Estilo

Herdeiros do bom gosto

As grifes mais desejadas de moda adulta entram na disputa pelo closet dos menores de 14 anos de idade - um mercado que deve movimentar 157 bilhões de dólares em 2015

Por: Amanda Maia - Atualizado em

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Vestido de tafetá de seda (625 euros), vestido de tule e paetês (1 190 euros) e boneca com vestido de seda (225 euros): primeira coleção da Petite, etiqueta da Lanvin (Foto: Veja São Paulo)

E ra uma vez um tempo em que meninos vestiam azul. Meninas, rosa. Branco, amarelo-bebê e verde-água eram o máximo de variações imagináveis. Nos últimos anos, um cardápio incrível de cores e modelos tomou conta dos tamanhos 0 a 14. Estampa de tigre? Tem. Trench coat? Sim, do clássico bege ao divertido laranja. Paletó? Também - e com dois botões, como ditam, para o verão, as passarelas masculinas de Milão e Paris. Vestir “vítimas” mirins da moda virou um filão gigante. Desde 2009, as vendas vêm evoluindo tão rápido quanto uma criança troca de roupa na fase de crescimento ó 7% ao ano. Em 2015, estima-se que reabastecer o closet dos minifashionistas gire 157 bilhões de dólares por ano, segundo a consultoria Global Industry Analysts. Por aqui, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção registrou cerca de 4,5 bilhões de dólares de faturamento no ano passado. Os pequenos representam notáveis 15% dos gastos com vestuário no país. Números da recente edição da Pitti Bimbo, a maior feira de confecção infantil do mundo, em Florença, na Itália, indicam que o mercado nacional dá passos cada vez mais confiantes. Em janeiro, a fashion week italiana - onde desfilam, desde 2010, Gucci e Fendi - reuniu 510 marcas e atraiu 10 000 pessoas. O número de visitantes brasileiros cresceu 18%, situando o país entre os principais compradores, junto com Rússia, Japão, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos e Ucrânia.

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Para explicar a explosão nas vendas, a consultoria Mintel aponta desde um baby-boom até a renda alta das executivas mães, que preferem fazer melhores investimentos para as crianças. “Os pais têm necessidade de ver os filhos como herdeiros também do seu bom gosto”, afirma Nicole Yee, responsável por mapear as tendências desse setor no Stylesight, empresa de estudo de comportamentos de consumo em Nova York.

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Looks Carolina Herrera Children: desde 2010 no Shopping Cidade Jardim (Foto: Veja São Paulo)

De olho no fenômeno, conhecido como minime, mais e mais etiquetas bem-sucedidas entre pais estilosos confiam nos menores de 14 anos para aumentar os lucros. Duas das grifes mais caras do planeta, ambas francesas, começam a engatinhar nesse cercadinho. Sob o comando do sapateiro Bruno Frisoni, a Roger Vivier lançou, no mês passado, uma coleção voltada para pezinhos 28 a 34 (numeração brasileira). Batizada de Jeune Fille (menina, em português), revisita no modelo número 1 um ícone da casa à qual é atribuída a criação do salto agulha nos anos 50: o sapato Belle de Jour, que a atriz Catherine Deneuve tornou famoso no filme A Bela da Tarde. No lugar do original preto com fivela prateada, a sapatilha de couro envernizado (240 euros, metade do valor cobrado pelo modelo adulto) vem monocromática e em tons como pink e azul. A Lanvin estreou no closet das meninas de 4 a 10 anos com a linha Petite, já nas lojas. Com 25 peças, os vestidos, conjuntos e acessórios (inclusive bonecas) são feitos de tafetá e cetim de seda ó e custam entre 600 e 1 200 euros. Algumas das sapatilhas da primeira coleção chegam ao Brasil com a abertura da marca no país, no Shopping JK Iguatemi. A coleção retoma as origens da maison criada há 120 anos por Jeanne Lanvin, que desenhava vestidos infantis inspirados na filha Marguerite. Alber Elbaz, o atual estilista, propõe para o próximo inverno casacos oversized e capas com gola de pele - nos moldes da coleção feminina.

A Petite entra no rol de opções grifadas para os brasileirinhos, ao lado de Carolina Herrera Children, no Shopping Cidade Jardim desde 2010, Gucci Kids, nos shoppings Iguatemi e Cidade Jardim, e Burberry, no Shopping Pátio Higienópolis desde novembro. Lá fora, as novidades são o departamento infantil da Liberty, em Londres, que se soma aos já existentes entre as multimarcas Harrods, também na capital inglesa, e Bergdorf Goodman e Barneys, ambas em Nova York, e à loja de 50 metros quadrados da Young Versace, inaugurada em dezembro na Via Borgospesso, em Milão, ao lado da loja-mãe. Entre smokings, vestidos de festa e até mamadeiras decoradas com cristal, é possível encontrar um modelo básico de calça de menino por 200 doláres. Para estrelar a primeira campanha, por que não uma míni Cindy Crawford? A eleita foi Kaia Gerber, de 10 anos, filha da top model e musa do fundador da marca, Gianni Versace.

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Loja da Young Versace, em Milão: de smokings a mamadeiras com cristais. Ao lado, vestido Baby Issa (Foto: Veja São Paulo)

“Se a mãe for adepta fiel de uma marca, a filha certamente vai usá-la”, diz a empresária e consultora de moda Ana Cury, criadora da Fashion Weekend Kids. Em sete anos, a semana de moda infantil de São Paulo saltou de duas marcas de adultos que faziam peças infantis (Mixed Kids, que existe há treze anos, e Ricardo Almeida, que deixou de engravatar os meninos) para trinta nomes, entre Cris Barros, VR, Maria Bonita Extra e Ronaldo Fraga. O evento extrapolou as fronteiras do Shopping Iguatemi (a partir do segundo semestre, estará também no JK) para o Rio de Janeiro, Curitiba e Ilha de Comandatuba, na Bahia. Mais do que imitar os pais, no entanto, os miniconsumidores dominam cada vez mais cedo o bê-á-bá da moda. “Meninas comentam os looks da Suri Cruise (a filha de Tom Cruise e Katie Holmes veste de D&G Junior a Armani Junior) e de outros filhos célebres nos próprios blogs", dia Ana. O exemplo da empresária vem de casa: a filha Maria Eugênia, de 8 anos, declara-se apaixonada por vestidos e adora navegar no site Stardoll. A página reproduz a ideia de vestir as bonequinhas de papel do passado ó só que com marcas reais, cujos lançamentos figuram na seção Shopping da rede social. “Também faço amizade com outras meninas que gostam de moda”, diz Maria

Eugênia, que venera a GAP Kids. Vender pela internet é uma das apostas para facilitar a vida dos pais que querem ver os filhotes de Stella McCartney Kids, Rykiel Enfant e da recém-lançada Marni Kids, ainda sem lojas físicas no Brasil. Com esse intuito, a multimarca paulistana Piks começou a revender marcas importadas on-line. “Aumentamos o faturamento em 300%”, afirma Alessandra Engels, que oferece em sua loja no Shopping Iguatemi cerca de quinze etiquetas internacionais, como Ralph Lauren Baby & Kids, Little Marc Jacobs e Baby Issa. Agora para o Brasil inteiro.

Fonte: VEJA SÃO PAULO