Destinos

O refúgio do poderoso chefão

O diretor americano Francis Ford Coppola transformou sua casa do século XIX em Basilicata, região de seus avós, num hotel exclusivo, onde, segundo ele, o visitante conhece a verdadeira Itália

Por: Adriana Marmo, de Bernalda - Atualizado em

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Francis Ford Coppola à sombra das árvores da entrada do Palazzo Margherita: ele se hospeda no sul do país quatro vezes por ano (Foto: Riccardo Puntillo)

Francis Ford Coppola encontrou seu lugar preferido no mundo. Ele fica no número 64 do Corso Umberto I, em Bernalda, na região da Basilicata, sul da Itália. Aqui funciona desde fevereiro o Palazzo Margherita, o hotel mais exclusivo entre os cinco empreendimentos do diretor de O Poderoso Chefão. Os outros são Blancaneaux Lodge e Turtle Inne, em Belize, La Lancha, na Guatemala, e Jardim Escondido, na Argentina. É especial porque foi de Bernalda, hoje com mais de 12 000 habitantes, que Agostino Coppola partiu, em 1904, para “fazer a América”. O avô italiano do diretor americano nunca mais voltou para ver as azeitonas que crescem ao redor de sua terra nem para sentir o cheiro dos ciprestes ou o sabor dos figos-da-índia que nascem na beiradas estradas. O neto ilustre, nascido em Detroit, em 1939, conseguiu fazer o caminho inverso. Em1962, viu Bernalda pela primeira vez. Apaixonou-se e nunca mais deixou de aparecer. “Aqui, eu me sinto em casa”, diz Coppola. Em 2004, ele acabou comprando uma das três construções mais imponentes da cidade: o Margherita, erguido em 1892.

Foram cinco anos de reforma, comanda da pelo arquiteto francês Jacques Grange, que manteve os pisos, afrescos e mármores originais. A ideia inicial não era abrir um hotel, mas tornar o Margherita ponto de encontro para a família e os amigos de Coppola. No meio do caminho, ao perceber que o palácio ficaria vazio em grande parte do ano — afinal, ninguém vive em férias —, ele resolveu acolher gente fora de seu círculo íntimo. Sem abrir mão do clima “lá em casa”. Por isso, é impossível sentir-se num hotel. Na entrada, não há nenhuma placa ou recepção. Basta tocar a campainha, anunciar-se, e a porta é aberta. Chegando à casa do Francis, como é conhecido em Bernalda, um dos funcionários (sem uniforme) desce a escada para acompanhar o visitante a um dos nove quartos. Cada aposento tem uma decoração, que reflete o gosto do hóspede Coppola mais frequente. A suíte 4, de Sofia — a filha que seguiu a profissão do pai —, é a mais feminina. Paredes e teto são cobertos por afrescos, que, segundo ela, remetem “a um jardim enevoado de verão”. Ali, é possível fazer sauna a vapor ou um banho turco. Coppola quis em seu quarto, o número 9, homenagear a avó, Maria Zasa, nascida na Tunísia: afrescos e azulejos têm motivos mouriscos.

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O filho Roman preferiu um quarto com toques de art déco. A suíte da neta Gian-Carla, de número 8, é indicada para os casais em lua de mel: um afresco no teto tem as figuras de Eros e Psiquê, deuses do amor. Nos banheiros, os frascos Santa Maria Novella, uma das mais antigas perfumarias italianas, vêm em tamanho original. Ainda no 2ºandar do Palazzo está a sala da família, com livros que contam a história de Basilicata e caixas de jogos como gamão e baralhos, incluindo a Scopa, que o dono da casa adora jogar. Ao comando de um botão, o lustre de murano sobe ao teto e dá lugar a uma tela: o local vira uma sala de cinema, com programação de 300 filmes italianos feita pelo diretor. Boa parte dos quartos circunda o jardim, cujas ervas abastecem a cozinha e onde, em agosto do ano passado, a filha Sofia se casou com Thomas Mars, vocalista da banda Phoenix. A cozinha, aliás, é a alma do lugar. Aqui, aprende-se a fazer orecchiette, ferricelli e cavatelli, as massas típicas da região. O fim da aula é uma festa, quando aluno, professor e funcionários experimentam o resultado em pequenos pratos, em volta do fogão.

Com tanta beleza, nem é preciso sair do Palazzo, mas Francis deixa bicicletas à disposição. Bernalda possui um charmoso centro histórico, mas quem tem pernas pode pedalar 18 quilômetros até Metaponto, aonde o diretor gosta de ir para ver o mar. Além de guardar uma das maiores heranças gregas na Itália, foi na vizinha onde morreu o filósofo e matemático Pitágoras. O hotel organiza viagens a Matera, uma impressionante cidade cujas casas são construídas em pedras, como cavernas. “Talvez existam lugares maisc inematográficos que Basilicata, mas nenhum mostra uma Itália tão verdadeira quanto essa região”, conclui Coppola.

Fonte: VEJA SÃO PAULO