Negócios

Os achados da galeria especializada em brinquedos antigos

Colecionadores usam endereço no centro para comprar e vender exemplares raros

Por: Silas Colombo

galeria dos brinquedos joão gazzola
João Gazzola: viagens para encontrar exemplares raros (Foto: Fernando Moraes)

Em meio ao movimento do centro da cidade, a poucos passos da Praça da República, um estreito corredor na Rua Sete de Abril dá refúgio a marmanjos na casa dos 40 anos para trocarem histórias da infância enquanto babam sobre bonecos e carrinhos das décadas de 60 e 70. Uns juram nunca ter perdido uma corrida sequer nos autoramas Estrela. Outros contam, orgulhosos, sobre a vasta coleção de bonecos Comandos em Ação ainda em perfeito estado. No endereço, as paredes estão forradas com milhares de brinquedos antigos, raros e extremamente bem conservados — muitos ainda dentro da embalagem original — que atraem colecionadores e um número crescente de visitantes em busca de um pouco de nostalgia. O prédio chama-se Galeria Itapetininga, mas ninguém o conhece pelo nome oficial. Para os frequentadores, ali fica a Galeria dos Brinquedos.

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No espaço, o momento do “namoro” com os produtos quase nunca é interrompido por um vendedor. As negociações são iniciadas a partir das informações contidas nos dezoito armários de vidro que servem de estoque e vitrine para o arsenal à venda. Junto com os itens, os donos das coleções expostas deixam bilhetes com o nome e o telefone. A maioria não fica no lugar o tempo todo. O interessado, depois de analisar os detalhes da mercadoria, liga ou pede a alguém para chamar o responsável pelo exemplar. “Não mexo com internet”, avisa Paulo Rodrigues, o Paulinho, um dos que se mudaram para lá, em 2002, quando o primeiro grupo de colecionadores que faziam transações por hobby nos fins de semana, na feira da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, migrou para o local.

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Foi nessa leva que João Roberto Gazzola, na época estudante de geografia na Pontifícia Universidade Católica  de São Paulo, transformou a negociação amadora do excedente de sua coleção de bonecos Gulliver em um ganha-pão. Hoje, o comerciante de 49 anos é dono da Galeria dos Brinquedos, a maior das duas únicas lojas do corredor — e que batiza informalmente o lugar todo. Quem entra pela porta muitas vezes se assusta quando ele surge de detrás das pilhas de relíquias que soterram o espaço. Olhar as prateleiras é o mesmo que fazer uma viagem no tempo. O lugar abriga peças intactas do clássico Forte Apache, direto dos anos 70, além dos detalhados jatos, barcos e caminhões de guerra da série Comandos em Ação, junto dos bonecos dos personagens do desenho, que foram febre entre garotos na década de 80. As velhas ofertas fazem brilhar os olhos de um público que, em grande parte, ostenta  cabelos grisalhos, mas está disposto a desembolsar 1 000 reais por uma miniatura de um Fusca movido a pilha produzida em 1968 com a caixa original em bom estado — o que valoriza o produto em até 50%. “Crianças, só do lado de fora”, avisa o proprietário.

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Apesar de deter a maior variedade de peças do endereço, Gazzola não dorme no ponto. Para manter o estoque afinado com a exigência da clientela, encara semanalmente uma espécie de caça ao tesouro por porões e armazéns da cidade e do interior. As visitas, geralmente feitas a convite dos donos das quinquilharias que querem uma avaliação ou simplesmente se desfazer dos artefatos, são uma caixa de surpresas. “Já viajei metade de São Paulo atrás de um Ferrorama e voltei com o carro cheio de outras raridades, mas na maioria das vezes só tem tralha”, explica. Encontrar itens valiosos é tarefa fácil perto da dificuldade das negociações regadas por nostalgia. É comum, por exemplo, alguém pedir de volta a coleção que acabou de vender por não aguentar a saudade. “Faço as vezes de psicólogo para fechar negócios”, afirma. Gazzola até já socorreu uma cliente que passou mal de emoção por ter achado uma boneca que lhe trouxe à tona a memória do pai falecido. Mesmo com toda a experiência no ramo, ele sofre de problema semelhante: os brinquedos mais legais encontrados nas caçadas entram para a sua coleção pessoal e não são vendidos de jeito nenhum.

Galeria Itapetininga. Rua Sete de Abril, 356, República - telefone: 3129-2313

Fonte: VEJA SÃO PAULO