Crônica

Fora do tom

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Há pessoas incapazes de falar em tom civilizado. Já fiz uma longa viagem de ônibus onde uma senhora conversava ao celular. Todos os passageiros foram informados de sua briga com a filha, da vizinha que deu em cima de seu marido e de outros detalhes de seu dia a dia. O celular virou uma praga, convenhamos. Tornou-se normal expor a intimidade em voz alta na frente de qualquer um. E no elevador? Dia desses, entre vinte andares, duas amigas atualizaram suas vidas e as alheias em bom som. Constrangidos, eu e os outros passageiros, fingíamos não ouvir. Foi um alívio descer.

Em certos bares as pessoas vão para se divertir e não existe motivo para obrigá-las a diminuir o tom. Mas quando se sai para comer fora, o ideal é ouvir quem está na sua frente, jamais o cliente do outro lado do salão. Piores são as mesas com crianças. Algumas, ainda pequenas, se tornam ‘ donas ’ das famílias. Berram, exigem o que querem. Boa parte dos pais age como se todo o restaurante fosse obrigado a suportá-las. No máximo a mãe pede em voz tímida:

-Fica quietinho agora!

- Mas eu quero, eu quero! - grita a criança.

Um famoso ator viajou na ponte aérea. A seu lado veio uma jovem atriz, interessada em um papel do musical que ele ensaiava. Apresentou-se. Ele sorriu, por educação. Ela descreveu seus talentos. Ele continuou com o sorriso atarraxado. Animadíssima, ela quis demonstrar seus dotes musicais. E todos os passageiros voaram ao som da voz desafinadíssima, canção após canção. Adivinhem se conquistou o papel!

E quem fala e ri alto em velório? Não nego: existe uma tradição de contar piadas nessas ocasiões, talvez para aliviar a tensão. Mas para quem está arrasado pela perda é horrível. Cheguei a expulsar um tio do velório da minha avó. Quando terminou uma piada, às gargalhadas, declarei:

-Se veio para dar risada, é melhor ir embora.

Foi uma confusão geral.

Ouvi gente falar alto em igreja, quando outros querem meditar. Em espetáculos. Faz pouco tempo, no cinema, dois adolescentes conversavam em voz alta sobre cada cena. Fiz: ‘shhhhhh’. Não se importaram. Outras pessoas me imitaram: ‘ shhhh, shhhhhh ’. No fim, os pedidos de silêncio faziam mais ruído que as vozes. Um deles comentou:

- Ih, estão reclamando!

E continuou a falar!

Um dos motivos pelos quais raramente dou palestras em escolas e universidades é porque os alunos ficam conversando e gasto parte do tempo conquistando seu silêncio. Nos meus tempos escolares, quem conversava levava bronca. Hoje os professores tentam ser ouvidos enquanto boa parte da classe discute a balada da noite anterior. Certa vez fui dar uma palestra para cerca de 100 alunos. Os mais novos prestavam atenção total. Os adolescentes, ao fundo, faziam barulho. Pedi:

- Quem quiser conversar pode sair sem problema. Vai ser melhor para quem prefere me ouvir.

Mais da metade saiu. Aliviado, tentei continuar. Foi inútil. Os outros estavam no pátio, praticamente na porta da sala, berrando ainda mais! A professora confessou: não sabia como contê-los!

Essa atitude é um desrespeito a outra pessoa. Aos colegas de classe que querem assistir a aula. A quem está no mesmo espaço e tenta conversar, ler, assistir a um filme em paz. Cultivar o tom de voz é uma qualidade que muita gente esqueceu. Fico feliz quando entro em um avião, onde os celulares (ainda) são proibidos. Já imaginaram uma viagem internacional com todos os passageiros falando ao mesmo tempo, um mais alto que o outro?

Fonte: VEJA SÃO PAULO