Serviço

Sobra gente, mas falta espaço

Em alguns restaurantes, bares, teatros, cinemas e casas de show os clientes precisam treinar as habilidades de contorcionista

Por: Giovana Romani*

Acrópoles
Acrópoles: o espaço, com 72 lugares, ficou pequeno para a fama conquistada (Foto: Mario Rodrigues)

Contorcionismo depois do mussaká

Localizado no Bom Retiro, o grego Acrópoles ocupa o mesmo endereço desde a sua abertura, em 1959. O espaço, com 72 lugares, ficou pequeno para a fama conquistada. Pequeno mesmo. A distância média de 49 centímetros entre as mesas compromete a circulação. A agravante é que os clientes precisam escolher seus pratos na cozinha e atravessar o salão para pagar a conta direto no caixa. “Precisamos ampliar, mas não há imóveis vizinhos disponíveis”, diz Niqui Petrakis, filha do proprietário. Quando o movimento aumenta, o jeito é improvisar mesas na calçada. Outro ponto negativo: o teto de parte do ambiente é rebaixado, o que piora a sensação de desconforto.

A vida no sufoco - Le Jazz Brasserie - 2218
Le Jazz Brasserie: devido à extrema proximidade das mesas a privacidade é zero (Foto: Fernando Moraes)

Discutir a relação? Nem pensar!

Sucesso desde a inauguração, um ano e meio atrás, o Le Jazz Brasserie, em Pinheiros, vive cheio. Seu salão de 60 metros quadrados tem quarenta lugares — há outros doze do lado de fora, na calçada recuada. A inspiração, claro, vem dos bistrôs parisienses, como o pequenino Le Comptoir du Relais, em Saint-Germain. Devido à extrema proximidade das mesas, sobretudo as localizadas perto da parede, a privacidade é zero. “Aqui não é lugar para terminar namoro”, brinca o proprietário Gil Carvalhosa Leite. “Os frequentadores sabem o que vão encontrar e acabam entrando no clima.”

A vida no sufoco - Mocotó - 2218
Mocotó: os clientes aglomeram-se no bar, que fica com um jeitão de metrô na hora do rush (Foto: Fernando Moraes)

A hora do rush na espera

Em um sábado, o brasileiro Mocotó, na Vila Medeiros, recebe em média 1.000 pessoas. Não há área exclusiva para a espera, que pode chegar a três horas. Os clientes, então, aglomeram-se feito sardinhas no bar, que fica com um jeitão de metrô na hora do rush. Drama superável para quem aproveita para abrir o apetite com as caipirinhas de primeira servidas ali. Ao longo das últimas três décadas, o restaurante cresceu: começou com vinte lugares, passou para sessenta e chegou a 100. “É o nosso limite”, afirma o chef Rodrigo Oliveira. “Se ocupássemos também o andar de cima com mesas, não poderíamos oferecer a mesma qualidade de atendimento.”

A vida no sufoco - Arturito - 2218
Arturito: quando todos os quinze assentos da área de espera ficam ocupados, as portas da casa são fechadas (Foto: Mario Rodrigues)

Fino, literalmente

O Arturito, da premiada chef argentina Paola Carosella, lota noite sim e outra também. Ela garante que, quando todos os quinze assentos da área de espera ficam ocupados, as portas da casa são fechadas. “Algumas pessoas se irritam, mas não quero ninguém em pé”, diz. Com projeto arquitetônico elegante assinado por Claudinei da Cunha, o salão de 180 metros quadrados tem capacidade para setenta pessoas. Perdeu dez lugares no fim do ano passado, pois Paola resolveu tirar algumas mesas para melhorar a circulação e aumentar a privacidade dos clientes. Ainda assim, a distância entre elas varia de 53 a 70 centímetros.

A vida no sufoco - Teatro Faap - 2218
Teatro Faap: a cena mais vista era a de joelhos colados nas costas das poltronas da frente (Foto: Fernando Moraes)

Em cartaz, unidos venceremos

Na sexta (13), um público animado lotou o Teatro Faap, no Pacaembu. Por lá, antes do espetáculo, a cena mais vista era a de joelhos colados nas costas das poltronas da frente. Munida de uma trena, a reportagem de VEJA SÃO PAULO tirou a prova dos nove: mediu 66 centímetros entre as fileiras. O espaço ocupado pelas pernas, de 28 centímetros, é 14 centímetros menor do que o aferido no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. Inaugurado em 1976, o Faap foi reformado há quatro anos, quando ganhou novo mobiliário e um mezanino, que ampliou de 406 para 500 o número de lugares .

A vida no sufoco - HSBC Brasil - 2218
HSBC Brasil: parte dos espectadores precisa se contorcer para apanhar sua bebida (Foto: Patrícia Cecatti)

Entre tietes-cantores e fotógrafos amadores

No HSBC Brasil, há mesas de 1 metro de comprimento com três cadeiras de 40 centímetros de cada lado. Resultado: parte dos espectadores precisa se contorcer para apanhar sua bebida ou beliscar uma porção de batatas fritas antes do show. A maior saia justa, porém, ocorre quando começa a competição entre os clientes para afastar o encosto de suas cadeiras para conseguir um pouco mais de conforto e, de quebra, observar o palco de um ângulo melhor. Pior, só se um vizinho de mesa resolver cantar em alto e bom som no seu ouvido. Ou bancar o fotógrafo durante a apresentação inteirinha (assim como a turma da imagem acima, com suas câmeras e celulares ao alto para clicar a performance da banda inglesa de rock progressivo Yes, em novembro passado).

A vida no sufoco - cinema - 2218
Solange Libman, da Fábrica Arquitetura: “Há um novo padrão de qualidade dentro das salas de cinema” (Foto: Fernando Moraes)

Roteiro-padrão

A distância aceitável entre fileiras de auditórios varia de 80 centímetros a 1 metro. Apenas três dos quinze cinemas aferidos pela reportagem de VEJA SÃO PAULO ficaram pouco abaixo dessa média — mas tão pouco que nem sequer podem ser considerados apertados. “Há um novo padrão de qualidade dentro das salas”, afirma Solange Libman, da Fábrica Arquitetura, do Rio de Janeiro, responsável pelos projetos do Espaço Unibanco e do Unibanco Arteplex. “A visibilidade ficou melhor por causa da plateia inclinada, e as poltronas estão mais confortáveis.” Se o corredor de 78,5 centímetros entre as fileiras da sala Imax, no Shopping Bourbon, não é dos maiores, a tela gigante e a acústica impecável fazem o ingresso valer cada centavo.

*Colaboraram Carolina Giovanelli, Clara Nobre de Camargo, Dirceu Alves Jr., Isabella Villalba, Marcelo Ventura, Meriane Morselli, Miguel Barbieri Jr., Nathalia Zaccaro e Pedro Ivo Dubra

Fonte: VEJA SÃO PAULO