Crônica

Galo nas colinas

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

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(Foto: Veja São Paulo)

No meio da noite, ouvi um galo cantar. Morador de bairro central da grande metrópole, pensei que tivesse sonhado, mas não, o galo era real e cantava. Na madrugada de caminhões de lixo, de buzinas, de carros passando com som brega altíssimo, de freadas, de risadas bêbadas, um galo cantava.

Quem, nas colinas de Perdizes, teria espaço e tempo para um galo?

Um galo não é apenas um galo, é o galo e suas circunstâncias. Um galo residencial demanda poleiro, galinheiro, galinhas — no plural, porque não é bicho para uma fêmea só.

Durante o dia voltei a pensar no galo, procurei-o com os ouvidos. O dia não favorece galos urbanos; e, se os há, seu canto não fura a barreira de sons de uma metrópole. Repito: se os há, mal anoitece, o natural é encerrarem suas atividades e irem dormir, como os da sua espécie. Galo não faz happy hour.

Na madrugada seguinte, naquela fase em que o sono se esgarça, ouvi-o novamente, distante e claro. Alongava-se na nota mais alta, como um tenor de ópera que se empolga. De onde viria o canto? Não considerava que viesse de algum apartamento das ruas próximas, mas não seria impossível. Havia coberturas com jardins, jabuticabas e romãs, por que não com galinheiro? A moda de criar bichos tem tornado as pessoas ousadas.

As colinas ainda têm muitas casas. A especulação imobiliária e o relaxo da prefeitura têm derrubado uma quantidade delas, muitas com os traços art déco da época da implantação do bairro. Não acredito que os velhos moradores tenham ainda ânimo para galinheiros, ou que seus descendentes lhes proporcionem essa distração. Nesta época de abundância de ovos e frangos nos mercados, galinheiros são desnecessários. Jogar milho no quintal é atrair pombos, praga urbana.

Nem o ladrão de galinhas existe mais, pois não há galinhas, e olhe que nasceram um para o outro. Os ladrões de hoje especializaram-se em bancos, comércio, arrastões, trombadas, esquinas, carros, celulares, laptops. Os chinelos dos pés de chinelo foram substituídos pelos tênis de marca.

Galinhas não ciscam na cidade. Mesmo nas panelas se tornaram raridade; tanto o caldo de galinha, que no ditado popular era servido junto com cautela e não fazia mal a ninguém, quanto a galinha de cabidela são hoje feitos com frango. Não se sabe em que torta foi parar a galinha morta.

Quem cria o galo desta crônica? Um poeta insone? Pais querendo mostrar na prática aos filhinhos que frangos não nascem nas bandejinhas dos supermercados? Alguma criança que ganhou o pintinho em um evento e soube criá-lo?

A curiosidade me levou a variar minhas caminhadas pelo bairro, aliando-as à procura de sons de galinheiro. No Parque da Água Branca existem galos garnisés à solta com suas famílias, mas a distância é grande para que cheguem até minha janela seus recados sobre a aproximação da aurora. Não consegui ouvir os sons que buscava, nessas caminhadas.

O canto continuava; quatro, cinco, seis gritos na madrugada. Por que começou de um dia para o outro? Ou já ondeava pelas colinas do bairro antes que o ouvisse pela primeira vez? Impossível localizar sua origem, depois de o som ziguezaguear refletindo-se em prédios e morros. Aquietei-me aos poucos, com o passar dos dias. Agora apenas imagino que em algum lugar, não muito distante, o galo, pelo menos ele, cumpre sua primeira tarefa do dia com entusiasmo. Ouço-o e volto a dormir.

Já não me importa ouvir o galo cantar e não saber onde.

e-mail: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO