Entrevista

“Comprar apartamento com dinheiro do teatro é uma benção”

Ernesto Piccolo conta como é tocar ao mesmo tempo o sucesso “Galinha Pintadinha, o Musical” e outros sete textos teatrais

Por: Bruno Cesar Dias - Atualizado em

Ernesto Piccolo Galinha Pintadinha
Nova trupe: o diretor e o elenco da montagem paulistana (Foto: Divulgação)

O universo do teatro infantil não é nenhuma novidade para Ernesto Piccolo, de 49 anos. Desde os doze ele “brinca de contar histórias”, maneira como gosta de falar sobre seu ofício. Mas dessa vez é diferente. "São 38 anos de trabalho e eu nunca tive espectadores tão atentos como os bebês de quatro, cinco meses de idade." Essa plateia é hipnotizada pelas músicas e cores de “Galinha Pintadinha, o Musical”, em cartaz no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado.

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Uma temporada de sete meses no Rio de Janeiro e a estreia, com ingressos esgotados, na cidade atestam o sucesso da personagem criada pelos publicitários Juliano Prado e Marcos Luporini em 2006 e que hoje conta com vasto arsenal de produtos - bichos de pelúcia, jogos, livros de atividades e apps para celular, além de DVDs e CDs.

Conhecido no meio teatral por ser workaholic, Piccolo se divide em diversas frentes. Em São Paulo, acabou de encerrar a comédia dramática “Se você me der a mão”, com a atriz Tássia Camargo. No Rio de Janeiro, segue com as temporadas de “Doidas e Santas”, com Cissa Guimarães, e de “Seis Aulas de Dança em Seis Semanas”, com Sueli Franco e Tuca Andrada. Engatilhadas estão outras quatro montagens: “Na Sobremesa da Vida”, texto com as memórias do ator Emiliano Queiróz; “Homens, Santos e Desertores”, de Mario Bortolloto; “Bonifácio Bilhões”, de João Bethencourt, e “História de Nós Dois”, espetáculo de Lícia Manzo no qual voltará como ator, em setembro.

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De quebra, participa da ONG Palco Social, faz assistência de direção para o cineasta Eduardo Coutinho e coordenará o encontro circense “Tangolomango”, em Córdoba, na Argentina, ainda em agosto. A agenda de tirar o fôlego é vista como um sonho realizado por Piccolo, que vive unicamente de teatro há dez anos e conseguiu dar entrada na compra de seu apartamento na Gávea no início do ano. “Eu estou com peças de sucesso, tenho dado uma sorte danada, mas a receita da ‘Galinha’ é a maior de todas na minha carreira.”

VEJA SÃO PAULO – Como você consegue conciliar uma agenda com tantos espetáculos e atividades?

Ernesto Piccolo – Viver de teatro é um sonho de criança. A primeira peça que me deu um pouco de dinheiro foi a “Mais Uma Vez Amor” (de 2002), com Luana Piovanni e Marcos Palmeira. Depois veio “Alice”, com a Luana novamente, que ficou longas temporadas em cartaz e, na sequência, “Divã” (2006). Desde então, tenho tocado no mínimo três montagens simultaneamente. Em dez dias, me chamaram para fazer quinze novos textos, e isso é maravilhoso. Gosto muito do que faço, tenho muito prazer em ensaiar, em conviver com os atores e pesquisar as maneiras de contar uma história.

VEJA SÃO PAULO – Como é o seu método de trabalho?

Ernesto Piccolo – Eu não faço televisão há bastante tempo e como reduzi minhas participações como ator, meu tempo é todo dedicado à direção. Dividi minha vida por turnos. Das 10h às 14h eu ensaio uma peça e das 15h às 18h, outra. Retomo às 21h e vou até a 1h. Tento fazer com que as estreias não sejam nas mesmas semanas.

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VEJA SÃO PAULO – E como organizar tantos textos na cabeça?

Ernesto Piccolo – São brinquedos diferentes, com elencos e histórias bem distintas. Sempre encaro como uma brincadeira. Vou para o ensaio e penso ‘Agora é hora de brincar de mãe e filha’, ‘Agora é a vez de ser um velho ator’, e assim vai. Vejo como um jogo, no qual a coxia, o encontro com os atores tem de ser muito prazeroso para valer a pena. E sou rápido. Em uma semana, dez dias no máximo, levanto o espetáculo para equipe técnica e elenco verem qual o tom. Monto esse borrão até para eles começarem a fazer a parte deles. Depois, vou lapidando.

VEJA SÃO PAULO – Como foi o processo de montagem de “Galinha Pintadinha, o Musical”?

Ernesto Piccolo – A [gravadora] Som Livre me ligou para fazer o convite e fiquei bem surpreso. Eu já sabia do que se tratava porque via meus sobrinhos, sem se mexer, assistindo ao DVD. Quando comecei a estruturar a montagem, pensei no que faria para contar essa história e manter essa mesma atenção em frente aos palcos. Conversamos com os autores e tivemos a ideia de montar no teatro um grande videoclipe, que começa com o mote da uma mãe doida atrás do autógrafo da galinha, entremeando com os números musicais.

VEJA SÃO PAULO – E o que mais chamou a atenção durante esse processo?

Ernesto Piccolo – São 38 anos de trabalho e eu nunca tive espectadores tão atentos como os bebês de quatro, cinco meses de idade. É curioso ver como eles ficam paradinhos, ouvindo a música e acompanhando tudo que se passa no palco, e os pais babando ao vê-los entretidos. Realmente agradeço aos deuses essa possibilidade de formação de público, que começa a criar esse gosto pelo teatro desde criança. Com certeza amanhã teremos uma bela e renovada plateia.

Fonte: VEJA SÃO PAULO