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Jarbas Homem de Mello emociona o público em 'Chaplin, o Musical'

Marido de Claudia Raia, o ator e coreógrafo sai da sombra da famosa atriz, com quem vive há três anos

Por: Dirceu Alves Jr.

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Jarbas Homem de Mello: o protagonista de "Chaplin, o Musical" já foi garçom e vocalista de banda de rock (Foto: Mario Rodrigues)

Desde o Carnaval de 2012, Jarbas Homem de Mello, de 45 anos, temeu ver uma carreira de duas décadas ofuscada pela sombra de um aposto, o de namorado da atriz Claudia Raia. Na época, ele contracenava com a estrela no musical Cabaret, e as cenas da intimidade dos camarins ganharam visibilidade nacional em uma troca mais afoita de carinhos no sambódromo carioca. “No dia seguinte, eu acordei e cheguei a pensar que tínhamos feito uma bobagem”, lembra. O ator e coreógrafo era então conhecido no circuito dos palcos paulistanos, mas anônimo no mundo das celebridades. O relacionamento engatou e rendeu outra montagem de sucesso, Crazy for You, de 2013 a 2014.

Hoje, o romance, definido pelos dois como casamento, não é novidade. O medo de entrar para a história na sombra da parceira famosa também se dissipou totalmente. Prova disso é a performance dele como protagonista do espetáculo Chaplin, o Musical. Em cartaz no Theatro Net, no Shopping Vila Olímpia, a versão brasileira da produção americana de Christopher Curtis e Thomas Meehan foi vista por 25 000 espectadores desde a estreia, em maio, e os ingressos para as próximas duas semanas estão esgotados.

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O sonho de viver Chaplin nasceu há dois anos para o artista gaúcho, radicado na capital paulista desde 1994. Surgiu nos ensaios de Crazy for You, e a preparação tomou forma em setembro passado. Como ícone do cinema mudo, o inglês Charles Chaplin (1889-1977) se expressava pelo corpo, e por isso Jarbas reforçou seus conhecimentos de acrobacia e sapateado, além de tomar aulas de patinação, slackline e violino. A obsessão foi tanta que, para imitar o canhoto Chaplin, passou a escrever com a mão esquerda. Sua mulher famosa assina a produção do musical e levantou a verba de patrocínio. Mas nem os detratores mais ácidos ousam dizer que a razão do sucesso está no esforço de Claudia nos bastidores. Em duas horas e meia, o protagonista comove e faz rir ao representar o realizador do clássico O Grande Ditador dos 14 aos 82 anos sem recorrer a truques como maquiagem pesada e explorando basicamente o gestual e a postura. Ainda oferece uma leitura psicológica do caráter dúbio do personagem. A cena final, em que Chaplin recebe o Oscar honorário em 1972, leva muita gente às lágrimas. “O que mais admiro na personalidade dele é a eterna superação pelo trabalho”, afirma Jarbas. “Teve uma infância difícil, um pai que bebia, a mãe louca... Mesmo consagrado, a cada rasteira que levava vinha um filme melhor.”

Jarbas nasceu em um bairro agrícola de Novo Hamburgo, um dos principais polos calçadistas do Rio Grande do Sul, como o recheio de uma família de três filhos. Hoje aposentados, o pai era caminhoneiro e entregador de leite e a mãe ajudava a segurar as pontas como cabeleireira. Na parede do quarto que dividia com os irmãos, duas imagens de Chaplin — uma do filme O Garoto e a outra uma foto do comediante com um cão — não lhe diziam quase nada. Só percebeu o artista quando assistiu ao longa Tempos Modernos na televisão aos 17 anos. “Ele era todo desencaixado, caminhava com as pernas abertas”, recorda.

O jovem já havia descoberto o teatro amador, era vocalista de uma banda de rock, dançava música folclórica e fazia curso técnico para modelista de fábrica de sapatos. “Era a única perspectiva concreta”, lembra. Faturava extras como produtor de peças e shows em Porto Alegre. A mudança para São Paulo foi justificada por um teste para um seriado na TV Manchete que nunca entraria no ar, pois a emissora decretou falência e acabou extinta em 1999. Boa-pinta, ganhou a vida como garçom em restaurantes descolados e acumulou experiência em comédias que não impressionam a crítica mas têm público cativo, além de atuar em peças infantis nas quais explorava o talento de sapateador. A (pouca) sobra do mês era aplicada em cursos de flamenco, balé clássico e canto.

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Com a expansão por aqui do mercado de musicais, Jarbas era um dos raros atores preparados para enfrentar os testes e marcou presença em sucessivas produções. Rent (1999), Les Misérables (2001) e O Fantasma da Ópera (2005) são algumas delas. Selecionado para o time de substitutos de Miss Saigon (2007), pulou fora e montou a comédia Querido Mundo, ao lado da atriz Maximiliana Reis. “Jarbas e eu estávamos um tanto frustrados e, com despretensão, conquistamos um sucesso de três anos e 150 000 espectadores pelo país”, conta Maximiliana. Durante as audições para o musical Pernas pro Ar, em 2009, ele apertou a mão de Claudia Raia e lançou um “muito prazer”. Os dois só se conheciam de vista. Meses depois, a estrela comentou que produziria Cabaret e ele, na cabeça dela, era o único artista capaz de dançar, cantar e interpretar MC, o segundo personagem da história. “Você não brinca comigo, daqui a um ano vai se esquecer disso e ficarei frustrado”, provocou.

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O reencontro se concretizou em 2011, e ele se mostrou à altura, sendo indicado aos prêmios Shell e Governador do Estado, além de monopolizar os elogios na pele do mestre de cerimônias de uma boate de Berlim da década de 30. O personagem foi imortalizado por Joel Grey no filme estrelado por Liza Minnelli em 1972. A confiança se transformou em admiração, Claudia estava separada do ator Edson Celulari, e tudo veio à tona no tal beijo no sambódromo. O assédio em torno do namoro tirou o sono do ator. De repente, o homem solteiro e discreto por opção estava ao lado de uma celebridade, a ex de um galã e mãe de dois filhos. “Era um pacote grande”, diz.

A primeira aparição oficial do casal foi na entrega do Prêmio Shell, um mês depois do Carnaval. Dezenas de fotógrafos cercaram a mesa dos dois. Experiente nos holofotes, a estrela cochichou em seu ouvido. “Vamos nos beijar e brindar com a taça de champanhe que eles ganham a foto e nos deixam sossegados.” A barra pesou quando Jarbas ouviu comentários, de pessoas próximas, de que estava sendo oportunista ao posar de namorado da atriz. “As pessoas podem falar o que quiserem, mas saem do teatro de queixo caído com o trabalho dele, e só nós sabemos das tantas afinidades que nos une”, afirma Claudia.

Vivendo em um apartamento no Itaim, por onde circulam os gatos Espeto, Próspero e Porter, a dupla divide o tempo com interesses semelhantes. São aulas de dança, sapateado, pilates e ginástica e, além dos futuros musicais, há o projeto de uma temporada de estudos no exterior. O ator ainda sonha dirigir Claudia em um monólogo dramático, adaptado de um clássico grego. “Nunca tinha tido o prazer e a solidez de fazer planos com alguém, pensando longe, em 2018 ou 2020”, afirma ele. Fanática por sapatos, a mulher recorre à consultoria do marido na hora de renovar a coleção. Bem versado no assunto, ele sabe analisar as costuras e a qualidade dos solados.

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Jarbas convive com amigos famosos dela, como os apresentadores Luciano Huck e Angélica e o empresário José Maurício Machline, que o convidou neste mês para coreografar um dos números do Prêmio da Música Brasileira em homenagem a Maria Bethânia. “É um profissional que não tem constrangimento em se adaptar a um conceito e criou um balé moderno relacionado às religiões africanas no Brasil”, elogia Machline. A turma dele também já é a de Claudia. Um dos amigos mais próximos, o ator e produtor Carlinhos Machado se comove com a generosidade dela. “Perdi minha mãe e minha tia em seis meses, e Claudia me ajudou a enfrentar a dor em todos os momentos. O casal tem temperamento muito parecido”, completa Machado, que trabalha nos bastidores de Chaplin.

Se a base da atriz ainda é no Rio de Janeiro, será por pouco tempo. Os filhos dela, Enzo, 18 anos, e Sophia, 12, passam os fins de semana por aqui, e veio do rapaz a sugestão da transferência para São Paulo. Enzo prestará o vestibular para administração, e a mãe pesquisa uma escola para Sophia. Em meio a isso, vem a procura de uma casa maior. Ela revela que a única exigência do marido é ter uma churrasqueira. “Ele leva muito jeito na cozinha e é ótimo na hora de assar uma carne”, conta. A convivência dos familiares tem sido testada e, pelo visto, alcança resultados. Os dois últimos réveillons foram celebrados em Garopaba, no litoral de Santa Catarina, com a presença dos parentes de Jarbas. “Quando vi o Enzo tomando chimarrão com minha sogra, eu respirei aliviada e percebi que as famílias estavam integradas”, diz Claudia.

Fonte: VEJA SÃO PAULO