Concertos

Filarmônica de Minas Gerais realiza três récitas na Sala São Paulo

Maestro Fabio Mechetti fala sobre apresentações da orquestra, que substitui a Osesp durante turnê europeia

Por: Jonas Lopes

Fabio Mechetti
O maestro Fabio Mechetti (Foto: Eugênio Sávio)

No universo da música erudita o tempo tem uma cadência própria. Tudo é devagar, demora mais para se concretizar. Talvez por isso surpreenda tanto a trajetória da Filarmônica de Minas Gerais. Criada pelo governo mineiro em 2008, tendo como base a já existente Sinfônica de Minas Gerais, e administrada, assim como a Osesp, por meio de uma parceria público-privada, a orquestra vem conquistando vitórias importantes. Em 2012 realizou a primeira turnê internacional, na Argentina e no Uruguai. Neste ano, lançou seu primeiro CD comercial, uma gravação da Nona Sinfonia – A Grande, de Franz Schubert, e agora prepara um álbum com obras de Heitor Villa-Lobos para o prestigioso selo Naxos. O principal salto, contudo, está previsto para 2015, quando será inaugurada a Sala Minas Gerais, a esperada sede própria para concertos.

A Filarmônica de Minas Gerais se apresenta de quinta (17) a sábado (19) na Sala São Paulo. O grupo substitui a Osesp, que está em turnê pela Europa. O repertório das récitas traz a abertura da ópera Tannhäuser, de Richard Wagner, o Concerto para Piano e Orquestra Op. 13, de Benjamin Britten – com solos do promissor pianista sino-americano Conrad Tao, de apenas 19 anos –, e a Sinfonia Nº 3 em Lá Menor Op. 44, de Sergei Rachmaninov. Diretor artístico e regente principal da formação desde o início, o paulistano Fabio Mechetti, radicado desde 1981 nos Estados Unidos, falou sobre as apresentações na cidade.

VEJA SÃO PAULO – Sobre o repertório das récitas, a abertura de Tannhäuser é quase um poema sinfônico, não?

Fabio Mechetti – É um resumo da ópera. Você tem a essência da história reduzida a doze minutos. Estão ali o contraste entre sagrado e profano, entre dionisíaco e apolíneo. Trata-se de uma peça de efeito. Nós acertamos o programa com a Osesp, para homenagear os aniversários do Wagner (nascido há duzentos anos) e do Britten (nascido há cem anos).

O concerto do Britten foi escrito quando o autor era jovem. Curiosamente, um pianista de 19 anos vai tocá-lo aqui. Tem uns elementos de pastiche nesse concerto, mas várias características da maturidade do Britten estão ali, como o apego ao tonalismo e a preocupação rítmica e temática com fragmentos de caráter militar, marchas etc. As guerras nunca deixaram o Britten em paz, tanto que ele compôs um Réquiem de Guerra e a Sinfonia de Réquiem. Já toco com o Conrad Tao desde que ele tinha 15 anos. É um dos músicos que mais me impressionaram nos últimos tempos. Além de técnica apurada, ele tem preparo musical e uma sensibilidade muito forte. Vai além do mero exercício físico dos dedos e é  maduro para a idade, com uma visão de função da arte que é avançada. E o Tao nunca havia tocado esse concerto. Quando o convidei, ele pediu para escutar, adorou e tocou participar. É um nome em que as pessoas certamente vão prestar atenção nos próximos anos.

A última peça do programa é a Terceira Sinfonia, de Rachmaninov. O que acha dela? Faz uns dez anos que não rejo essa sinfonia. Nem fui sempre fã do Rachmaninov, a admiração foi crescendo aos poucos. Com uma certa idade o fator nostalgia começa a atacar e você passa a se identificar mais com alguns compositores específicos. É uma peça bonita, porém difícil de tocar, pois desafia a orquestra e exige um tanto de cada naipe.

Sala Minas Gerais - externa
Projeto da Sala Minas Gerais, prevista para 2015 (Foto: Figura Arquitetura e Imagem)

Como enxerga a evolução sonora da Filarmônica de Minas Gerais nesses primeiros anos? Acha que já existe uma identidade sonora? Temos conseguido melhorar constantemente e equilibrar os setores da orquestra. Às vezes os músicos reclamam que eu programo pouca música do período clássico. Estou guardando esse repertório para quando tivermos a sala nova, pois é ideal para burilar a sonoridade. Tudo tem melhorado, portanto, mas enquanto não tivermos um mesmo local para ensaiar e tocar ao vivo vai ser muito complicado, sempre teremos um limite. Dependemos da agenda do Palácio das Artes, que é restrita, e não ensaiamos em espaços adequados. Ainda depende muito do ambiente em que estamos nos apresentando para conseguir fazer Brahms soar como Brahms, Debussy como Debussy. Quando se decidiu construir a sala, consegui a promessa do governador Antônio Anastasia de que a obra começaria pela acústica, e não pela estética, que é um erro que se comete muito mundo afora. Só quando ela estiver pronta vamos ter uma noção real de como será a acústica lá dentro.

O que está previsto para a temporada 2014? Teremos um ciclo de Richard Strauss, que é um dos meus compositores preferidos. Quis fugir dos clichês da produção dele, então programei, por exemplo, a Sinfonia em Fá Menor, que é basicamente um esboço para a Sinfonia Alpina. O poema sinfônico Da Itália também é pouco conhecido, embora seja bem curioso. Acho importante obrigar os músicos a se arriscar em repertório que eles nunca tenham tocado, para não deixá-los cair na zona de conforto. Também estão previstas composições de brasileiros, a exemplo de César Guerra-Peixe.

Sala Minas Gerais - interna
Projeto da Sala Minas Gerais (Foto: José Augusto Nepomuceno - Arquitetura Acústica-Planejamento)

Quais são as principais diferenças entre dirigir uma orquestra no Brasil e nos Estados Unidos [Mechetti comanda desde 1999 a Sinfônica de Jacksonville, na Flórida; fica no posto até junho de 2014]? Os músicos americanos talvez sejam os mais eficientes do mundo. O nível de profissionalismo, desde uma orquestra jovem até uma Sinfônica de Chicago, é assombroso. Sempre chegam preparados, tocam repertório de qualquer época e são muito bem treinados. Ao mesmo tempo, paga-se o preço do enorme protecionismo dos sindicatos. Apesar de esses sindicatos terem conseguido valorizar os músicos, dificultaram o dia a dia, a rotina de trabalho. O ensaio tem duração pré-determinada: passou um segundo do tempo e tem que acabar. A maior diferença em relação ao Brasil é a intranquilidade financeira, pois lá o modelo é de doações privadas, de modo que dependemos muito da situação da economia. Aqui o modelo é de dinheiro público, em parceria com a iniciativa privada. Temos um orçamento pré-determinado – em 2013 foi de 22 milhões de reais, sendo 17 do governo estadual. Dá para apostar em um repertório menos óbvio e acomodado. Lá isso não existe: quem se arrisca muito pode perder doações. Sou pessimista com o futuro nos Estados Unidos. Há uma decadência brutal da sociedade em termos culturais. Sempre existiu no país, sobretudo no início do século passado, o entendimento patriótico das pessoas com o dinheiro, da importância de propiciar alta cultura, financiar museus e óperas. Hoje em dia os milionários não têm interesse em arte, e sem eles não há o que fazer, pois os governos não financiam nada. É um dilema sério.

Você foi assistente do russo Mstislav Rostropovich na Orquestra Sinfônica Nacional, de Washington, entre 1985 e 1989 [um dos maiores violoncelistas do século XX, Rostropovich foi também maestro]. Chegou a regê-lo como músico? Sim, a primeira vez foi na audição para entrar na orquestra. Uma das missões era acompanhá-lo no concerto de Saint-Saëns. Chegamos a fazer também Dvorák, Prokofiev e Tchaikovsky. Costumo dizer que o Rostropovich foi o único gênio que conheci, embora não necessariamente como regente. Foi indiscutível como violoncelista, divulgador de música contemporânea – as principais composições do instrumento do século XX foram escritas para ele –, professor, figura política – imagine só, um russo dirigindo uma orquestra logo em Washington em plena Guerra Fria. Certa vez ele veio tocar no Rio de Janeiro com uma orquestra de Budapeste, e à época eu era diretor do Theatro Municipal. Fui vê-lo e ele me perguntou: “você consegue para mim as partes do instrumento das Bachianas Brasileiras Nº 1, do Villa-Lobos? Queria dar um bis depois do concerto”. A apresentação era naquela mesma noite. Procurei nos arquivos do Municipal e não achei. Liguei para a OSB e nada. Ninguém na cidade tinha. Disse: “desculpe, Slava, não consegui a partitura a tempo”. Rostropovich agradeceu, disse que estava tudo bem. Na récita ele tocou o concerto do Dvorák e, em seguida, tocou o Villa-Lobos no bis. Fui perguntar como havia conseguido. Ele escreveu de cabeça a peça no papel e ensaiou meia hora antes do início do concerto. Foi o suficiente.

Fonte: VEJA SÃO PAULO