Música

Entrevista: Jason Pierce, do Spiritualized

Líder e força criativa da banda inglesa, que na quinta (28) toca pela primeira vez na cidade, fala sobre envelhecimento, música gospel e transcendência

Por: Luan Flavio Freires - Atualizado em

Spiritualized
Jason Pierce, do Spiritualized: primeira passagem pelo Brasil (Foto: Divulgação)

Foram tantos os rumores que circundaram a vinda do Spiritualized ao Brasil que muitos já haviam desistido de esperar. O último deles foi em 2013, quando a banda tocou em um festival do Chile, mas, acabou não vindo para cá. Depois de 24 anos de estrada, enfim, a banda aterrissa no país para tocar no Audio Club nesta quinta (28).

 

A banda surgiu das cinzas do Spacemen 3, projeto do talentoso Jason Pierce que durou de 1982 até 1990, e foi responsável pelo lançamento de alguns dos discos mais excepcionais da década de 90. Bebendo de referências da música gospel e com o lema “usar drogas para fazer música para usar drogas”, o conjunto lançou sete trabalhos estupendos, entre eles os clássicos Lazed Guided Melodies (1992) e Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space (1997).

O mais recente é o não menos celebrado Sweet Heart Sweet Light (2012), praticamente uma unanimidade entre a crítica. O registro foi feito enquanto Pierce, força criativa do conjunto e único membro restante da formação original, tratava uma doença degenerativa do fígado resultante dos anos de excessos.

Já recuperado, ele traz à cidade o show Acoustic Mainlines, no qual é acompanhado por um coral gospel, um quarteto de cordas e pelo músico Doggen, que toca piano elétrico na ocasião. Conversamos com ele sobre a demora em nos visitar, as expectativas para o show, drogas, música e transcendência.  

É a primeira vez do Spiritualized no Brasil em mais de duas décadas de existência. Como se sente?

Sim, demorou muito, muito tempo. Estamos empolgados. Acho que a ficha só vai cair quando eu desembarcar do avião. Por acaso, quando eu estava na Argentina há uns anos encontrei duas chilenas no bar perto do lugar onde estava hospedado. Achei que era piada, mas elas conseguiram acertar para que a banda tocasse em Santiago no ano passado. Dali surgiram conversas e neste ano enfim vamos visitar o Brasil. Espero que a porta nunca se feche de novo e que esse seja o primeiro de muitos shows que faremos aí.

O que esperar de Acoustic Mainlines, show que a banda vai apresentar na cidade?

Esse show surgiu quase que por acidente. Eu havia acabado de sair do hospital e não tinha a menor confiança em mim mesmo, pensava que nunca subiria em um palco de novo. Alguém me sugeriu que eu fizesse apresentações acústicas. Chamei outros músicos e o coral para me apoiar e me dar alguma segurança. Não acho que seja um show literalmente acústico. Conforme o espetáculo se desenvolve, ele vai se tornando mais elétrico. O coral gospel lembra o de uma igreja protestante norte-americana, sim, mas o de uma igreja estranha, onde eles manuseiam cobras e falam em línguas esquisitas. Há uma energia estranha no ar.

O lema do Spacemen 3 era “usar drogas para fazer música para usar drogas”. Hoje, qual a sua opinião sobre o efeito das drogas no processo de composição?

Eu não sei uma resposta para isso. Não acho que se você usa drogas, necessariamente irá compor grandes canções. Eu sempre fui um grande fã de música psicodélica e, para mim, a melhor do gênero é Slipin’ and Slidin’, do Buddy Holly, e certamente ele não estava sob o efeito de LSD quando interpretou essa composição do Little Richard.

Você quase morreu. De que forma essa experiência mudou a maneira como você faz música?

[Risos] Eu gostaria de dizer que isso mudou muita coisa, mas não mudou. Eu ainda componho como eu sempre compus. Nunca me interessei pelo que faz sucesso no momento ou em ser bem-sucedido comercialmente e continuo assim. Na música, em particular, você precisa ser honesto com o que faz. Ainda sou a pessoa desapontadora que eu era antes de ficar doente e estou bastante feliz com isso.

O ultimo disco do Spiritualized, Sweet Heart Sweet Light (2012) foi feito enquanto você tratava de uma doença no fígado. Em algum momento você pensou que as duas coisas estivessem relacionadas: fazer um álbum e estar doente?

Sim. Fazer um disco é estar em um ambiente bem doentio. Não é apenas ir ao estúdio, gravar algumas músicas e lançá-las. Eu realmente me torno uma pessoa obsessiva quando estou nesse processo. O disco não é sobre a doença, ela apenas coincidiu com o registro dele, mas essa obsessão doentia não foi diferente da que tive quando gravava os outros trabalhos.

Você se considera um perfeccionista?

Me acho apenas obsessivo. Não enxergo os meus discos como “perfeitos”. Na verdade, os acho bem irregulares. Eu faço discos de rock, então eles nunca vão atingir a perfeição. Não é o caso de álbuns do Curtis Mayfield, por exemplo. Mas se você vai gastar tanto tempo gravando um CD, não deve parar até que ele esteja pronto.

Sweet Heart Sweet Light foi muito bem recebido pelos críticos, além de ter sido colocado entre os melhores trabalhos do Spiritualized. Ser relevante é algo que você leva a sério?

Sim. Não é algo que deva se tornar um objetivo, você apenas faz o que você faz. Isso deve ser recebido mais como um elogio, uma consequência, do que algo a ser buscado. Mas é satisfatório que as pessoas sintam algo bom quando escutam o que eu fiz.

Você vai completar 50 anos, certo?

Calma lá, calma lá… É verdade, sim [risos].

Você tem medo de ficar velho?

Não. O tempo está correndo para todo mundo. Você pode morrer, tipo, amanhã. A idade só tem a ver com sabedoria ou experiência, não sei ao certo.

A influência gospel e as imagens religiosas que você usa na sua música refletem algum tipo de fé ou são apenas referências artísticas?

Acho que isso é apenas uma forma preguiçosa de compor. Eu adoro a música gospel porque ela guarda a verdade. Eu não acredito... Eu não tenho uma religião. Mas quando as pessoas cantam sobre o amor que elas sentem por Deus, não há nada mais verdadeiro do que isso. É impossível estar diante de um coral gospel e não se sentir tremendamente comovido. Escrevi uma música quando era mais novo chamada Walkin’ With Jesus, que falava sobre mortalidade, sobre ser homem e estar neste planeta, sobre o que é ser humano. No fim, eu estava apenas roubando a crença de alguém para escrever.

Música é algo transcendental?

Sim, absolutamente. Acho que muita gente sabe desse poder que ela tem. É como se fosse uma máquina do tempo, que te leva para momentos-chave da sua vida. É um sentimento inexplicável.

Fonte: VEJA SÃO PAULO