Crônica

Esquecido no banco

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Esquecido no banco - Crônica
Crônica: Ivan Angelo (Foto: Divulgação)

Ocasal bem idoso chegou ao banco cuidando amorosamente um do outro; ela atenta à dificuldade de andar dele, ajudando-o, ralentando o próprio passo; ele atento à bolsa dela, que agarrava pelas alças junto com a mão da mulher.

O atendimento aos prioritários ficava numa divisória separada dos populosos guichês dos clientes nada especiais, que não se distinguem pela nobreza financeira, pela idade acima de 60, por alguma deficiência ou por gravidez. Ali ao lado se alinhavam seis cadeiras, em fileiras de três, destinadas a dar algum conforto à espera dos preferenciais. A velha senhora dirigiu-se às cadeiras, levando pela mão que segurava a bolsa o velhinho a ela agarrado. Escolheu a ponta da fileira de trás, dizendo para si ou para ele, talvez para os dois:

— Aqui você não atrapalha ninguém, não vão esbarrar em você. Mostrava-se mais esperta do que ele, e era quem tomava as iniciativas. Ajudou-o a sentar-se, baixando-o e ao mesmo tempo amparando-o, movimento que exigia habilidade e decisão. Miudinha, magra, de óculos e enérgica.

— Pode largar minha bolsa agora, Gustavo. Ele parecia não ter entendido ainda que a situação havia mudado, estavam seguros ali. Continuava agarrado à mão e à bolsa.

— Gustavo, larga a minha bolsa. Está tudo bem. Ajudou-o a livrar a mão, abrindo-lhe os dedos, enquanto lhe dizia com firmeza:

— Não se levante daqui em hipótese alguma. Entendeu, Gustavo? Em hipótese alguma.

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Foi para a fila, onde esperavam atendimento um senhor e três senhoras, sem contar o que já estava no caixa. Poderia ter esperado sentada, mas gostava de um papinho de fila, havia sempre uma novidade, um detalhe inesperado, uma informação valiosa, como a nova casa de bolos no bairro, ou o efeito milagroso da hidroginástica nas articulações de alguém. Fila de idosos não anda muito depressa, é quase distração social, e ela foi animando a vida com as novidades. Nem sentiu a longa espera. Quando chegou sua vez, pagou contas, retirou dinheiro, transferiu, juntou papéis, grampeou comprovantes, reclamando que os caixas não fizessem mais isso, e foi para casa.

Quando a agência bancária cerrou as portas ainda havia filas.O segurança, solícito, perguntou ao idoso sentado sozinho  na cadeira:

— O senhor já foi atendido?

— Está tudo bem, obrigado. Estou esperando minha esposa.

As filas escoaram-se.

— Senhor, o banco vai fechar.

— Ela disse para eu esperar aqui.

— Não tem mais cliente nenhumna agência. Qual é o nomeda sua esposa?

— Elvira. Não se preocupe, ela já vem me buscar.

— Está bem, senhor, com licença.

O segurança foi comunicar o caso à gerente, já o chamando de ocorrência. Formou-se lá um pequeno conclave entremeado de cochichos e sobe e desce de sobrancelhas. O segurança se lembrava de que ele havia chegado com uma senhora. Convocaram o caixa do atendimento preferencial e pediram a ele que localizasse os papéis da movimentação da cliente dona Elvira, para saber o telefone dela. “Não é mais fácil perguntar ao homem?”, questionou o caixa. Não queriam alarmá-lo, fariam isso se não houvesse outro jeito. Vai lá, vem cá, busca nos boletos, papelada, pronto, eis o nome, puxam o cadastro, o endereço, morava perto, o telefone, cuidadosos no falar, controlam o desespero culpado de dona Elvira, as explicações, ela pensava que ele estivesse no quarto cochilando, oh, meu Deus, como pude fazer uma coisa dessas, acalmam-na, ele estava quietinho, não havia percebido nada, que ela se acalmasse, viesse calma, como se nada tivesse acontecido, o segurança ia esperá-la na porta.

Depois de dez minutos, ela chegou trêmula, olhou-o, controlou-se, agradeceu a todos e dirigiu-se firme até ele.

— Podemos ir agora, Gustavo. Você está bem?

— Um pouquinho de fome.

— Vem, vou te dar seu lanche.

O segurança abriu a porta para o casal, atencioso, inclinando-se em boa noite. O velho senhor levantou o dedinho para o guarda:

— Não falei que ela vinha? Elvira não falha.

 

email: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO