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Bombeiro relata a operação no incêndio no Museu da Língua Porguesa

O coronel Wagner Bertolini Junior conta o que viu na tragédia, que mobilizou 110 homens em 60 viaturas: "Foi um inferno"

Por: Ana Carolina Soares

Incêndio Museu da Língua Portuguesa
O incêndio destruiu o Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz (Foto: Mariana Topfstedt/ Estadão Conteúdo)

A frase de Guimarães Rosa integrava o texto de abertura da exposição Grande Sertão: Veredas, que inaugurou o Museu da Língua Portuguesa, em 2006, e fazia referência à importância de encontrar “vida” em cada palavra: “O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas”. Perto de uma década depois, o trecho vale como metáfora ocasional do incêndio que destruiu na segunda-feira (21) quase todo o espaço, situado no prédio da Estação da Luz. Até terça (22), a hipótese mais provável era que um curto-circuito em uma luminária tivesse causado o fogo. O centro cultural tem seguro de 45 milhões de reais e há cópia de seu acervo digital.

“Foi um inferno”

O brigadista Ronaldo da Cruz, de 39 anos, que trabalhava no local (fechado no dia para visitantes), conseguiu tirar com segurança entre trinta e quarenta funcionários do prédio, mas morreu por asfixia ao retornar para enfrentar as labaredas. Ele foi encontrado desacordado pela equipe do coronel Wagner Bertolini Junior, comandante do Corpo de Bombeiros Metropolitano, que liderou no trabalho 110 homens, em 60 viaturas, incluindo grupos da Defesa Civil e Sabesp. A seguir, Bertolini conta como se deu o comando dessa operação, que começou por volta das 16h, levou quase três horas na contenção das chamas e só acabou na tarde posterior, com o rescaldo da combustão em algumas porções do complexo.

+ Luminária pode ter causado fogo no Museu da Língua Portuguesa

“Um bombeiro morto carregado por um homem da nossa corporação e uma labareda alta se espalhando rápido rumo à Estação da Luz. Um inferno. Esse foi meu primeiro impacto na frente do Museu da Língua Portuguesa. Naquela hora, cheguei com as três equipes comandadas por mim dos Auto Bombas Táticos — somos vinte profissionais com viaturas altamente especializadas em cenários perigosos. Havia muita ‘carga incêndio’, como chamamos os cenários inflamáveis. O teto e o piso eram de madeira, fáceis para a propagação.

Desde sua abertura, em 2006, o endereço estava em processo para obter o alvará de funcionamento. De tempos em tempos, eles solicitavam o Corpo de Bombeiros, fazíamos a vistoria e apontávamos o que ainda faltava. Eles precisavam corrigir um sistema que não permite que o calor se alastre além do pavimento afetado. O lugar era bem equipado, por isso ha via permissão para receber o público. 

Bombeiro Museu da Língua Portuguesa
“Um dos momentos mais impressionantes foi entrar no 2º andar e avistar obras de arte destroçadas. Eram estátuas de santos, pessoas e imagens gregas. Pareciam uma massa de gente queimada. Deu uma melancolia”, afirma Wagner Bertolini Junior, comandante da operação (Foto: Ricardo D'Angelo)

Na ocorrência, antes de mais nada, subimos ao 3‚ andar para apagar a labareda. Como as chamas corriam no interior do prédio, a chuva a não as alcançava. Minutos depois, percebemos que o museu já se configurava uma causa perdida. Se o fogo tomasse a torre da Estação da Luz, aquela com o relógio, seria uma tragédia monumental: o campanário poderia desmoronar na direção das pessoas no Parque da Luz ou da CPTM. Recuamos e mudamos a estratégia. Descemos ao térreo e fomos à parte de trás, junto da área em risco, ainda não tomada pelo incêndio. Usamos 1 100 litros de espuma para cobrir cada centímetro da parede. Esse material gruda nas estruturas e impede que a combustão se alastre. Olhei para o fogo e pensei: ‘Daqui você não passa’.

+ Quem era o bombeiro que morreu no Museu da Língua Portuguesa

Para entrarmos no incêndio, criamos quatro equipes de cinco homens, em revezamento. Cada turma passava até vinte minutos na área, tempo que dura o cilindro de ar comprimido. No sufoco, não dá para rezar. Quando a chama avança, é terrível, só vem o impulso de pará-la. Um dos momentos impressionantes foi entrar no 2° andar e avistar obras de arte destroçadas. Estátuas de santos, pessoas e imagens gregas, bem pequenas (da exposição que homenageava o escritor Luís da Câmara Cascudo). No chão, com a fuligem, pareciam uma massa de gente queimada. Mesmo assim, era bonito. Percebi que fazia minha primeira visita ao museu. Deu uma melancolia, uma tristeza observar tanta cultura devastada.

Incêndio Museu da Língua Portuguesa
O cenário de destruição dentro do prédio: 5 000 dos 7 700 metros quadrados destruídos (Foto: Mariana Topfstedt/ Estadão Conteúdo)

Da área total de 7 700 metros quadrados do complexo, 5 000 viraram cinzas. Em meus trinta anos de corporação, tratou- se de um dos piores casos — especialmente por causa do patrimônio, um dos lugares mais visitados da América Latina. A estrutura pode ser recuperada. O pior, claro, é o bombeiro civil que morreu durante o combate. Pensei nele ao chegar em casa, aproximadamente às 23 horas, uma hora depois de ter deixado a Luz. Quando você volta de uma ocorrência dessas, não dá para entrar em casa com a mesma roupa.

Troco as peças no quintal e coloco fogo. Senão, o cheiro de queimado, de destruição fica impregnado nos cômodos. A fuligem passa dias no nariz, por mais que você tome banho. Minha mãe e minha irmã acompanham cada ocorrência pela televisão. Sendo familiares de bombeiro, ficam apreensivas. Mas sabem que volto. Como ontem à noite. Fui ao chuveiro, vi os noticiários sobre o caso e então caí no sono. No dia seguinte, nossa equipe precisava cuidar do rescaldo.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO