Guia da paquera

Aula de sedução: nós fomos

Por preços que vão de 120 a 2 200 reais, consultoria ensina paulistanos a azarar

Por: Alexandre Aragão e Camila Taira - Atualizado em

Pacha balada
Pacha, uma das baladas visitadas pelos alunos: lições teóricas e práticas (Foto: Divulgação)

Silêncio, pois vai começar. É um sábado ensolarado de novembro e oito homens com idades entre 19 e 35 anos, todos com a cara inchada típica de quem dormiu pouco apesar de passar das 13h, preparam-se para anotar as lições. “Elimine a palavra tentar do seu vocabulário”, prega Maurício, um dos professores. “Hoje, meu amigo, você vai conseguir.” Parece curso de autoajuda, e é mesmo, mas de um tipo pouco convencional: estamos numa aula de sedução. Tudo bem, o nome oficial é Workshop VIP, mas a galera reunida naquela sala alugada da Rua Abílio Soares, no Paraíso, tem exclusivamente o objetivo de aprender a velha arte da paquera.

A cara de sono tem razão de ser. Na véspera, o grupo saiu junto para a balada com o intuito de pôr em prática ensinamentos do primeiro dia de aulas — o programa abrangeria todo o fim de semana, com lições teóricas e práticas. De que? Ah, o conteúdo vai de noções de estilo a dicas de como se comportar diante de uma mulher na hora da azaração, ensinados por seis professores. Aliás, professores, não. Consultores. É assim que se autodenominam os instrutores da Universidade da Sedução. Quer dizer, o nome da instituição, criada em 2008, mudou para US Consultoria Social em janeiro deste ano. “Dava uma impressão errada, de que apenas ensinávamos os alunos a pegar mulher”, explica Maurício, que também é um dos donos.

A coisa toda tem ares profissionais, a começar pelo preço. Cada participante desembolsou 950 reais pelos três dias. As despesas em casas noturnas como Pacha e Villa Country não estão inclusas. É possível contratar a consultoria pagando por hora — 120 reais, via MSN, Skype ou telefone. O mais caro custa 2.200 reais e consiste em ir para quatro noitadas com um professor exclusivo. Tipo um personal trainer de paquera. Os consultores têm idades entre 22 e 34 anos e, quando não se dedicam a ensinar o bê-á-bá do cupido, exercem profissões em nada relacionadas a esse segmento. Maurício, por exemplo, é médico. Outros são psicólogos, administradores... Preferem, devido a essa, por assim dizer, vida dupla, manter-se no anonimato — por isso, a pedido deles, os sobrenomes de todos os mencionados nesta reportagem foram omitidos. O único que não se importa em falar a verdadeira identidade é Lourenço Zein, um dos sócios da empresa, que de tão versado no assunto já deu até entrevista a respeito no “Programa do Jô”.

Não existe uma periodicidade definida para as aulas. Elas rolam conforme os grupos de interessados se formam. Nas carteiras da classe que acompanhamos eram perfis variados — de rapazes com cara de novinhos, bem tímidos, a trintões recém-desquitados. Nenhum deles, pobrezinhos, era exatamente bonito. “Às vezes você quer agradar a mulher, e ela faz de você gato e sapato”, queixa-se um rapaz de sotaque nordestino, 19 anos da idade. Ah, sim: outra condição para que os repórteres de VEJA SÃO PAULO participassem do curso era a de não identificar os alunos. “Você tem que ser o Sol, que tem brilho próprio, e não um dos planetas”, ensina Eduardo, consultor de marketing no horário comercial. Naquela tarde, ele fez uma palestra intitulada “Formando um estilo de vida”, focada em autoestima. Uma de suas lições foi sobre a importância de sempre ter em mente os cinco Ps (Presença, Paixão, Pose, Propósito e Persistência).

Depois de Eduardo entrou em cena Dionísio — codinome bem apropriado, já que se trata de referência ao deus grego do vinho e das festas. “Vamos falar sobre como vocês podem despertar sua agressividade e masculinidade”, disse. Lola, a consultora seguinte, versou sobre imagem pessoal. “Há três tipos de homem: os manés completos, os normais e os respeitados por todos”, ensinou. Isso já por volta das 18h, quando terminava a primeira parte da jornada daquele dia. Dali a algumas horas, a classe cairia na noite. O curso teria outras cinco horas no domingo, com lições teóricas e um pouco de (esperavam os participantes) mão na massa.

Fonte: VEJA SÃO PAULO