Crônica

Futebol de bairro

Por: Matthew Shirts

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(Foto: Divulgação)

Domingo de manhã jogo futebol com meu caçula, Samuel, de 11 anos, em uma quadra de cimento na Avenida Sumaré. Fica do lado direito para quem desce em direção à Marginal Tietê. O local é público e mal cuidado. As cestas de basquete foram arrancadas faz um bom tempo. As traves do gol sofreram ataques semelhantes, percebe-se, mas sobreviveram (sem rede, claro). Acumula-se ali lixo aos montes. Mas dá para jogar. É o que importa. O melhor da “quadrinha”, como nós a chamamos, é que ela existe. Sem esse espaço, dificilmente aconteceriam as nossas peladas. Não há nas redondezas outro campo de tão fácil acesso. É bonito até, à sua maneira, diga-se, bem grafitado e, por isso, colorido.

Quem inventou as partidas de domingo foi o fotógrafo pernambucano João Quesada. Há seis anos ele começou a levar seu filho Zeca, mais alguns amigos da Escola Alecrim, ali perto, para aprender a jogar futebol direito. O programa fez sucesso. Outros alunos aderiram e, com eles, seus pais, primos, amigos e mesmo algumas mães e filhas, pelo menos de vez em quando. Passaram a participar vizinhos da quadrinha, como Lorenzo, que recebeu o apelido improvável de Bob Marley, graças à camiseta com a foto do rei do reggae vestida na sua primeira partida. Sem falar do Aranha, cuja alcunha resulta, quero crer, das suas qualidades como goleiro. Inaugurou-se nessa época, também, a tradição de jogar a última partida do dia entre os pais, de um lado, e os filhos, do outro. Era “fofo” o confronto, no início, quando os meninos tinham 5 anos. Hoje, seis verões mais tarde, nós, os velhos, sofremos para derrotá-los. As crianças jogam cada vez melhor, enquanto os veteranos dali, como eu e o fotógrafo Hélcio Nagamine, já ultrapassamos os pontos áureos da nossa carreira de boleiros, um pouco como acontece agora com o ídolo tricolor Rogério Ceni.

Nunca houve nenhuma restrição à participação ali, nem poderia. Como vinha dizendo, a quadrinha é do povo como o céu é do avião. Participam, por vezes, operários de obras de construção nas redondezas, recém-chegados a São Paulo, e também sem-teto, que atuam descalços no concreto. O segredo dos campeonatos do pedaço é saber organizar os times. Dá certo trabalho. Hélcio é bom nisso.

No último domingo um amigo meu ali do bairro passeava na Avenida Sumaré com o cachorro. Percebeu que era eu no gol e começou a pôr em dúvida, aos brados, o desempenho dos americanos no esporte bretão. É do jogo. Quem sai na chuva é para se queimar, dizia Vicente Matheus, o saudoso presidente do Corinthians. Assistia a tudo, do fundo da quadra, um sem-teto, que dormira ali, debaixo da árvore, bem instalado, com direito a cobertores, travesseiro e um sistema de som, movido a pilha (imagino). Ouvia, juro, deitado ainda, a trilha sonora do filme Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. Isto é futebol de rua, pensei. São Paulo é uma cidade e tanto.

Fonte: VEJA SÃO PAULO