Música

Funk paulista troca violência por luxo

Com letras que ressaltam aspirações, carros e dinheiro, jovens acumulam milhões de visualizações no YouTube e cachês de até 10 000 reais por apresentação

Por: Cristiane Bomfim - Atualizado em

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Os funkeiros: sem violência e respeito à mulher, estilo domina pistas na cidade (Foto: Mário Rodrigues)

O funk carioca ganhou merecida má fama nos anos 90, com letras que faziam apologia de temas como sexo, drogas e violência. Mas uma nova vertente do gênero, esta criada aqui em São Paulo, abandonou não apenas a postura agressiva como surpreendeu no discurso, passando a valorizar itens de consumo, principalmente artigos de luxo como carros importados e roupas de grife. É feito por uma rapaziada capaz de rimar bolsa Louis Vuitton com batom, como na canção As Minas do Kit, do MC Nego Blue, um dos expoentes do funk da ostentação, como foi batizado o gênero. As raízes da onda surgiram em Cidade Tiradentes há três anos e, de lá para cá, ela extrapolou os limites do bairro da Zona Leste para emplacar até em casas noturnas badaladas, como Eazy, Club A e Royal.

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No estilo dos rappers americanos, funkeiros paulistas gostam de exibir correntes de ouro e carrões (Foto: Beto Lima)

O primeiro hit, do início de 2009, foi Bonde da Juju, da dupla Backdi e Bio G3. O refrão com propaganda (gratuita) dos óculos da marca americana Oakley atingia o público em cheio: as cópias e modelos originais das armações e lentes, que custam até 1 500 reais e são comprados em parcelas a perder de vista, enfeitavam o rosto da esmagadora maioria dos garotos presentes nas baladas dos bairros da Zona Leste da capital. Com essa identificação, tornou-se um sucesso quase instantâneo na região. “Nossas letras falam das coisas que queremos ter. Quem não gosta de usar produtos caros?”, diz Bio G3, de 28 anos, cujo nome real é Cléber Passos Alves. Atualmente, ele faz cerca de quarenta shows por mês, com uma hora de duração cada um, e fatura até 10 000 reais por apresentação, segundo diz. Mora no Jardim Aricanduva e circula pela área na companhia de gente como a modelo Monique Bertolini. Seu sonho de consumo automotivo é ter uma Ferrari. Por enquanto, apesar dos ganhos obtidos com os espetáculos, só chegou perto de uma versão 458 Italia na gravação do clipe de uma de suas canções.

Na sequência desse duo de pioneiros surgiram outros MCs, como Josley Caio Faria, o Dede, que ganhou um concurso de funk da subprefeitura de Cidade Tiradentes em 2008, mas só entrou no mercado da ostentação dois anos depois. Ele garante que as manifestações descaradas de poderio financeiro se restringem às apresentações. “Só me exibo em cima do palco, acho feio fazer isso na frente de quem não tem dinheiro”, justifica.

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Artistas dominam a cena cantando sobre dinheiro, carros e roupas de marca (Foto: Beto Lima)

Para especialistas, o perfil consumista da nova vertente possuiu ligação estreita com o progresso econômico verificado no Brasil ao longo da última década. “Esse estilo musical celebra a ascensão social da classe C”, teoriza Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto de pesquisas Data Popular. Os próprios artistas do gênero são um espelho do fenômeno. Um deles, Evandro Miranda Laureano, vendia capachos de porta em porta até 2011 e sua renda mensal não passava de 1 000 reais. Na metade do ano passado, sob a alcunha de MC Nego Blue, tornou-se um dos expoentes da ostentação. Seus quarenta shows por mês rendem cerca de 300 000 reais, de acordo com seus cálculos, o que lhe permitiu comprar à vista uma casa de 300 000 reais no Jardim Aricanduva, na Zona Leste, e um Hyundai Sonata zero-quilômetro avaliado em 99 000 reais.

Outro ponto em comum entre a turma é o uso da internet para difundir o som, principalmente no YouTube, em que o funk da ostentação fez carreira. O clipe mais popular da safra é Onde Eu Chego, Paro Tudo, gravado em janeiro por Wellington França, o MC Boy do Charmes, que tem mais de 21 milhões de visualizações. Outro destaque, Tá Patrão, de Guilherme Pinho, o Guimê, foi visto 15 milhões de vezes. O diretor queridinho dos funkeiros é Konrad Dantas, o KondZilla, responsável pela maioria das produções, como a de É o Fluxo, de Nego Blue, que custou 40 000 reais (a mais cara de todas) e teve 1,3 milhão de visualizações desde setembro. Há até um documentário na rede falando sobre a carreira desses artistas.

A nova safra é representada por um garoto de apenas 14 anos de idade: Guilherme Kauê Alves, o MC Gui. Ele ganhou visibilidade há três meses com a canção Ela Quer. Com um rostinho bonito e cabelos claros em corte moicano, acabou ficando conhecido como o “Justin Bieber do funk” e causa alvoroço em bairros da Zona Leste. No dia 24 de novembro, por exemplo, mais de 1 000 adolescentes invadiram o Shopping Metrô Tatuapé aos gritos porque descobriram, pelo Facebook, que ele estava almoçando por lá. “Foi preciso chamar policiais para tirar o menino lá de dentro”, conta o pai, Rogério Alves. A turma mais antiga do funk vê com desconfiança o futuro do movimento. “É um modismo que vai passar logo”, aposta o DJ Marlboro, um dos precursores da cena carioca nos anos 80. Enquanto ele não passa, a galera da ostentação sonha em ganhar o suficiente nos shows e gravações para, quem sabe um dia, comprar um carrão — ou, no mínimo, uma Louis Vuitton e um batom para a namorada.

 

MANUAL DE ESTILO

Funkeiros em SP
MC Gui, apelidado de "Justin Bieber do funk", à frente do grupo que faz sucesso com clipes na internet (Foto: Mário Rodrigues)

As principais características do gênero

O que é

■ Criado por artistas paulistanos, é mais conservador que o funk carioca e substitui o sexo, a violência e os palavrões das letras por grifes, carros, perfumes e joias

Artistas de destaque

■ Nego Blue, Dede, Backdi e Bio G3, Guimê, Rodolfinho, MC Boy do Charmes e Neguinho do Caxeta

Principais façanhas

■ Profissionalizaram os videoclipes de funk. Com isso, a maioria ultrapassou a marca de 1 milhão de visualizações no YouTube. Onde Eu Chego, Paro Tudo, por exemplo, foi visto mais de 21 milhões de vezes. Já É o Fluxo, do MC Nego Blue, custou 40 000 reais para ser produzido

Onde costumam se apresentar

■ Casas noturnas da periferia ou que criaram noites de funk: Cabral (Zona Leste), Eazy (Zona Oeste), Club A (Zona Sul). Locais mais luxuosos, como Royal Club (centro), já tiveram apresentações de alguns desses artistas

Objetos de desejo

■ Carros das marcas Porsche, Ferrari e Lamborghini, viagens internacionais e mansões com piscina e churrasqueira perto do bairro onde nasceram e foram criados

Ídolos

■ Emicida, Soulja Boy, 50 Cent

Fonte: VEJA SÃO PAULO