Arte e design

Já ouviu falar em Upcycling?

Antes desperdiçadas, sobras de couro, cristal e madeira são reusadas na manufatura de objetos únicos - e tão ou mais caros que os produtos clássicos

Por: Fernanda Danelon e Simone Esmanhotto, de Pantin - Atualizado em

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Retalhos descartados da produção da Hermès, em Pantin: reaproveitamento engenhoso pelos artesãos da petit h (Foto: Vincent Leroux)

Desde menina, Pascale Mussard, herdeira da sexta geração Hermès, cultiva a mania obsessiva de guardar o que qualquer um classificaria como “cacareco”, mas que ela sempre enxergou como “um dia pode ser útil”. Acostumada a frequentar o ateliê da grife em Pantin, a cerca de 20 minutos do parisiense Rio Sena, Pascale tinha vontade de se apropriar dos retalhos de crocodilo e vitelo, sobras do couro recortado para dar forma a bolsas Kelly e Birkin que se acumulavam sob as mesas dos artesãos, mas bem que poderiam ser úteis para algo. O mesmo acontecia com as fivelas de metal dos acessórios, xícaras e bules da linha mesa, toalhas da linha casa e vasos soprados na cristaleria Saint-Louis, uma das marcas do grupo Hermès. Tudo feito com matéria-prima de primeira, mas que, devido a um defeito às vezes invisível aos olhos leigos, era reprovado no rigorosíssimo controle de qualidade. Pascale, então, defendeu diante do comitê executivo a criação de uma nova marca sob o guarda-chuva da família: a petit h, ou “agazinho”. A ideia dessa irmã mais nova, por isso batizada com letras minúsculas, é peneirar o material rejeitado na linha de produção das catorze especialidades da maison. Depois, ele pode ser trabalhado de duas formas: ou é entregue a um dos oito artesãos para ser reinventado ou é enviado a um artista plástico eleito por Pascale para virar obra de arte.

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Vaso da cristaleria Saint-Louis: ideia da artista Chastenet para a petit h (Foto: Coco Amardeil)
A petit h não aceita qualquer coisa: a dose de imperfeição da peça rejeitada precisa ser aproveitada de um jeito inteligente, quase sempre com um toque de humor ou “surrealidade” (não espere um objeto de couro defeituoso, portanto). É o caso do Kelly Coucou: a marquinha central foi recortada e deu lugar a um relógio cuco com mecanismo de um dos melhores relojoeiros de Genebra. “Para mim, é tradução do espírito francês no design da mesma forma que o pain perdu na gastronomia”, diz Pascale, sobre um clássico da sobremesa cuja premissa é, como na nossa rabanada, aproveitar o pão velho. As peças são únicas, lançadas uma vez por ano, vendidas numa cidade eleita (Paris, Nova York e Berlim já entraram no roteiro), e não seguem nenhuma cartilha comercial. Vão desde uma escultura de urso de 2 metros de altura, toda de couro, com o laranja-Hermès, até uma luminária feita com xícaras de Limoges empilhadas. Algumas inspiram, inclusive, as linhas da marca com H maiúsculo. É o caso do bracelete feito com couro de rabo de crocodilo: o joalheiro Pierre Hardy o viu e tratou de reproduzi-lo numa versão escamada de prata, exposta na vitrine do número 24 da rue du Faubourg Saint-Honoré. Pascale estuda agora uma forma de fazer um feltro com punhados de fios de seda dos lenços.

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Cadeira feita de roupas usadas, do designer Tobias Juretzek (Foto: Divulgação)
A iniciativa da Hermès ilustra uma tendência da indústria do design, o chamado upcycling. A palavra, junção de “up” com reciclagem, significa dar status novo e melhor a algo que acabaria (injustamente) condenado ao lixo. Ao contrário da reciclagem, no entanto, a matéria-prima não precisa “morrer” para renascer — pense numa lata de alumínio, por exemplo, que tem de ser derretida para dar origem a uma nova. Aqui, a proposta é lançar mão de soluções engenhosas sem que o objeto mude de estado químico no processo. É um reúso criativo, que vem se propagando entre grifes que sabem ter em mãos um material merecedor de uma segunda chance.

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Composição com retalhos de outros tapetes: assinada por Francesca Alzati, à venda na By Kamy (Foto: Divulgação)
Na mais recente edição da feira Design Miami, uma das mais inovadoras do segmento, a convite da Fendi, o estúdio holandês Formafantasma desenvolveu objetos com couro e outros materiais naturais descartados nas oficinas da marca italiana. Mas o upcycling não se restringe aos acessórios elaborados com produtos de origem animal. O artista plástico e designer paulistano Alessandro Jordão fez cadeiras, mesas, pufes e estantes com pedaços de lataria de Fusca. “Acredito que nada se copia, tudo se transforma”, conta Jordão. O arquiteto e designer Maurício Arruda pegou as caixas plásticas coloridas utilizadas em feiras e empórios para carregar frutas, verduras e legumes e colocou-as no centro da sala de estar. São cômodas, criados-mudos e bufês cuja estrutura é feita de chapas de madeira maciça teca, com selo de certificação ambiental, e que abrigam as tais cestas feitas de plástico reciclado. O fato de os itens serem artesanais e produzidos em pequena escala atiça o desejo do consumidor, mas talvez o maior valor venha justamente da história de cada um deles. “A ideia é única”, diz o arquiteto Maurício Queiroz, especialista em tendências de consumo. Daí o batismo da cadeira Rememberme (“Lembre-se de mim”, em inglês), do alemão Tobias Juretzek, confeccionada com roupas usadas. No quesi-o closet, aliás, a produtora italiana Livia Giuggioli, casada com o ator britânico Colin Firth, desde 2010 se destaca nas cerimônias do gênero Oscar por vestir apenas longos criados com roupas antigas — um deles elaborado com seu vestido de casamento. Ter o aval da Hermès e do tapete vermelho pode ser o primeiro passo para o reaproveitamento chique ser visto com outros olhos.

Fonte: VEJA SÃO PAULO