Crônica

A Galeria do Rock

Por: Matthew Shirts

Crônica
(Foto: Atílio)

Durante os primeiros dias da última Copa do Mundo, dei uma mão para uma equipe de televisão americana que veio para cá para fazer programas sobre música brasileira. Foi uma experiência e tanto para mim. Aprendi muito. E rendeu algumas histórias. Entre elas está a da gravação de uma entrevista e uma música com o astro do hip-hop paulistano Rappin Hood. O compromisso foi marcado para o fim da tarde na Galeria do Rock, na Avenida São João, em frente ao Largo do Paissandu. Se você reside na capital, deve conhecer o lugar. É um lendário ponto de cultura jovem, com cinco ou seis andares de lojas de discos, álbuns, camisetas, skates, tênis descolados, botas, cabeleireiros black, tatuadores, acupunturistas e uma ou outra lanchonete.

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Adoro ir lá. Gosto de ver os frequentadores, olhar as vitrines. Quase nunca compro algo porque, para ser sincero, já passei da idade, infelizmente. De vez em quando acho um CD ou outro, coisas da minha época que, diga-se de passagem, fazem sucesso ainda com a garotada. Mas, para ganhar tempo e poder flanar sem chamar atenção, paro e como um hambúrguer no Rock & Burger, no 1º andar. É simpático, apertado, bom e baratinho. Se você não conhece, vai me agradecer a dica. Outro lugar descolado, de nome maravilhoso, é a lanchonete Polo Norte, onde é possível comer um x-tudo e tomar uma Coca-Cola por 8,50 reais. Foi ali, e só na semana passada, que aprendi quais são os ingredientes de um sanduíche “carioca”: ovo, queijo, alface, tomate e maionese, de acordo com o atendente.

O que eu não sabia, na época da Copa, é que marcar uma entrevista com Rappin Hood na Galeria do Rock é o equivalente, guardadas as devidas proporções, a agendar uma gravação com o papa Francisco na Basílica de Aparecida. Não é prático. O músico foi obrigado a buscar refúgio do assédio dos fãs na loja de discos e CDs de um amigo seu no Centro Comercial Presidente, mais conhecido nas redondezas como Galeria do Reggae. A entrada fica na Rua 24 de Maio, número 116. O nome informal resulta, imagino, da Belliroots Reggae Shop e da loja de discos Johnny B. Good — Reggae e Blues, que ostentam as cores da Jamaica e chamam bastante atenção.

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Rappin Hood atribui sua popularidade ali na região não apenas ao seu sucesso como músico e fundador de hip-hop em São Paulo, mas também ao fato de frequentar a Galeria do Rock desde criança, há mais de duas décadas. Sua mãe, conta, cortava o cabelo ali. Enquanto a esperava sair do salão, ele acabou por conhecer o que havia de mais interessante em música americana e brasileira. Escrevo de memória, mas acredito tê-lo ouvido mencionar James Brown e Michael Jackson como influências. Achei essa sua história bonita. No dia da entrevista, virei fã de Rappin Hood e comprei vários dos seus discos. Meus filhos não acreditam. Tiram sarro. É a vida.

Lembrei-me disso tudo ao ler, na semana passada, que circula uma proposta de criação de um museu na Galeria do Rock. Sou a favor, entusiasta até, desde que ostente o mesmo dinamismo das lojas ali da região. Museu não deve ser nunca um mero depósito para objetos ultrapassados. Esse deve incluir a história de Rappin Hood.

Fonte: VEJA SÃO PAULO