Crônica

Gente esquisita

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

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(Foto: Ilustração)

Pedro, quando menino, foi atropelado pelo bonde e perdeu a perna direita, cortada abaixo do joelho. Para o distinguirem de outros Pedros, ficou sendo o Pedro-sem-perna. Era uma época de pontas-esquerdas incríveis no futebol, como Canhoteiro, do São Paulo, o maior deles, seu ídolo. Pedro, mesmo sem perna, jogava nas peladas como ponta-esquerda, de muleta. Se acontecia uma briga, a muleta virava arma. Adulto, tinha um bar com sinuca e continuava a jogar futebol nos fins de semana. Bancava os uniformes, as chuteiras, a lavadeira e a bola do time — e com isso garantia seu lugar como titular.

Todos nós sabemos de uma ou outra pessoa meio esquisita. Ao longo da vida talvez tenhamos cruzado com algumas, ou tivemos notícia delas, e acabamos esquecendo. Umas viraram personagens de escritores, como o Geraldo Boi do Fernando Sabino. Esse já era um caso patológico, conheci a figura. Não falo desses grandes mistérios da alma humana, mas de casos de pequenos escorregões para fora da normalidade. Um homem sem perna que cisma de ser ponta-esquerda é um caso.

Por exemplo, o Jonas. Ele lê dicionários. Só lê dicionários. Todos os dias e durante horas. Acorda, toma o café da manhã e logo se atraca com algum grosso volume. Em vez de lutar com palavras “mal rompe a manhã”, como “O Lutador”, de Carlos Drummond de Andrade, o nosso homem namora palavras. Amores frívolos, mas febris: passa de uma para outra, e cruza com uma nova, e a segue, pula para suas derivadas, um conceito o leva lá para diante, outro o remete para trás, murmura às vezes deliciado, personalizando-as: “olha que safadinha”. De vez em quando descobre algo e emite um “aaaah!”, com vibração. Não tem um objetivo claro, um estudo em desenvolvimento, nada disso; anda a esmo pelos labirintos da língua. Parece que estudou filologia, foi professor, aposentaram- no. À tarde, namora velhas palavras de dicionários antigos, como o Moraes ou o primeiro Caldas Aulete, na Biblioteca Municipal.

A mulher, não propriamente bonita, nem feia, mas dona de um corpão que não escondia, proprietária de uma butique de moda no interior, vinha visitar feiras em São Paulo a cada dois meses, a fim de negociar roupas, sapatos, bijuterias, lingerie, adereços e complementos para sua loja. Ficava dois dias, dava uma namoradinha, e ia de volta para a loja e o marido. Detalhe que ela contou para a roda de lojistas no restaurante da feira: só saía com quem tinha o mesmo nome do marido, para não dar fora quando estivesse com ele. “Sou muito distraída”, revelou. Nem sempre era fácil encontrar. “A propósito, alguém aqui se chama Osvaldo?”

Uma delegada me contou: existe na Mooca uma mulher de meia-idade que faz denúncias anônimas contra si mesma. Invariavelmente são denúncias de assédio a menores. A voz feminina diz que Fulana atrai rapazinhos para seu apartamento e ali acontecem coisas. Agora mesmo, dizia a voz, poderiam flagrar a monstra. Na primeira vez, a polícia chamou-a para esclarecimentos. Ela se queixou de inveja, disse que sabe que é bonita, não precisa desse tipo de conquista. Outra denúncia, e a polícia levou ordem judicial para ver o que estava acontecendo. Não havia nada suspeito lá dentro. Novo telefonema, novo fiasco. Começaram a perceber uns longes de vaidade nas declarações dela. Gravaram as vozes, compararam: eram da mesma pessoa. Agora, dizem apenas que vão investigar e agradecem à denunciante.

Falar dormindo é comum, mas ouvir dormindo? Quando dormimos, os nossos sentidos são rebaixados pelo cérebro a um nível mínimo de segurança. Tenho um primo que ouve dormindo. Se dorme durante a transmissão de um jogo, quando acorda sabe dizer o resultado e quem fez gol. No meio da noite, ele dormindo, a mulher combina alguma coisa com ele para o dia seguinte e dá certo. Aos domingos, ao acordar daquela dormida pesada no sofá depois do almoço de família, sabe o que disse cada parente, e repete se duvidarem. É o meu esquisito preferido.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO