CINEMA

Da aldeia para a tela, Wiranu Tembé é a nova Tainá

A menina paraense de cinco anos nunca havia visto um filme. Selecionada para a continuação de ‘Tainá’, aprendeu português, mas não abandonou o arco-e-flecha de estimação

Por: Tiago Faria - Atualizado em

Tainá - A Origem
Wiranu: estrela de cinema em paz com a vida na tribo (Foto: Divulgação)

A história da atriz principal de Tainá – A Origem, Wiranu Tembé, 8 anos, renderia um roteiro cinematográfico cheio de aventuras, com um enredo ainda mais surpreendente que o do próprio filme.

Essa trama começaria na cidade indígena Tekohaw, no Pará, e terminaria nas telas de cinema. Descoberta entre 2,2 mil meninas de toda a região amazônica, Wiranu deixou por um tempo a sua rotina na aldeia para interpretar a indiazinha guerreira. Levou consigo seu brinquedo preferido: um arco-e-flecha.

Nos dois longas anteriores da cinessérie, a personagem foi vivida por Eunice Baia, hoje com 20 anos. Desta vez, o roteiro narra as origens da heroína mirim, que defende a floresta de um inimigo de sua família: Jurupari, a encarnação do mal.

A equipe que produziu o filme, rodado na região amazônica, estava à procura de uma atriz de 8 anos. Wiranu tinha cinco quando foi encontrada, nos Jogos Indígenas de 2009, organizados na cidade paraense de Paragominas, a cerca de 300 quilômetros da capital, Belém.

Em meio ao encontro de tribos, o diretor de elenco Claudio Barros atentou para uma criança pequenina, de fisionomia muito parecida com a de Eunice. Aos poucos, a equipe se encantou por Wiranu, que passou a participar da preparação para o papel. Nascida em uma aldeia ainda sem energia elétrica, ela nunca tinha visto TV. Cinema? Não sabia do que se tratava.

Wiranu Tembé e Eunice Baia: compare as duas Tainás
Wiranu Tembé e Eunice Baia: compare as duas Tainás (Foto: Divulgação)

A menina, que sabia remar e subir em árvores com destreza de gente grande, conquistou os profissionais do longa de tal forma que o roteiro foi reescrito para se adequar a uma personagem mais jovem. Deu certo. Na tela, Wiranu convence na pele de uma personagem tão corajosa quanto inocente. Mas ainda acha um pouco estranho quando se vê na tela, mais nova. “É muito esquisito”, ela diz.

A seguir, leia entrevistas com Claudio Barros, o diretor de elenco que descobriu a atriz, e com Wiranu, que aprendeu as primeiras palavras em português enquanto participava do treinamento para o longa. Antes, ela só falava tupi.

Tainá - A Origem
Wiranu no set de 'Tainá - A Origem' (Foto: Divulgação)

TRÊS PERGUNTAS PARA WIRANU TEMBÉ

VEJA SÃO PAULO: Como era a sua vida na aldeia antes do filme?

WIRANU TEMBÉ: Era muito legal. Eu acordava, tomava banho de rio, andava de bicicleta, ia pra escola, ajudava o papai a plantar mandioca, brincava com o meu macaco de estimação.

Você nunca tinha visto filmes?

Nunca. Este foi o primeiro, mostraram para mim na televisão. Foi bem legal fazer o filme. Nos treinamentos, eu brincava muito. Foi bacana aprender palavras em português. As minhas cenas preferidas são as do balão e as de cantar música.

Depois dessa experiência, você faria mais filmes?

Tenho vontade de fazer mais filmes. E quero ver muitos outros no cinema. Mas, antes, quero estudar.

Wuiranu Tembé e o diretor de elenco de 'Tainá - A Origem' Claudio Barros
Wuiranu Tembé e o diretor de elenco de 'Tainá - A Origem' Claudio Barros (Foto: Divulgação)

TRÊS PERGUNTAS PARA CLAUDIO BARROS

VEJA SÃO PAULO: Que característica de Wiranu mais chamou a sua atenção?

CLAUDIO BARROS: Fiz a seleção e a preparação de elenco nos dois outros filmes da série Tainá. O importante era encontrar uma criança que tivesse semelhança física com Eunice (atriz dos filmes anteriores) e que mantivesse a magia da personagem. Foi um processo difícil. Ela não tinha a idade que procurávamos. Queríamos uma menina de 8 anos e ela tinha 5. Mas, no decorrer do treinamento, ela foi surpreendendo a nossa equipe. Ao contrário das outras crianças, ela não conhecia os filmes da série, não tinha muito expectativa nem ansiedade no olhar. Ela veio de uma aldeia sem luz, sem TV. Nunca tinha visto um filme. Tinha um olhar puro, e isso nos impressionou.

A fase de treinamento para o papel foi complicada?

Não foi. A cada minuto, ela descobria uma coisa nova e tinha um domínio sobre o universo da floresta. Com cinco anos de idade, subia em árvores com rapidez, nadava muito bem, remava, não tinha problema de se aproximar dos animais, nenhum tipo de resistência a jogos e brincadeiras. Começou, rapidamente, a colocar várias outras crianças no bolso. Quando a diretora a conheceu, ficou tão impressionada que pediu para o roteiro ser reescrito a fim de se adaptar à idade dela. A Wiranu era a Tainá.

As experiências de Wiranu inspiraram o roteiro?

Ela trouxe vários elementos ao texto. Até a maquiagem que a personagem usa, que é um risquinho no rosto e uma peninha, é da etnia dela. Quando as crianças se afastam da aldeia, ela passa a usar a peninha e o risco como proteção contra maus espíritos. Durante o treinamento, pedimos para que as crianças levassem o brinquedo de que mais gostavam. Algumas levaram bonecas e ursinhos, mas a Wiranu levou um arco-e-flecha. Esse arco-e-flecha é o que ela usa no filme.

Fonte: VEJA SÃO PAULO