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Estacionamento em São Paulo custa caro

Alguns paulistanos contam que gastam até 1 500 reais mensais para ter onde guardar seus carros

Por: Daniel Salles - Atualizado em

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Estacionamento da Avenida Paulista: a região precisaria do dobro de garagens para atender à demanda (Foto: Fernando Moraes)

O publicitário Marcus Hoenen passa parte de seus dias perambulando pela cidade para apresentar projetos e discutir campanhas em escritórios de clientes. A bordo de um Citroën C3, faz pelo menos três dessas visitas diariamente, o que o obriga a deixar 1 000 reais por mês em estacionamentos. Quando retorna para a agência de propaganda da qual é funcionário, localizada próximo à Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, no Brooklin, ele também precisa entregar o veículo na mão de um manobrista, o que lhe custa outros 250 reais mensais. Frequentador de shoppings, cinemas e bares, decidiu somar seus gastos com valets e garagens. Resultado: uma média de 1 500 reais por mês, quase quatro vezes a quantia desembolsada com combustível. “Não há um só dia em que não precise recorrer a estacionamentos pagos”, conta o publicitário. “Virei refém desse serviço.” Hoenen não é o único. “Atualmente, é quase impossível encontrar vagas nas ruas”, diz a consultora de recursos humanos Ana Christina Almeida, que trabalha na Avenida Faria Lima. “Gasto 30 reais por dia para guardar o carro na região do meu escritório.” Como ela também não tem garagem em casa, sua despesa total ultrapassa 900 reais mensais.

De acordo com o Sindicato das Empresas de Garagens e Estacionamentos do Estado de São Paulo (Sindepark), a cidade dispõe de 1 milhão de vagas pagas, distribuídas por cerca de 9 000 estacionamentos. Para Jaime Waisman, professor de engenharia da Universidade de São Paulo e consultor na área de transportes, esse número seria suficiente para atender à frota circulante de 3,5 milhões de veículos. “O problema é que todo mundo quer estacionar nos mesmos pontos”, afirma. “Locais como a Avenida Paulista, por exemplo, deveriam ter o dobro de estacionamentos para dar conta da demanda. Mas não há espaço para construir novas garagens nessas regiões.” É por isso, graças à lei da oferta e da procura, que se encontram lugares que cobram 19 reais pela primeira hora do automóvel parado na garagem ou 68 reais por um período de doze horas. “Hoje, a maioria dos paulistanos não tem como prescindir de estacionamentos pagos”, aponta Pedro Donda, presidente do grupo STP, que administra o Sem Parar/ Via Fácil, sistema de pagamento automático de pedágios e garagens. Desenvolvido há uma década, o mecanismo é utilizado por 1,5 milhão de motoristas do estado. Está presente em dezessete dos cinquenta shoppings da capital e em alguns de seus maiores estacionamentos, como o do Aeroporto de Congonhas. Só em 2009, a empresa faturou 3,5 bilhões de reais. 

Raul Zito
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Na ponta do lápis, são 1 500 reais todo mês. O publicitário Marcus Hoenen desembolsa 1 000 reais para guardar seu carro em visita a clientes, 250 reais numa garagem próxima a seu trabalho, no Brooklin, e outros 250 reais ao se divertir. “Virei refém desse serviço”, diz (Foto: Raul Zito)
Na ponta do lápis, são 1 500 reais todo mês. O publicitário Marcus Hoenen desembolsa 1 000 reais para guardar seu carro em visita a clientes, 250 reais numa garagem próxima a seu trabalho, no Brooklin, e outros 250 reais ao se divertir. “Virei refém desse serviço”, diz

Os donos de garagens movimentam cifras igualmente vultosas, mas rechaçam a ideia de que o setor é uma mina de ouro. “Nossa margem de lucro gira em torno dos 4%”, diz Nilton Bagattini, proprietário da Area Parking, rede que administra cinquenta unidades em São Paulo. Segundo cálculos do Sindepark, os gastos com aluguel, IPTU e outros impostos consomem 51% do faturamento de uma empresa. O restante do valor arrecadado vai para o pagamento de seguro (2%), manutenção (4%) e mão de obra (39%). “Gasto 140 000 reais por mês só com o IPTU de uma de minhas unidades”, argumenta Sergio Morad, dono da Multipark e presidente do Sindepark. Ele se refere ao terreno na esquina da Avenida Paulista com a Alameda Pamplona, onde ficava a mansão que pertenceu à família Matarazzo. “Não consigo cobrar lá menos de 10 reais por hora.”

Segundo um levantamento realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), o valor cobrado por garagens e valets subiu quase 10% no ano passado, mais que o dobro da inflação registrada entre janeiro e dezembro (4,3%). As vagas de ouro não são, obviamente, um privilégio de São Paulo. Dados da empresa Colliers International, que presta consultoria para o setor imobiliário, mostram que uma diária (doze horas) em Londres custa o equivalente a 105 reais; em Tóquio, a 97 reais; e, em Nova York, a 81 reais. “Em qualquer centro urbano, a procura por vagas em estacionamentos será sempre maior que a oferta”, afirma Pedro Donda. 

Fernando Moraes
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A consultora de recursos humanos Ana Christina Almeida afirma gastar 930 reais todos os meses para estacionar seu Ford Ka. “No prédio onde moro, no Itaim, não há espaço para carros, e eu não tenho direito a vaga no trabalho”, conta ela, que dá expediente na Avenida Faria Lima (Foto: Fernando Moraes)
A consultora de recursos humanos Ana Christina Almeida afirma gastar 930 reais todos os meses para estacionar seu Ford Ka. “No prédio onde moro, no Itaim, não há espaço para carros, e eu não tenho direito a vaga no trabalho”, conta ela, que dá expediente na Avenida Faria Lima

A vida dos paulistanos que penam para guardar seu carro se complicou ainda mais no ano passado, quando foram extintas mais de 6 200 vagas ao longo de vias dos Jardins, Itaim, Brooklin e Vila Olímpia. Isso trouxe um efeito positivo para o trânsito dessas regiões. A prefeitura ampliou ainda em 3 500 o número de vagas controladas pelo sistema de Zona Azul — hoje são 34 700. O preço de cada folhinha, que em geral permite ao motorista deixar o veículo na rua por uma hora, passou de 1,80 para 3 reais. Atualmente, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) busca parceiros na iniciativa privada para aumentar o número de estacionamentos da capital. O projeto prevê a construção de 64 edifícios-garagem, cada um deles com capacidade para 400 carros, ao lado de estações de trem e metrô ou terminais de ônibus. Se sair do papel, a cidade ganhará 25 000 novas vagas. Em 2008, a Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado pôs em prática um projeto interessante. Ao lado de quatro estações de metrô (Marechal Deodoro, Bresser- Mooca, Santos-Imigrantes e Corinthians- Itaquera) foram construídos estacionamentos com capacidade para cerca de 200 automóveis cada um. Deixar o carro em um deles por um período de doze horas custa de 7 a 11 reais, valor bem abaixo do que normalmente é cobrado. A previsão é que, até o fim do ano, mais seis garagens do tipo sejam inauguradas.

RUAS*

Rua Augusta (Cerqueira César) de 10 a 14 reais (a primeira hora); de 18 a 25 reais (doze horas)

Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini (Brooklin) de 8 a 10 reais (a primeira hora); de 20 a 30 reais (doze horas)

Avenida Paulista de 8 a 10 reais (a primeira hora); de 20 a 30 reais (doze horas)

Rua Barão de Duprat (centro) de 6 a 19 reais (a primeira hora); de 15 a 68 reais (doze horas)

Alameda Santos (Cerqueira César) de 6 a 15 reais (a primeira hora); de 18 a 45 reais (doze horas)

BARES E BALADAS*

Pink Elephant (Itaim Bibi) 25 reais

Mokaï (Jardim Paulista) 25 reais

Museum (Brooklin) 25 reais

The Blue Bar (Itaim Bibi) 25 reais

Royal (centro) 20 reais

RESTAURANTES*

Leopolldo Faria Lima (Jardim Paulistano) 18 reais

Almanara (Jardim Paulista) 16 reais

Skye (Jardim Paulista) 16 reais

Fasano (Jardim Paulista) 15 reais

Terraço Itália (centro) 15 reais

HOSPITAIS**

Albert Einstein (Morumbi) 10 reais

Sírio-Libanês (Bela Vista) 10 reais

Nove de Julho (Cerqueira César) 10 reais

HCor (Paraíso) 9 reais

São Luiz (Morumbi) 9 reais

SHOPPINGS***

Vila Olímpia (Vila Olímpia) 13 reais

Iguatemi (Jardim Paulistano) 11 reais

Pátio Higienópolis (Higienópolis) 11 reais

Bourbon Pompeia (Pompeia) 10 reais

Villa-Lobos (Pinheiros) 10 reais

* Com serviço de manobrista / ** Preços referentes à primeira hora / *** Preços referentes a quatro horas

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO