Crônica

Esquerda e direita

Por: Ivan Angelo

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(Foto: Veja São Paulo)

Um dos meus irmãos era canhoto. Apanhou para escrever com a mão direita — assim lidavam com o “problema” naqueles anos de 40 — e hoje nem é destro nem esquerdo, ou é um pouco cada coisa, letra garranchosa. Meu pai era um bom sujeito, cuidava com rigor da casa e dos filhos, mas não alcançava certas coisas. Herdara a noção ancestral de que canhoto é um jeito errado de ser, à qual ajuntara a noção do seu tempo de que os esquerdos têm menos oportunidades na vida, e queria eliminar essa desvantagem. Nem ganhou nem perdeu a batalha.

É provável que essa intervenção tenha embotado alguma espontaneidade e habilidade no menino. Já não se nota a discriminação contra os canhotos. O antigo “defeito” é visto como diferença, conceito que não causa desconforto e acomoda os 10% da população mundial que fazem quase tudo com a mão esquerda. Quase, porque as maçanetas das portas embirram com os canhotos; a chave de ignição, o câmbio, o som e as portas dos carros só aceitam a mão direita; as páginas dos livros, dos jornais, das revistas pedem a mão direita; o abridor de latas humilha o canhoto; o aperto de mãos com a esquerda é impensável. Crianças há que invejam a habilidade canhota em colegas.

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Conta-me uma companheira da academia que sua filhinha se queixou, chorosa, de que não conseguia escrever “com a outra mão”, como uma colega da classe; meninos veem charme no jeito de escrever da bonitinha canhota. O que faz uma pessoa ser canhota? Um vizinho de prédio, canhoto, diz que a mãe e a tia também são, a avó era. Empatia, imitação? Há quem diga que sim. É hereditário? Na Universidade de Oxford descobriram genes aparentemente com essa função. Existem diferenças estatísticas entre raças, continentes, latitudes? Nada significativo, mas o número de mulheres é menor. Quando se manifesta? Cientistas constataram que a lateralidade pode ser observada no útero.

O lado influi na inteligência? Segundo pesquisas, canhotos se saem melhorem testes de QI. E então? Pode não ter nada a ver, mas oito dos 44 presidentes dos Estados Unidos estão na lista de canhotos, incluindo os recentes Reagan, Clinton, Bush e Obama, índice muito acima dos 10%. Escolho na lista meus preferidos, por atividade, de três em três. Entre os maiores da pintura de todos os tempos: Leonardo da Vinci, Michelangelo e Picasso. Criadores de grandes impérios: Ramsés II, Alexandre e Napoleão. Maiores guitarristas do rock: Jimi Hendrix, Tony Iommi e Kurt Cobain. Três das mais lindas: Scarlett Johansson, Angelina Jolie e Thaís Araújo. Gênios da literatura: Goethe, Kafka e Machado de Assis. Da música: Mozart, Beethoven e Schumann. Trinca de monstros da canção: Bob Dylan, Paul McCartney e David Bowie. Paro aqui.Talvez para compensar a discriminação milenar ou para chamar atenção para as dificuldades de uma minoria no mundo da maioria, foi criado em 1976 o Dia Internacional dos Canhotos,13 de agosto.

Começou nos Estados Unidos; os ingleses deram a maior força, talvez por serem canhotas suas duas últimas rainhas, Vitória e Elizabeth II, e a data vai-se espalhando. Não é motivo para feriado, mas meu vizinho sugere quepoderia haver pequenas comemorações isoladas, quase gentilezas. Nos teatros: hoje, canhoto sentado nas poltronas da esquerda não paga; nos programas de auditório: uma dança dos famosos canhotos; nas casas noturnas mais doidonas: canhotos podem fazer xixi no toalete feminino e vice-versa; nos pubs: acerte uma seta na mosca do tiro ao alvo com a mão esquerda e ganhe um drinque... Faço a minha parte com esta crônica.

E-mail: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO