Crônica

Havia playboys

Por: Ivan Angelo

Crônica
(Foto: Divulgação)

Boa parte dos moços de hoje sabe que a palavra playboy significa alguma coisa mais que a revista de moças que mostram as coisas. Talvez uma parte dos estudantes de inglês saiba que a palavra existia bem antes de a primeira revista das coelhinhas ser lançada, em 1953, com a garota Marilyn Mon-roe na capa, e que designava então um moço rico, festeiro, gastador, dado a esportes caros como polo ou náutica, e amante de muitas, muitas mulheres famosas, que vinham a ser o seu terceiro esporte caro.

Os dicionários ingleses costumam datar as palavras, e o critério é quando elas passam a frequentar os suportes da escrita, depois de circular um tempo na boca do povo. A palavra playboy é geralmente datada de 1907, ano em que estreou com grande celeuma nacionalista e moralista a peça The Playboy of the Western World (O Playboy do Mundo Ocidental), do dramaturgo irlandês J.M. Synge. Acontece que o protagonista não tem nada a ver com o que a palavra nomeia hoje: ele é pobre, rural, desajeitado, faroleiro, fica famoso na cidade ao se vangloriar de ter matado o pai com uma foiçada na cabeça, ganha provas ridículas como corrida de burros, e só quer uma mulher, apesar de muitas se oferecerem. O dicionário Oxford assinala que a palavra já designou “garoto de teatro”, no século XVII, e adquiriu o sentido de rico-estroina-boêmio-mulherengo no começo do século XIX, “no inglês irlandês”. Por isso, os tradutores da peça ao redor do mundo tiveram problemas com o título: no lugar de playboy colocaram campeão, valentão, prodígio (na tradução de Millôr Fernandes), burlador, fanfarrão... 

Dei essa volta toda para dizer que achei em um jornal velho, durante uma arrumação, uma entrevista do playboy Jorginho Guinle concedida à repórter Norma Couri, publicada em O Estado de S. Paulo de 2 de agosto de 1997. Viajei de graça — jornais velhos têm esse dom. Não havia outra classificação possível para Jorginho senão playboy, no sentido de milionário namorador.

O playboy foi um produto de época, como o pneu banda branca, o tango, o terno de linho ou o bilboquê. Nos anos entre 40 e 60, os nomes que brilhavam no trajeto entre as joalherias e os lençóis de seda eram Ali Khan, Porfírio Rubi-rosa, Baby Pignatari, Jorginho Guinle (falecido em 2004) e mais uma dezena, preferidos por nove entre dez estrelas de cinema, expressão que roubo da propaganda de um sabonete da época. Dinheiro, tinham, e muito; não que tivessem feito algum esforço para ganhá-lo, e, se esforço fizeram algum dia, foi para gastá-lo. Eram herdeiros. Jorginho, da família Guinle, dona do Hotel Copacabana Palace, da Ilha de Brocoió, do Jockey Club do Rio, do Fluminense Futebol Clube, do Palácio das Laranjeiras, do Parque Guinle, do Parque da Cidade, na Gávea, da Granja Comari, em Teresópolis, onde a seleção brasileira costuma treinar. Admitia gostosamente terem passado pelos seus lençóis monogramados estrelas de cinema como Lana Turner, Hedy Lamarr, Veronica Lake, Jayne Mansfield, Rita Hayworth, Ava Gardner, Anita Ek-berg, Zsa Zsa Gabor, Susan Hayward, Kim Novak, Romy Schneider e Marilyn Monroe, entre outras. Provas? No tempo dos cavalheiros não havia Instagram.

Por que não há mais playboys? Os bilionários de hoje têm paixão é pelo dinheiro, business. Levam para a cama smartphones, laptops, iPads. Mulheres, jogos de azar e esportes vistosos são ruins para os negócios. A revista de fofocas deles é a Forbes. E as mulheres famosas não se interessam mais por sexo casual, uma joia e um adeus — querem é parte do outro negócio deles.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO