Política

Fernando Haddad muda secretariado para ganhar força na Câmara

Em meio à redistribuição de cargos entre aliados, prefeito traz Gabriel Chalita para seu governo, prevendo dobradinha nas urnas em 2016

Por: Silas Colombo

Haddad Chalita
Haddad e Chalita nas eleições de 2012: apoio após acusação de jogo “indecente” no primeiro turno (Foto: Luis Claudio Barbosa/FuturaPress)

Desde que chegou ao Edifício Matarazzo, no começo de 2013, o prefeito petista Fernando Haddad foi atacado por correligionários e aliados devido à falta de “jogo de cintura” político. Apesar de não ser propriamente um “purista” (depois de abraçar Paulo Maluf na campanha eleitoral, acomodou o interesse desse e de outros aliados de variadas legendas em cargos importantes), decidiu entregar postos nobres, como a chefia de subprefeituras e algumas secretarias, a nomes de perfil técnico, aguçando o apetite dos caciques.

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Passados dois anos, da pecha de “intransigente” não sobra quase mais nada. Boa parte das administrações regionais acabou nas mãos de indicados de vereadores. Além disso, cerca de dez dos 27 secretários estão sendo trocados de forma a agradar aos partidos cuja proximidade é conveniente para a disputa da reeleição, no ano que vem. A maior amostra dessa nova fase, porém, surgiu na terça (13), com a exoneração de Cesar Callegari (que não integra nenhuma agremiação) para dar lugar, na Educação, ao deputado federal Gabriel Chalita (PMDB).

cesar callegari
O ex-secretário de Educação Cesar Callegari: dificuldade de diálogo com a rede de ensino (Foto: Fernando Moraes)

Para os políticos próximos, é difícil pensar em alguém tão improvável. Adversário de Haddad em 2012, Chalita, de 45 anos, é ligado ao governador Geraldo Alckmin (um livro sobre a primeira-dama Lu figura entre os 54 títulos que escreveu). De 2002 a 2006, atuou como chefe da Educação da gestão estadual tucana, em uma passagem que resultou nos onze processos a que responde atualmente — as acusações vão de improbidade administrativa a enriquecimento ilícito. Egresso do PDT, do PSDB e do PSB, o peemedebista apoiou Haddad no segundo turno da eleição municipal, mas no primeiro chegou a atacar o vale-tudo eleitoral ao chamar de “indecente, incorreto e criminoso” o arranjo do PT com o PP de Maluf para fortalecer a coligação que sairia vencedora (pois é, o mundo dá voltas...).

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Assim, a chegada ao governo petista é tida como o maior sinal do acentuado pragmatismo do prefeito, que afirmou publicamente ter sugerido o nome. O convite foi intermediado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva junto ao vi cepresidente Michel Temer. Os planos são claros: Chalita seria o parceiro de Haddad em 2016, substituindo Nádia Campeão, do PCdoB. A expectativa é que a parceria meio Frankenstein resulte em um canhão estratégico. A formação da chapa ajudaria a neutralizar, de uma só vez, dois adversários fortes: Marta Suplicy, que antes das duras críticas ao PT recebeu sondagem para se filiar ao PMDB e seria candidata à prefeitura, e Paulo Skaf, também quadro do partido, que emplacou a segunda colocação nas eleições estaduais.

Nos bastidores, o reforço nas articulações é tema tratado com urgência, em um contexto no qual a popularidade não ajuda em nada: só 22% acham a gestão Haddad ótima ou boa, de acordo com a pesquisa mais recente do Datafolha, e apenas dezesseis das 123 metas de governo foram cumpridas. Com a distribuição de cargos, Haddad visa a acelerar a aprovação de propostas na Câmara Municipal, depois de penar em votações como a do Plano Diretor e a do reajuste do IPTU. “Ele tem resistência até de parte dos vereadores petistas, o que dizer dos aliados?”, resume Andrea Matarazzo (PSDB), líder da oposição tucana e possível rival na briga pelo Executivo em 2016.

 Guerra pela cédula

Os possíveis candidatos ao Edifício Matarazzo no ano que vem:

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Para ganhar força em plenário, o prefeito faz um loteamento semelhante ao de Dilma Rousseff na Presidência. Dará mais espaço ao PSD (que levou a SPTuris), ao PR (conseguiu a pasta de Negócios Jurídicos e pressiona por Verde e Meio Ambiente) e ao PCdoB (retornou à Igualdade Racial). O PMDB manteve a Segurança Urbana, enquanto o PT ganha poder acomodando alguns de seus principais figurões “desempregados”. Até a quinta-feira (15), data do fechamento desta edição, o ex-ministro Alexandre Padilha, derrotado na disputa pelo governo estadual, era cotado para assumir a gestão da Saúde. Eduardo Suplicy, fora do Senado, poderia ganhar a Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo.

A troca na Educação, porém, é cercada de atenção especial. Para que a dobradinha vingue, Chalita precisa melhorar consideravelmente a imagem da pasta. A principal tarefa é correr com a criação de creches. Das 150 000 novas vagas prometidas, só cerca de 40 000 foram oficializadas. Das 51 unidades entregues, apenas duas não estavam em construção no mandato anterior, de Gilberto Kassab. Para piorar o desgaste na periferia, na lista de vinte CEUs a ser feitos, um único prédio se encontra em fase final de obras.

manifestação greve professores
Greve de professores em junho passado: com 42 dias, foi a maior da história da categoria (Foto: Fabio Vieira/FolhaPress)

Outra missão é esfriar a tensão com os sindicalistas, que acusavam Callegari de falta de diálogo em mudanças como a extinção da progressão continuada. “A gestão voltou com a repetência, mas pressionava as escolas para passar alunos com notas vermelhas. A rede ficou confusa”, reclama o presidente do Sindicato dos Especialistas de Educação do Ensino Público Municipal, João de Souza. Os atritos resultaram em duas greves, uma delas de 42 dias, número recorde na história. No fim, os professores tiveram aumento gradativo de 15,38% em três etapas. Callegari lembrou essa “valorização” dos docentes em seu comunicado de despedida, no qual diz ter comandado a “maior reforma educacional de todos os tempos”.

Por essas e outras, o secretário deixa o cargo como alguém que, para os desafetos, “vive no mundo da lua”. Com a dupla Chalita e Haddad, porém, está claro que o realismo (e o pragmatismo a qualquer custo) dará as cartas daqui para a frente.

Fonte: VEJA SÃO PAULO