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Galerias alternativas apostam em artistas desconhecidos

Espalhados pela cidade, espaços vendem obras de nomes ainda não consagrados

Por: Sandra Soares - Atualizado em

No início dos anos 90, quando trabalhava como estilista para marcas de moda jovem, Baixo Ribeiro costumava convidar grafiteiros para estampar camisetas. As roupas criadas por eles faziam tanto sucesso que muita gente comprava as peças para colecionar e as mantinha dentro do plástico, intactas. "Quando me dei conta disso percebi que uma galeria voltada para o grafite poderia dar certo", diz. Ele e a mulher, a arquiteta Mariana Martins – filha do pintor Aldemir Martins (1922-2006) –, fundaram há dois anos e meio a Choque Cultural, em Pinheiros (hoje contam com mais um sócio, o historiador Eduardo Saretta). No espaço de 150 metros quadrados são encontrados pôsteres, pinturas originais e gravuras em silk-screen de nomes como Speto, Zezão e Highraff, que têm seus admiradores entre o público moderninho de São Paulo. Se no início a galeria recebia apenas simpatizantes da arte de rua, hoje atrai para suas salas críticos e colecionadores. "É nesses endereços mais alternativos que encontramos obras novas, em que a experimentação é maior", afirma Fabio Cypriano, crítico da Folha de S.Paulo. "Eles são um estímulo para que mais pessoas produzam e ainda democratizam o consumo ao oferecer preços mais acessíveis." Quem visita a Choque, por exemplo, pode levar para casa peças a partir de 90 reais.

Desde o surgimento da Choque Cultural, outras galerias dedicadas à chamada arte jovem, feita por nomes ainda não consagrados, abriram as portas na cidade. A Pop, fundada pelo diretor de arte e pintor Roger Basseto, nasceu a partir da constatação dele de que o circuito tradicional das galerias "é uma panelinha". Em 2001, Basseto abandonou a publicidade para dedicar-se apenas à pintura e encontrou dificuldade para expor seus trabalhos. "Os publicitários artistas sofrem preconceito", acredita. "Não nos levam a sério." Logo que foi inaugurada, em Pinheiros, a Pop promoveu uma mostra coletiva apenas com criações de diretores de arte, que deverá ter edições anuais. Donas da Emma Thomas, as estilistas Juliana Freire e Flaviana Bernardo recebem a cada mês a visita de cerca de cinqüenta artistas interessados em preencher as dezesseis paredes da galeria. "Resolvemos montar esse espaço em fevereiro, depois de uma viagem pela Europa", conta Juliana. "Lá, as galerias estão por toda parte e são mais informais e movimentadas que as nossas", completa Flaviana. Em Paris, há aproximadamente 400 desses endereços. Em Londres, eles somam pelo menos 300. São Paulo tem por volta de setenta, segundo o guia Mapa das Artes – número que engloba também escritórios de venda de obras, que não costumam promover exposições.

Por apostar na ampliação do mercado de arte em São Paulo, o casal de artistas Ricardo Ramalho e Cátia Morais inaugurou há um ano a Favo, na Rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena, onde estão localizadas outras seis galerias. "A rua é muito procurada por turistas brasileiros e estrangeiros", diz Ramalho. A Favo guarda em seu acervo obras que valem de 200 a 4 000 reais. Na Casa da Xiclet – espaço para exposições que ocupa todos os cômodos da residência da produtora cultural Adriana Duarte, na Vila Madalena – é possível encontrar peças a partir de 1 real (borrachas escolares customizadas por ela própria). "Aqui expõe quem quiser porque minha intenção é democratizar a arte", afirma Adriana, que promove mostras em sua casa desde 2001. Para Alexandre Gabriel, diretor da Fortes Vilaça, em Pinheiros, uma das mais respeitadas galerias de São Paulo, o surgimento dessa concorrência mais alternativa é positivo. Em março, a Fortes Vilaça convidou oito artistas da Choque Cultural para expor em suas dependências. Em contrapartida, dez nomes de seu time, como os consagrados Vik Muniz e Beatriz Milhazes, criaram peças especialmente para a Choque. "Houve uma troca de públicos e com isso os dois lados saíram ganhando", diz ele.

• Casa da Xiclet. Rua Fradique Coutinho, 1855, Vila Madalena, Tel. 8420-8550.

• Choque Cultural. Rua João Moura, 997, Pinheiros, Tel. 3061-4051.

• Emma Thomas. Rua Augusta, 2052, conjunto 2, Cerqueira César, Tel. 9426-6991.

• Favo. Rua Fradique Coutinho, 1004, Vila Madalena, Tel. 3812-6571.

• Pop. Rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto, 297, Pinheiros, Tel. 3081-7865.

Fonte: VEJA SÃO PAULO