teatro

Grupo inglês dispensa as palavras no drama "Translunar Paradise"

Theatre Ad Infinitum consegue transmitir emoções vastas em espetáculo mudo

Por: Dirceu Alves Jr. - Atualizado em

Translunar Paradise
George Mann e Deborah Pugh: dramaturgia apoiada em mímica e máscaras (Foto: Alex Brenner)

Há cinco anos, o então recém-fundado grupo inglês Theatre Ad Infinitum surpreendeu muita gente na programação alternativa do Festival de Edimburgo, na Escócia, com o espetáculo Behind the Mirror. Foi nessa mesma mostra, porém dentro da grade oficial de 2011, que a companhia lançou o drama Translunar Paradise, sua quarta produção e detentora de oito prêmios internacionais até agora.

Depois de uma visita ao país no ano passado para apresentações em Belo Horizonte e Londrina, a peça inicia uma temporada no Centro Cultural Banco do Brasil e deixa uma sensação única: é raro ter a chance de ver algo tão econômico e capaz de proporcionar emoções tão vastas. O espetáculo não oferece sequer uma palavra — sim, ele é totalmente mudo. No entanto, a dramaturgia criada pelo diretor George Mann traz riquíssimos detalhes e se revela muito clara ao espectador.

Também protagonista, Mann dá corpo a um viúvo arrasado com a morte da mulher (papel de Deborah Pugh). Sem abrir mão da rotina passada, ele chega, inclusive, a preparar o café para os dois todas as manhãs. Um dia, ela aparece para ajudá-lo a se livrar do luto e, nesse momento, começa a superação da montagem. Com uma técnica impressionante, os atores transmitem os sentimentos necessários apoiados apenas na mímica, no uso de máscaras para diferenciar as idades e na trilha sonora executada ao acordeão pela atriz e instrumentista Kim Heron.

A forma como eles se conheceram, o casamento, o sexo, a primeira separação — quando o marido vai para a guerra —, a decepção de um aborto espontâneo e a morte são encenados através da expressão corporal. O resultado é uma coreografia milimetricamente calculada e, no entanto, surpreendentemente leve e espontânea. Esse desfile de situações difíceis de imaginar sem o auxílio da palavra ganham forma no palco. Pode-se até pensar que uma série de imagens benfeitas e interpretadas vale mais que mil palavras prontas para entrar por um ouvido e sair pelo outro.

Fonte: VEJA SÃO PAULO