Cidade

Mansão da Mãe Joana

Vizinhos mobilizam-se contra casa invadida na Consolação que reúne até 3 000 pessoas em festas ilegais

Por: Sérgio Quintella

Casa amarela
Carla Pena e Alex Assunção, dois dos ocupantes: de baladas a rituais xamânicos (Foto: Leo Martins)

 

Construída há quase um século e tombada em 2006 pelo órgão municipal de patrimônio, o Conpresp, a antiga Mansão Florentina, na esquina da ruas da Consolação e Visconde de Ouro Preto, teria tudo para ser uma das estrelas da região.

Erguido em terreno de 1 732 metros quadrados, com cerca de metade disso de área construída, o imóvel abrigou da sua fundação até os anos 50 uma abastada família de ascendência italiana.

Avaliado em 12 milhões de reais pelo mercado imobiliário, o endereço acabou se transformando em uma encrenca. Invadida há dois anos por grupos artísticos, a “casa amarela”, como é conhecida, graças à cor da fachada, virou símbolo de degradação e palco de atrito com a vizinhança.

Entre o fim de dezembro e o começo de janeiro, cerca de 630 moradores de 23 prédios das redondezas procuraram em conjunto o Ministério Público para formalizar queixa, e duas investigações para apurar as denúncias foram instauradas. Uma delas envolve a promoção de festas irregulares para aproximadamente 3 000 pessoas, que duram até de manhã. Nelas, haveria a presença de menores consumindo álcool e drogas.

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Não bastasse, ainda segundo os acusadores, as ruas amanhecem emporcalhadas, com odor forte de urina, preservativos e pinos de cocaína usados. “Mesmo durante a semana, é tanta maconha que o cheiro chega até os andares altos”, reclama o morador de um prédio próximo. 

A casa, por duas décadas sede de creche para filhos de funcionários do Judiciário trabalhista, atualmente é patrimônio do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O órgão a mantém sem uso há doze anos. No início de 2014, 120 membros da Cooperativa Paulista de Teatro fizeram a primeira invasão ali.

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Na época, o ator e diretor Rudifran Pompeu, um dos líderes do movimento, defendia a transformação do lugar em um centro cultural. “Mas aí começou a entrar muita gente e a ocupação perdeu o propósito”, lembra.

Há um ano, quem tomou conta do endereço foi o conjunto artístico TM13 (Todo Mundo 13 — em alusão ao numeral que, no jargão policial, significa loucura). “Promovemos oficinas culturais, aulas, rituais de cura xamânica, shows e festas”, enumera Alex Assunção, integrante do grupo. “Não permitimos o uso de drogas aqui dentro e não vendemos álcool para menores”, garante.

Fila na casa amarela
Público faz fila para evento cultural na casa amarela (Foto: Reprodução)

A entrada em cena dessa nova turma marcou o agravamento do incômodo nas cercanias.

Pelo menos uma vez por mês há apresentações ao vivo, no esquema “pague quanto quiser”.

“Tem gente que dá 3, 5, 10 reais”, contabiliza Assunção, que afirma arrecadar de 1 500 a 2 000 reais em cada evento.

Festa na casa amarela
Festa promovida por ocupantes da casa amarela (Foto: Reprodução)

De acordo com ele, a verba é usada em despesas como o material necessário para a limpeza dos 27 cômodos e atividades culturais, a exemplo de oficinas de leitura de histórias para crianças na Praça Roosevelt, a passos dali. Marta Regairás, presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) da Consolação, diz que o discurso pode até ser bonito, mas a prática é bem diferente.

“Eles falam de paz e amor mas, na verdade, são agressivos”, critica. Segundo ela, os vizinhos são sempre barrados na porta quando tentam diálogo. A polícia já baixou por ali em eventos, mas não flagrou uso de drogas.

Casa amarela
Marta Regairás, presidente do Conselho Comunitário de Segurança da região, que pede o despejo: o confito foi parar no Ministério Público (Foto: Leo Martins)

Nas três visitas de VEJA SÃO PAULO ao casarão, entre segunda (7) e quarta (9), os ambientes estavam limpos, mas com muitas pichações.

Além disso, a água e a luz são fruto de ligações clandestinas.

O futuro do imóvel está pendente. O INSS, que desistiu de levar à Justiça pedidos de reintegração de posse, negocia a transferência do bem à prefeitura como forma de abatimento de uma dívida. Segundo o secretário municipal de Cultura, Nabil Bonduki, a ideia é transformar o lugar em um centro cultural. “Será algo gerido diretamente pela secretaria ou por algum grupo por meio de um edital”, diz.

Casa amarela
Ensaio para apresentação de dança durante a semana (Foto: Leo Martins)

Nessa segunda opção, os atuais invasores poderiam concorrer, mas não terão prioridade na escolha. Enquanto isso, os vizinhos podem se preparar para mais dor de cabeça. Em março, estão marcadas apresentações de hip-hop e de reggae, e haverá rodas de samba ao ar livre na “casa amarela”. ■

Fonte: VEJA SÃO PAULO