Crônica

A geografia do centro

Por: Matthew Shirts - Atualizado em

Crônica - A geografia do centro
(Foto: )

A data de nascimento no meu CPF está errada, descubro ao tentar fazer uma cópia do documento através do site da Receita Federal. Não sei como não percebi isso antes. Tirei-o na década de 80, quando me mudei para São Paulo. Lá se vão trinta anos, meu Deus. Vai ver que não fazia muita diferença, a data de nascimento, antes da época da internet. Sei que agora, sem acertar a data, a máquina se recusa a emitir o documento... Nada. São muito literais os computadores.

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Resolvo enfrentar o desafio pessoalmente. Pego a Linha 4 – Amarela e vou até o posto da Receita Federal na Rua Augusta, próximo da Avenida Paulista. Lá recebo um papelzinho com o endereço do lugar certo, outro posto do órgão, este no Shopping Light, na Rua Xavier de Toledo, perto da Estação Anhangabaú do metrô, na Linha 3 – Vermelha. Você vai rir de mim, talvez, mas não havia visitado o lugar desde que deixou de abrigar os arquivos da Eletropaulo, na década de 90.

É uma falha cultural imensa minha, percebo, logo ao entrar no edifício erguido pelo arquiteto Ramos de Azevedo, do outro lado da rua do Teatro Municipal. A tensão entre as lojas contemporâneas e populares, de um lado, e a arquitetura imponente dos anos 20, do outro, gera um clima sem igual na cidade. Meus impulsos populistas são incendiados pelo ambiente ao subir pela escadaria antiga até o posto da Receita no 2º andar.

Há, logo na entrada, uma fila para pegar senha. Ao lado dos janelões antigos, um pouco mais à frente, estão sentadas quarenta pessoas, em poltronas acolchoadas, como se fosse uma sala de embarque de aeroporto. Olham todos para a frente, em direção à parede, onde um placar eletrônico vai chamando as senhas. A impressão é que toda a história da humanidade foi parar ali.

Os estrangeiros fazem nesse local o primeiro CPF. Esquecera-me disso. Há africanos jovens, com camiseta colorida, sentados ao lado de senhores asiáticos, nisseis, me parecem, junto com mulheres de origem andina, peruanas, talvez, e dois ou três gringos, descendentes de europeus do norte, como eu, imagino. A verdade é que não sei de onde vem o povo todo. Gostaria de perguntar, mas não tenho coragem.

A cena, de qualquer forma, pede uma foto. Há ali uma diversidade étnica longe de ser banal. Minha senha é CPF 150. O placar faz um “pling” e exibe a CPF 139. Um senhor de origem andina se levanta e chama dois garotões, filhos seus, só podem ser. Estes vestem a linguagem, hoje universal, da adolescência. Cada um usa uma camiseta com a palavra Hollister, referência a uma cidade costeira na minha Califórnia que nada tem de muito especial.

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Mas que se tornou uma palavra de ordem, vaga referência a uma vontade global de pertencimento. Os pequenos fones de ouvido estão pendurados na orelha. Os tênis, da Adidas, são novinhos. Saio do shopping com uma cópia nova do CPF, a data de nascimento regularizada, não se preocupe, e o carinho pela cidade dos imigrantes renovado. Resolvo pegar a Linha Amarela na República, rumo à Estação Pinheiros.

Paro um pouco antes da Avenida Ipiranga para ouvir um conjunto equatoriano, com trajes típicos, tocar o som da sua região. Dou 10 reais à manager da banda e ganho, junto com o CD dos San Juanitos, um simpático “valeu, obrigado, alemão”.

Fonte: VEJA SÃO PAULO