e o restante do mobiliário estão no salão, assim como a adega com 1.400 rótulos.

O restaurante Ráscal também sofre com os atrasos. “Perdi quarenta empregados”, conta Roberto Bielawski. “Eles estavam treinados e, diante das incertezas, pediram demissão quando surgiram outras propostas.” Já a Burberry, que monta ali sua primeira loja-conceito, com dois andares, havia preparado uma celebração com o estilista Christopher Bailey e alguns de seus principais executivos, mas transferiu o encontro às pressas para Londres. Kika Rivetti, que comanda a grife francesa Longchamp, contemporiza: “A relação com os sócios é boa, e algum diretor nos liga toda semana para dar satisfações e oferecer apoio”.

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Carlos Jereissati Filho: vinte viagens ao exterior para atrair marcas de fora (Foto: Mario Rodrigues)

Desde que foi convidado por Torre para fazer parte dessa sociedade, em 2007, Jereissati Filho passou a dizer a parceiros que criaria um marco no próspero mercado de luxo da cidade. Para compor o mix com lojas que incluem ainda Chanel, Lanvin, Jaeger-LeCoultre, Diesel e outras, fez mais de vinte viagens internacionais, nas quais apresentou números sobre o poder de compra dos paulistanos e os atrativos da metrópole. “Expliquei que o consumo aqui vai crescer muito e é a hora de apresentar e reforçar a imagem das marcas”, conta ele. “Nosso empreendimento vai além do luxo. Fiz questão de fazer um shopping integrado ao bairro, com acessos para quem deseja entrar a pé”, continua ele, em referência velada ao também sofisticado Cidade Jardim, seu maior concorrente. A briga mais interessante, para fisgar os consumidores, está apenas começando.

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Obras do viaduto que ligará a Avenida Juscelino Kubitschek à pista central da Marginal Pinheiros: a via ficará pronta só daqui a sete meses (Foto: Mario Rodrigues)

OS MOTIVOS DO IMBRÓGLIO

Para todo o complexo WTorre Plaza — composto também de quatro torres com escritórios, restaurantes e teatro —, a prefeitura exigiu obras de contrapartida que visavam a amenizar o impacto no trânsito. As benfeitorias foram divididas em duas etapas. Os sócios argumentam que, como nem tudo será inaugurado agora, as compensações que já estão prontas são suficientes para a abertura do shopping

FASE 1 Finalizada em 2011

Custo de 52 milhões de reais

■ Alargamento de trecho de 9 quilômetros da Marginal Pinheiros

■ Nova alça para a Ponte Cidade Jardim

■ 14 quilômetros de calçadas permeáveis na Vila Olímpia

■ Rodoviária subterrânea com capacidade para vinte ônibus que prestam serviços à SPTrans

■ Semáforos e placas

FASE 2

Prevista para 2012

Custo de 42 milhões de reais

■ Ciclovia de 4,8 quilômetros às margens da Marginal Pinheiros (concluída)

■ Quarta faixa da Marginal entre a Rua Quintana e a Ponte Engenheiro Ary Torres (concluída)

■ Viaduto que liga a Avenida Juscelino Kubitschek à pista central da Marginal (previsão de término em sete meses)

■ Passarela para bicicletas entre o Parque do Povo e a ciclovia da Marginal (previsão de término em sete meses)

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As joalherias Van Cleef & Arpels e Jaeger-LeCoultre, no piso térreo: inéditas no país (Foto: Mario Rodrigues)

MAIS UM GIGANTE

500.000 sacos de cimento foram utilizados na construção do shopping, material suficiente para pavimentar uma estrada de quatro pistas com 27 quilômetros de extensão

4.800 placas de Crystalato importadas do Japão revestiram a fachada, ao custo total de 5,3 milhões de reais

30.000 pessoas deverão passar ali por dia

182 lojas

116.000 metros quadrados de área construída

21 lanchonetes e restaurantes

8.400 metros quadrados de vidros ecológicos vindos da Bélgica foram utilizados na obra

1.000 toneladas de aço foram usadas na construção, o que daria para produzir 1.000 carros tipo sedan

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Espaço de descanso só para clientes “cadastrados”: o novo templo do luxo (Foto: Mario Rodrigues)

BIKES, CINEMA 4D E FRALDÁRIO CAPRICHADO

Quem mora em uma cidade servida por 53 shoppings já viu praticamente de tudo, mas a gerente de marketing Renata Zitune diz que o JK Iguatemi terá uma série de surpresas. Além do cardápio de lojas — com vitrines inéditas no país, como a Sephora, espécie de Disney dos cosméticos, e a TopShop, rede de fast-fashion modernete —, haverá serviços como o aluguel de 300 bicicletas (na foto) e patinetes para passeios pelo vizinho Parque do Povo, por 20 reais a hora.

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Aluguel de 300 bicicletas é uma das surpresas que promete a gerente de marketing Renata Zitune (Foto: Divulgação)

Quatro obras de artistas plásticos badalados, como o dinamarquês Jeppe Hein e o baiano Marepe, estarão nos corredores, ao lado de tablets com informações sobre os trabalhos e de bancos de couro para que possam ser contemplados. De uma champanheria em parceria com a importadora Mistral, será possível ver o movimento na butique Bottega Veneta e nas joalherias IWC e Panerai. Por fim, o complexo de cinemas será composto de uma sala Imax, quatro 3D, duas convencionais e outra que promete causar arrepios nos cinéfilos. Literalmente. O espectador vai sentir frio, cheiros e tremores de cadeiras de acordo com o filme em exibição, na primeira sala 4D da América do Sul. Com 200 lugares, ela tem as fileiras de cadeiras distantes meio metro umas das outras para permitir que todos sintam os efeitos, como jatos de água.

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O fraldário em estilo provençal: haverá ainda quatro salas individuais para amamentação (Foto: Mario Rodrigues)

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PORTAS FECHADAS, CAIXAS VAZIOS

De 18 de abril a 18 de maio, o empreendimento registrou as seguintes perdas:

20 milhões de reais deixaram de ser movimentados pelas lojas

250.000 reais foram gastos com água e luz mesmo sem clientela

5,5 milhões de reais em aluguéis e condomínio não entraram na conta dos administradores

3 milhões de reais são os honorários de advogados que tentaram reverter a pendenga judicial

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO