Crime

A trágica história da secretária que morreu estrangulada pelo companheiro

O advogado Sergio Gadelha aplicou um golpe “mata-leão” em Hiromi Sato e foi preso em flagrante no seu apartamento, em Higienópolis. Aos 74 anos, já no conforto da prisão domiciliar, Gadelha sabe que são grandes as chances de que não venha a sofrer uma condenação proporcional à barbárie cometida

Por: João Batista Jr. - Atualizado em

Hiromi Sato
A secretária Hiromi Sato: morta pelo companheiro Sergio Gadelha (Foto: Tomi Sato)

Às 10 horas da manhã do domingo (21), a aposentada Tomi Sato, de 59 anos, ligou para sua irmã Hiromi, 57, secretária executiva do fundo de investimentos chinês Actis. Queria convidá-la para almoçar, por preocupação diante das constantes brigas entre ela e seu companheiro, o advogado Sergio Brasil Gadelha, 74, que costumava agredi-la verbalmente na frente de parentes e amigos. Tomi pretendia saber da dimensão da crise conjugal e confirmar a suspeita de violência física na intimidade. Hiromi não atendeu. Ao longo do dia, Tomi fez mais três chamadas, mas nada de retorno. Mandou a mesma quantidade de torpedos, também sem resposta. À noite, cogitou ir até o apartamento onde o casal morava, na Rua Pará, em Higienópolis, para saber se estava tudo bem. Desistiu da ideia com receio de incomodá-los. Perto da 1 da manhã da segunda (22), foi acordada com o toque do celular. O identificador mostrava o nome da irmã, mas do outro lado da linha falava, aos prantos, Juliana, 30, filha de Gadelha, pedindo que Tomi fosse imediatamente até lá. Chorando muito, informou que a madrasta estava “péssima”.

Sergio Gadelha
Gadelha, na delegacia, na segunda-feira (22): “Estou arrependido. Eu era louco por ela” (Foto: Adriano Lima/Brazil Photo Press/Estadão Conteúdo)

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Enquanto escutava Juliana, Tomi ligou do telefone fixo para o Samu. Pensou ser um pico glicêmico, pois Hiromi sofria de diabetes e tomava injeções diárias de insulina. Minutos depois, quando tinha acabado de sair de seu apartamento no Jardim da Saúde, na Zona Sul, para acompanhar o resgate, recebeu outra chamada. Atendeu mesmo com o carro em movimento. Era novamente Juliana. Atordoada, ela passou o telefone para o pai. “Acho que ela faleceu”, disse Gadelha, em um tom percebido por ela como indiferença. Completamente sem rumo, Tomi só conseguiu gritar repetidas vezes: “Seu monstro!”. Deduziu, pelo histórico conturbado, que se tratava de um crime, suspeita logo confirmada. Ele confessaria à polícia ter agredido brutalmente a namorada, com quem se relacionava havia três anos.

Cemitério da Paz - Morumbi - Enterro de Hiromi Sato
Cemitério da Paz no Morumbi: enterro de Hiromi Sato (Foto: Werther Santana/Estadão)

A família, devastada pela perda, ficou ainda mais chocada ao saber da extrema crueldade que Hiromi sofreu. Quando chegaram ao apartamento, os socorristas a encontraram no chão do quarto. Estava suja com sangue escuro na boca e o corpo coberto por hematomas — marcas de estrangulamento evidentes na região do pescoço, nariz quebrado, dentes tortos, manchas roxas nos ombros, no abdômen e na canela esquerda, e sinais de objetos pontudos no rosto (podem ser canetadas, por exemplo). Havia uma enorme quantidade de tufos de cabelo preto pela suíte. Na cama, mais vestígios de líquido escuro. Dentro da banheira, um edredom com sangue. Panos de chão de molho em um balde na lavanderia foram encontrados. Uma médica do Samu ligou para a polícia. “Tranquilo, com as pernas cruzadas e vendo televisão como se nada tivesse acontecido” foi a forma pela qual o sargento da PM Marcelo Guilherme Moraes descreveu, na TV, sua primeira impressão sobre Gadelha, no momento no qual chegou ao apartamento de 170 metros quadrados, avaliado em 1,2 milhão de reais. “Não conseguia acreditar no que eu via”, recorda Tomi, a respeito do momento em que encontrou a irmã morta. “Ela estava com as mãos intactas, não teve oportunidade de lutar.”

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Hiromi Sato - Voluntária
Hiromi Sato durante trabalho voluntário:ela liderava as reuniões da turma (Foto: Raul Saito)

Preso em flagrante na residência, Gadelha narrou no depoimento que deu cintadas nas costas dela e a estrangulou com um mata-leão, como é chamado nas artes marciais japonesas o golpe de enforcamento aplicado pelas costas do oponente. Mesmo com o relato, o caso continua com vários pontos obscuros. O principal deles é a hora exata da morte — e, assim, quanto tempo ele ficou ao lado do cadáver até decidir dar a notícia à filha Juliana. À polícia, Gadelha disse que desferiu as agressões às 16 horas de sábado, durante uma briga. Ainda segundo o depoimento, às 19 horas ambos se deitaram juntos e acordaram só no dia seguinte. “Ela estava viva”, afirmou. Gadelha teria lhe oferecido café da manhã e passado parte do domingo com ela descansando. Às 21 horas, segundo ele, notou vômito ao lado da vítima. Disse que tentou colocá-la na cama, mas não teve forças (Gadelha é manco da perna direita). Não a levou para o hospital por medo de ser preso por agressão.

Hiromi Sato - Show de Madonna
Com a irmã e amiga: show da Madonna (Foto: Regina Sassaki)

Ligou então para a filha, que mora em Florianópolis e estava a caminho de São Paulo. “Uma médica nos disse que o corpo estava gelado, e isso prova que ele ficou dentro de casa por muitas horas com ela, como se fosse algo natural”, afirma Fumi, outra irmã de Hiromi. Presente nos procedimentos realizados no Instituto Médico-Legal (IML), ela relata que na ficha constavam traumatismo craniano e hemorragia generalizada. O laudo final do IML fica pronto em trinta dias, e só então a causa da morte será oficializada. Não se sabe se Gadelha estava alcoolizado durante a briga. Visto sempre consumindo uísque, ele é alcoólatra, de acordo com o depoimento da filha à polícia. Ela declarou ainda ter enxergado em Hiromi a chance de o pai vencer a dependência.

De acordo com pessoas próximas, quando bebia Gadelha ficava ainda mais egocêntrico, arrogante e inconveniente — era comum dar murros na mesa se alguém não prestasse atenção no que estava falando. Em seu aniversário de 57 anos, em 7 de março, Hiromi fez uma feijoada no apartamento onde um mês depois morreria. Na frente dos convidados, levou um beliscão do companheiro e gritou de dor. “Ao mesmo tempo em que recitava poemas de cor, ele constrangia as mulheres com cantadas grosseiras”, lembra Regina Sassaki, amiga de infância de Hiromi. “Também falava o tempo todo de sexo e se gabava de sua macheza.”

Em seus armários, aliás, havia uma vasta coleção de revistas pornográficas. Ele atribuiu a covardia ao ciúme que sentia. Afirmou que ela jamais o traiu ou demonstrou comportamento suspeito. No entanto, ainda segundo a versão à polícia, insistiu que Hiromi, no passado, teria sido amante de um homem casado por 34 anos. “Esse monstro quer desqualificar minha irmã, que tinha uma vida discreta e jamais foi vulgar”, diz Tomi. “Parece uma estratégia para atenuar o crime que cometeu”, complementa. À reportagem de VEJA SÃO PAULO, ele mandou a seguinte mensagem, por meio de seu advogado, Átila Pimenta Coelho Machado: “Estou arrependido. Eu era louco por ela”. Para Machado, “ele bateu nela por ciúme”.

Bilhete - Família de Hiromi Sato
Bilhete que os irmãos de Hiromi escreveram e pediram que fosse publicado nesta revista: família devastada (Foto: Reprodução)
Hiromi em festa
Hiromi durante festa: secretária executiva do fundo de investimentos chinês Actis (Foto: Regina Sassaki)

Hiromi e Gadelha se conheceram em 1978, quando ambos trabalhavam no Lloyds Bank. Ficaram amigos, mas perderam contato ao deixarem a empresa. Só se reencontraram em 2009, ele vindo de dois casamentos desfeitos e com três filhos. Ela teve namoros esporádicos, mas nunca antes morou com um companheiro. Em meados de 2010, Hiromi se mudou do apartamento onde vivia em Moema para se juntar a ele em Higienópolis. “No começo, ela ficou com vergonha de apresentá-lo pela diferença de idade”, diz o amigo Raul Saito. Hiromi era uma pessoa agregadora e liderava as reuniões da sua turma de amigos. Promovia encontros mensais entre os colegas do colégio Conde José Vicente de Azevedo, na Saúde, onde cursou o antigo ginásio. Todos eram convidados a participar da ONG Zeladoria do Planeta do Brasil, conhecida por promover ações como uma varrição coletiva na Avenida Paulista.

Já Gadelha era visto como uma pessoa fechada e carrancuda. “Nunca dava bom-dia e sempre aparecia com a cara amarrada”, afirma Pedro Faustino, segurança da padaria Villa Bahia, aonde o casal costumava ir aos sábados e domingos. No campo profissional, ele soma controvérsias. Natural de Fortaleza e formado em direito em Curitiba em 1969, começou mesmo a exercer a profissão em 1999, após décadas na função de consultor de treinamento em bancos. Não obteve sucesso. Sua inscrição na OAB tem problemas nas duas praças onde atuou: na Bahia acabou cancelada e em São Paulo sofreu duas suspensões, por motivos mantidos em sigilo. Como não paga a anuidade desde 2002, está tecnicamente impedido de atuar em tribunais paulistas. Seu currículo é manchado por acusação de uma prática criminosa: em posse da procuração de alguns clientes, teria se apropriado da indenização alheia. “Esse senhor foi condenado a pagar 29.784 reais por ficar com um dinheiro em nome de um cliente meu”, conta o advogado Reginaldo Nunes Wakim. “Há pelo menos quinze casos parecidos com esse”, complementa outro advogado, José Ricardo Carrozzi, que atende uma pessoa em litígio semelhante.

O edifício onde morou Hiromi Sato - Rua Pará
O prédio da Rua Pará, em Higienópolis: indefinição sobre a hora da morte (Foto: Mario Rodrigues)
Advogado Átila Pimenta Coelho Machado
O advogado Átila Pimenta Coelho Machado: “Meu cliente não quer tumultuar a investigação” (Foto: Mario Rodrigues)

Menos de 72 horas após ser preso, Gadelha conseguiu na Justiça o direito de deixar a carceragem do 31º Distrito Policial, na Vila Carrão, e aguardar o julgamento em prisão domiciliar. “Ele tem endereço fixo, se apresentou à polícia e não quer tumultuar a investigação”, diz Machado, o defensor. Como o apartamento na Rua Pará segue lacrado para perícia, a filha Juliana providenciou um imóvel na região do Parque do Ibirapuera — pela lei, ele não pode deixar o local sem autorização. “Se for condenado por homicídio qualificado, a pena será de doze a trinta anos de prisão”, explica o criminalista Leopoldo Louveira. Com sua idade, a morosidade e as possibilidades de recursos da Justiça brasileira, porém, o réu, conhecedor das leis, sabe que são grandes as chances de que não venha a sofrer uma condenação à altura do sofrimento que causou.  

Fonte: VEJA SÃO PAULO