Trabalho

Conheça a capital brasileira dos garçons

Depois de saírem de Pedro II, muitos retornam como empresários

Por: Daniel Bergamasco [Colaboraram Arnaldo Lorençato, Mariana Gabellini e Taciana Azevedo] - Atualizado em

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Evaldo de Castro, na pizzaria Sampa: homenagem à metrópole na volta para a terra natal (Foto: Daniel Bergamasco)

As fotos da Avenida Paulista na fachada são, para Evaldo de Castro, de 35 anos, o maior chamariz da pizzaria Sampa, que ele inaugurou há seis meses em Pedro II, município do interior do Piauí que mais fornece mão de obra a restaurantes paulistanos. “Falando de São Paulo, as pessoas já imaginam que vão comer bem por aqui”, aposta o empresário, que trabalhou por dezesseis anos na capital paulista, alguns deles na Babbo Giovanni. Com as economias desse período, voltou para a terra natal e abriu o negócio.

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O caminho de Castro é o mesmo de mais uma dezena de ex-garçons que, valendo-se de conhecimentos de atendimento e culinária, tentam hoje prosperar com seu próprio bar ou restaurante no município. Ao redor da Praça Domingos Mourão, espécie de Vila Madalena pedrosegundense, os quatro bares que fazem do local um point são de profissionais egressos de estabelecimentos paulistanos.

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(Foto: Veja São Paulo)

A influência é clara. No maior deles, o Skinoos, a porção de provolone à milanesa (13 reais), novidade na região, está fazendo sucesso. “Outra coisa que introduzi é apresentar a garrafa ao cliente na mesa antes de servir a dose da bebida”, diz Jenifredo Lopes (ex-Japa Loko), que abriu o bar em sociedade com os irmãos Sigefredo e Hildofredo e paga 400 reais mensais de salário a cada um dos dois atendentes que emprega.

Localizada a 200 quilômetros da capital, Teresina, Pedro II ganhou o apelido de “Suíça piauiense” por se situar em região serrana e ter uma temperatura amena para os padrões do Nordeste (há quem use blusa de lã no mês de julho). A cidade tenta aproveitar o potencial turístico de seu clima e de suas cachoeiras. Tem até um festival anual de inverno, com apresentação de artistas como Nando Reis.

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Irene, com Adriano e Cristiano: o filho do meio busca em São Paulo dinheiro para reformas na casa, como a troca da cerca improvisada (Foto: Daniel Bergamasco)

Qualquer esforço vale para movimentar a economia do município, cujo PIB é de 99,1 milhões de reais, ou menos de um terço do da paulista Socorro, que tem número semelhante de habitantes. Em Pedro II, dos 37.000 moradores em 12.000 domicílios, há 8.000 beneficiários do Bolsa Família. E só recentemente tem crescido o artesanato com as lascas menos puras, mas também belas, da opala, pedra com tons azuis e verdes cujas porções mais nobres são exploradas por estrangeiros.

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Centro comercial da cidade: a prefeitura estima que remessas a parentes correspondam a 6% do PIB (Foto: Daniel Bergamasco)

Em razão desse cenário, o dinheiro que vem de fora é de grande valia para a economia local. A prefeitura (que, aliás, fecha as portas diariamente às 13 horas) calcula que as remessas dos “expatriados” (quase todos eles garçons radicados em São Paulo) cheguem a 6 milhões de reais por ano, ou 6% do PIB.

Para o casal Benedito e Maria de Lima, que tem dois filhos trabalhando em restaurantes paulistanos, os 1.000 reais que recebem por mês são o dobro do que lucram com um quiosque de sucos e salgados no Mercado Municipal. Mas não é todo mundo que consegue dar esse apoio aos parentes que ficam.

Luciano, de 23 anos, segundo dos três filhos de Irene dos Santos, partiu em 2010. “Ele foi com uma intenção: juntar dinheiro para reformar a nossa casa”, conta Irene. Ela, que vende cocada e conserta roupas para a vizinhança, diz que 1.000 reais seriam suficientes para construir ao menos um muro no lugar da cerca feita com amarração de troncos. “Mas o aluguel por lá é muito caro e não está dando para ele economizar por enquanto”, lamenta. “Não vejo a hora de ele voltar. É muita saudade.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO