Crônica

Gritos ou sorrisos

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Olho em torno. Estou em uma sala ricamente decorada com móveis antigos e lustres de cristal. Vestida com uma grife importante e adornada com joias de bom gosto, a anfitriã recebe com distinção um pequeno grupo de convidados, do qual faço parte. Conversa delicadamente sobre artes, viagens e outras amenidades. O copeiro entra com uma bandeja com refrescos e champanhe. Mas comete uma gafe: oferece-me uma taça antes de servir uma convidada – a etiqueta manda que as mulheres sejam servidas em primeiro lugar. Imediatamente, a voz da dona da casa se torna dura, ríspida, cheia de raiva.

– Será que você nunca aprende? – acusa. – Não sabe se comportar?

O homem murmura desculpas envergonhado e se retira humilhado. Ela suspira.

– Essa gentinha não tem jeito!

Fico pasmo. Onde foi parar a elegância? Por que humilhar um subalterno devido a um erro de etiqueta ao qual ninguém daria importância? Sempre me defronto com esse tipo de situação: gente que gosta de humilhar os outros, principalmente quem não pode se defender. Certa vez fui a um jantar na mansão de um arquiteto. A certa altura, o anfitrião aproximou-se de um jovem vestido de maneira mais simples – como vim a saber, estagiário em seu escritório de arquitetura – e disparou:

– Sabe o que está bebendo? É vinho francês, aproveite!

O rapaz ficou completamente sem jeito. O outro ainda comentou com um amigo:

– Nem sei por que sirvo bebida boa a quem não pode apreciar. Olha só, ele nem sabe segurar a taça!

Porteiro de prédio sofre. Há quem ache que não precisa se identificar. Ou reclame enquanto o outro pede a autorização de acesso ao morador. Passam pelo hall com os olhos chamejando:

– Não me conhece?

Confesso: eu mesmo já cometi esse tipo de erro e até hoje me envergonho. Certa vez morava em um condomínio e cheguei à guarita no carro de amigos. O segurança, novato, não me conhecia. Fez uma confusão e não queria permitir a minha entrada. Explodi:

– Você não tem uma relação? Verifique! Ou chamo a síndica!

O rapaz só estava fazendo seu trabalho: proteger o condomínio. Ao ameaçar com a síndica, eu de fato o ameacei com demissão. No dia seguinte, envergonhado, pedi desculpas ao segurança e às pessoas que estavam no carro comigo.

Já me aconteceu o contrário. No final de uma peça de teatro, fui convidado a ir aos bastidores. Cumprimentei os atores que eu conhecia. Quando ia embora, uma das estrelas saiu de seu camarim. Fui parabenizá-la. Com um olhar altivo, ela me respondeu friamente. Despedi-me sem jeito.

Na mesma noite recebi um telefonema do administrador do espetáculo. A estrela descobrira que eu era autor de novelas e estava arrependida por ter me tratado daquela maneira. Na noite seguinte tentou jantar comigo. Um amigo comum quis fazer a ponte.

– Ela sonha atuar em sua novela. Pediu-me para explicar que só agiu daquele modo porque não sabia quem você era.

– Pior! – respondi. – Se tratou mal um desconhecido que foi lhe dar os parabéns, como será com os cabeleireiros, costureiras, motoristas, técnicos, produtores, que são a base de um trabalho em televisão?

Às vezes a pessoa nem é tão mais rica que a outra, mas se acha superior só porque tem um carro, uma casa maior, um diploma. Na minha opinião, a melhor forma de conhecer uma pessoa é observar a maneira como trata aqueles com quem a vida não foi tão generosa no sentido material. Agradecer cada gesto faz bem a quem ouve e a quem fala. Gritos ou sorrisos dão uma boa medida de quem é quem.

Fonte: VEJA SÃO PAULO