Crônica

Começos

Por: Ivan Ângelo - Atualizado em

Começos Foto 2
(Foto: Veja São Paulo)

A amiga olhava o copo de chope, uma cara de que tudo no mundo era impossível.

- O que é que você tem?

Um suspiro e:

- Nada.

- É o cara?

Como resposta, um gesto de mãos, ombros e rosto significando: o que eu posso fazer?

- Quer que eu mate ele?

- Mata mesmo? Tem coragem?

- Ô se tenho. É só mandar.

- Tá mandado.

- Tiro?

- Forca. Bem devagarinho.

- É um homem morto.

Riram, um pouco enjoados da brincadeira. Depois, ela:

- Você gosta de mim?

- Gosto, claro.

- Tou falando gostar mesmo. Entendeu?

- Ó que perigo. Olha pra você. Já imaginou? Você, eu, nós dois, ó o perigo.

Ele parecia um jogador de xadrez jogando com as pretas. Seus movimentos eram sempre uma resposta. Aguardou calado o próximo lance.

- Eu sou uma chata, fala a verdade.

- Você não é chata. É atrapalhada, mas não é chata.

- Não tou me aguentando. As coisas vão ficando difíceis, vai tudo dando errado, dá uma preguiça de tocar o resto...

- Olha, vou te dizer uma coisa. Se você não tem como alcançar a fruta que quer, não fica pulando debaixo da árvore pra pegar. Dá muito na vista. As pessoas vão acabar rindo de você. Disfarça e sai numa boa.

- Falar é fácil.

- E vai ver a fruta nem vai agradar. Parece boa, mas do outro lado tá bichada.

- Ah, não vem com essa. Cruel, cara! Não esperava essa de você. Ele não é gay.

- E eu tou falando que é? Falei nada.

Ela bebeu um gole do chope, fez cara de quem não gostou. O jogador de xadrez ficou à espera de outro lance. Ela:

- Eu às vezes fico pensando...

- O quê?

- Que você gosta de mim.

- Bobagem.

- Gosta não?

- Não.

- Então tá. Pede mais um chope pra mim? O meu ficou horrível, amargo. Esquentou.

- O meu também.

Ele ergueu o braço acenando para o garçom, levantou o copo vazio e fez “dois” com os dedos. O garçom fez de lá o sinal de positivo. Enquanto esperavam, ela ficou olhando para as mãos dele brincando com as quatro bolachas de chope.

- Não tinha reparado. Você tem mãos bonitas.

O jogador sorriu envaidecido. Também achava. Ela o encarou.

- Sabe o que descobri há uns dias e é isso que tá me enchendo o saco?

- Diz.

- Eu acho que te amo, te amei ou vou te amar. Uma coisa assim.

- Também acho.

- Por que você é tão insuportável às vezes?

Deram-se as mãos por cima da mesa.

Fonte: VEJA SÃO PAULO