Música

"Mal posso esperar para dividir o palco com Lanny Gordin", diz criador do Nublu

Apaixonado por música brasileira, Ilhan Ersahin é dono do clube de NY que dá nome ao evento; Roy Ayers e Robert Glasper são as principais atrações

Por: Mayra Maldjian - Atualizado em

Ilham Ersahim Nublu Jazz Festival
Ilhan Ersahin: curador do Nublu Jazz Festival (Foto: Divulgação)

O saxofonista Ilhan Ersahin é o cara por trás do Nublu Jazz Festival, cuja terceira edição paulistana começa nesta quinta (21), no Sesc Belenzinho, com o cultuado vibrafonista Roy Ayers e exímio pianista Robert Glasper como atrações principais. Os ingressos estão esgotados.

Nascido na Suécia, criado na Turquia e apaixonado pelo Brasil, o músico é fundador do selo e clube de Nova York que dá nome ao encontro –do qual também é curador. “Por mim eu traria vinte bandas. Quem sabe um dia”, brinca Ersahin. “A fórmula do festival é, basicamente: 1) algumas lendas; 2) shows de artistas do país e músicos locais interagindo com bandas; 3) bandas do Nublu”, explica.

Mais conhecido por seu trabalho com o Wax Poetic (a primeira banda de Norah Jones), ele também sobe ao palco, desta vez com outro de seus sete projetos musicais, o Love Trio, formado também por Kenny Wollesen, na bateria e na percussão, e Jesse Murphy, no baixo. O trio instrumental receberá o percussionista João Parahyba e o lendário guitarrista Lanny Gordin –um dos encontros mais sonhados de Ersahin.

Em entrevista à VEJA SÃO PAULO, o músico contou histórias sobre suas (inúmeras) parcerias com artistas brasileiros e o diálogo que mantém com a nossa música lá em Nova York, por meio do Nublu, selo e espaço frequentado por talentos frescos da música contemporânea.

Ilham Ersahim Nublu Jazz Festival
Ilhan Ersahin: saxofonista gravou com Otto e Tulipa (Foto: Divulgação)

VEJA SÃO PAULO - É impossível ignorar sua relação próxima com o Brasil. Você se lembra de quando tudo começou?

Ilhan Ersahin - Bem, a primeira vez que eu vim para cá foi em 1992! Mas minha história musical com o Brasil começou há oito anos, eu acho. É algo muito natural o que acontece entre mim e o país e entre mim e os músicos brasileiros. Eu faço, componho e toco música ao vivo, então acho que a forma como eu toco e ouço era natural para as pessoas que eu conheci aqui. Tem sido uma grande evolução e eu espero que isso cresça e cresça porque eu sinto que ainda há muito a ser feito.

Você participa da faixa Like This, do novo disco da Tulipa Ruiz [Tudo Tanto, de 2012]. No ano passado ela foi convidada do show do Wax Poetic na edição paulistana do Nublu Jazz Festival. Como vocês se conheceram e o que te atrai no trabalho dela?

Ela é ótima! Foi uma sugestão de uma amiga minha que ela participasse do show. Então nós conversamos, eu ouvi o trabalho dela e depois mandei a música que se transformou na Like This. Foi uma parceria rápida, mas legal. Três anos atrás eu também escrevi a música 6 Minutos para o Otto. Tanto a Tulipa quanto o Otto têm um grande potencial de fazer sucesso lá fora. Eles têm uma coisa só deles que vai além das fronteiras. Isso sempre me empolgou muito.

Você também gravou Afternoon in Rio com gente como Kassin, Thalma de Freitas, Junio Barreto. Pode me contar como foi esse encontro?

Essa gravação foi muito interessante. O disco inteiro foi feito em uma noite! Eu estava no Rio com meu amigo Kenny, o baterista do Love Trio, e ele disse “Vamos entrar num estúdio e ficar só tocando, vamos fazer algo com uma cara de Rio, mas totalmente diferente. Então alugamos um estúdio e liguei para todos os meus amigos irem para lá. Depois nós gravamos e eu levei o material para Nova York onde eu dei uma editada. De volta ao Brasil, fiz alguns overdubs. Tenho muito orgulho desse álbum porque ele não se parece com nenhum outro. É música nova de verdade. Infelizmente não foi lançado adequadamente, só está disponível no iTunes para os Estados Unidos.  Mas espero lança-lo em CD e vinil aqui e lá fora ainda este ano.

Quais são seus discos brasileiros preferidos (eu sei, é uma pergunta difícil, mas poderia listar ao menos três?)?

Os clássicos: Transa, de Caetano Veloso, Racional, de Tim Maia, 10 Anos Depois, de Jorge Ben. Mas, sim, a lista tem que ter no mínimo vinte ou cinquenta títulos. Há muitos álbuns ótimos aqui no Brasil.

Otto, 3 Na Massa e Forro in the Dark fazem parte do casting de artistas do selo Nublu. Por que eles foram parar lá?

Porque eu gosto deles e eles são meus amigos. Acho que os três discos que lançamos são excelentes. É o melhor do Otto. E o 3 Na Massa é tão especial, mal posso esperar pelo próximo.

Existe uma noite brasileira no Nublu, certo? Quem são os DJs, as atrações? Como é essa festa?

As noites de quarta são de música brasileira, apesar de às vezes fazemos algumas nos fins de semana também. Emicida se apresentou na casa dois sábados atrás. É uma festa bem popular ainda, mas deu uma desacelerada desde que o Mauro Refosco do Forro in the Dark juntou-se ao Red Hot Chili Peppers e ao projeto Atoms For Peace, do Thom Yorke. As pessoas ficaram confusas porque eles tocavam lá toda santa semana por oito anos. Mas temos agora uma banda nova ótima lá, a Forro ‘n More, do Davi Vieira, um percussionista da Bahia. O DJ Greg Caz é o DJ da festa há anos. Ele é americano, mas toca música brasileira e fala português. É muito curioso, algumas vezes há muitos brasileiros no público e em outras nenhum aparece. É algo típico de Manhattan, nunca dá pra saber.

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Qual a importância de um clube como o Nublu para Nova York?

É como respirar ar fresco. O Nublu não é movido a dinheiro e não é um lugar que tem um monte de sócios que precisam fazer grana. É a sala da minha casa, basicamente. Como disse um homem negro que vive dobrando a esquina, o Nublu é o único espaço onde eu posso ir para ouvir boa música sem ter que brigar para beber ou para sentar. É esse tipo de lugar, eu acho. E o mais engraçado é que não há estilo ou faixa etária. Você pode encontrar modelos e gente super descolada, atores, músicos, mas também turistas e muitos locais. Acho que você se sente livre e tem muita música boa. São duas bandas e um DJ todas as noites!

Qual é a principal diferença entre fazer música com o Wax Poetic e com o Love Trio?

Eu escolhi um tipo diferente de carreira. Eu não consigo me prender a uma banda só, eu tenho sete! E todas estão na ativa. Nos últimos tempos eu tenho tocado mais com o Wax Poetic, que é uma banda vocal. Agora encontrei uma ótima cantora, o nome dela é Sissy Clemens, e eu acredito nela tanto quanto eu acreditei em Norah Jones quando ela estava com a gente. Está tudo ótimo no Wax Poetic de novo e eu espero que a gente comece a sair mais em turnê. Istanbul Sessions é outra banda, em que eu só toco saxofone. A gente toca bastante em Istambul e em festivais na Europa. A banda tem um som de sabor mais étnico, mas é potente. Love Trio é instrumental na maior parte do tempo e a performance é muito baseada no momento. Temos arranjos, canções e melodias, mas depende do público, da noite, do sistema de som. Reagimos ao que está a nossa volta. Mas às vezes escrevo uma música para o Love Trio que acaba indo para o Wax Poetic, e assim vai.

Por que você escolheu João Parahyba e Lanny Gordon para participar do show do Love Trio no Nublu Jazz Festival aqui em São Paulo?

Mal posso esperar para dividir o palco com [o guitarrista] Lanny Gordin, uma verdadeira lenda da música brasileira. Ouvi muito sobre Lanny ao longo dos anos, histórias e histórias. É quase como um João Gilberto pelo tipo de persona e pelas histórias que ouvi. Ultimamente um percussionista juntou-se a nós em Nova York, então faria sentido termos um aqui também. Foi então que sugeriram Joao Parahyba. Vamos nessa!

Imagino que mais parcerias com artistas daqui estão por vir.

Eu vou gravar saxofone esta semana em uma faixa do China. Eu toquei e compus com Otto, Bebel Gilberto, Thalma de Freitas, Nina Becker, Mamelo Soundsystem, Tulipa, Kassin, Junio Barreto, Alberto Continentino, Barbara Ohana, Gabriel Mayall e outros tantos. Algumas bandas legais de Floripa, como Skrotos e Emilia. Tudo sempre muito natural e sem esforço, basicamente aconteceu. Nos conhecemos, saímos juntos, nos tornamos amigos... e a música. Espero que continue assim.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO