Entrevista

"Assumo toda a responsabilidade pelo acidente”

Marcelo Gutglas, dono e fundador do Playcenter, fala com exclusividade a VEJA SP sobre o acidente ocorrido no dia 3 com o brinquedo Double Shock, que feriu oito

Por: Daniel Salles

Marcelo Gutglas - 2212
Marcelo Gutglas, fundador do parque: “Assumo toda a responsabilidade" (Foto: Cida Souza)

Veja São Paulo — Qual foi a sua reação ao saber do acidente?

Marcelo Gutglas — Fiquei transtornado e quero registrar que assumo toda a responsabilidade pelo que ocorreu. Dois acidentes em um período tão curto é inadmissível (seis meses atrás, um dos dois trenzinhos que se alternam na montanha-russa Looping Star não conseguiu frear e se chocou com o outro, ferindo 16 pessoas). Desde a nossa fundação, sempre zelamos pela segurança acima de tudo. Não irei descansar enquanto as causas desses episódios não forem esclarecidas.

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Veja São Paulo — Como é feita a manutenção dos brinquedos do parque? Marcelo Gutglas — Todos os dias, nossa equipe de manutenção, comandada por engenheiros eletrônicos, testa cada um dos brinquedos antes de liberá-los para os operadores. Realizamos ainda conferências mais detalhas semanalmente ou mensalmente, de acordo com a orientação do fabricante de cada equipamento. Além disso, a cada seis meses somos vistoriados por uma empresa especializada, formada por engenheiros credenciados no CREA. E a cada dois anos somos auditados por uma companhia de projeção internacional, que confere a segurança de nossos equipamentos e procedimentos. Como mesmo assim registramos esses dois lamentáveis acidentes é algo que me deixa inconformado.

Veja São Paulo — Alguma falha no Double Shock foi constatada no dia do acidente? Marcelo Gutglas — Às 14h40, um sensor do brinquedo apontou uma irregularidade e o operador chamou a equipe de manutenção, que foi até o local, mas não constatou nenhuma avaria. Sem visitantes, o equipamento girou três vezes e nada de errado foi verificado. É preciso dizer, no entanto, que isso não foi algo atípico. No mesmo domingo, um dia chuvoso, pelo menos outros sete brinquedos apresentaram pequenas falhas e foram liberados posteriormente por nossos técnicos. Acontece todo dia.

Veja São Paulo — Quanto ganha um operador de um brinquedo do Playcenter? Marcelo Gutglas — Cerca de 720 reais mensais. Todos os operadores passam por um rigoroso processo de treinamento interno.

Veja São Paulo — Como o senhor planeja convencer a todos de que o parque é seguro? Marcelo Gutglas — Estou contratando uma empresa de grande porte, reconhecida por todas as autoridades envolvidas no setor, para auditar a segurança de todos os nossos brinquedos. Só assim poderemos nos tranquilizar e a todos os visitantes. Se algum problema for apontado, iremos corrigi-lo. Também vamos reforçar os nossos treinamentos e evitar a superlotação. Teremos mais cuidado. E, claro, vamos dar todo o apoio necessário para a Polícia concluir sua investigação.

Veja São Paulo — O Playcenter chegou a registrar 2 milhões de visitantes nos anos 80, número que caiu para 1,5 milhão nos últimos anos. A que se deve essa queda? Marcelo Gutglas — Realizamos um estudo e concluímos que poderíamos dar melhor atenção e propiciar experiências melhores para 1,5 milhão de visitantes. Por isso, em 2004 desistimos de alugar três ruas da prefeitura e outros dois terrenos. Nossa área diminuiu de 100.000 metros quadrados para 85.000, o que exigiu uma reconfiguração dos brinquedos. Só precisamos desistir da Montanha Encantada, que foi repassada para o Beto Carreio World, em 2005. Nosso objetivo empresarial também mudou: deixamos de querer ter o maior parque para ter o melhor e mais aconchegante da capital, no qual os paulistanos queiram trazer suas famílias. Não nos queixamos do número atual de visitantes. Aliás, o parque nunca foi deficitário.

Veja São Paulo — O que foi feito para atrair novos frequentadores nos últimos anos? Marcelo Gutglas — Estamos convencidos de que as famílias devem ser nosso público alvo. Por isso, readequamos toda a infraestrutura do parque, na tentativa de garantir mais conforto para elas. A diferença em relação há dez anos é inquestionável. Reformamos os banheiros e a praça de alimentação e trocamos a sinalização. Inauguramos uma nova área infantil e, em 2003, compramos o Waimea, nosso último grande brinquedo.

Veja São Paulo — A história do parque foi marcada por atrações memoráveis, como a exposição do boneco do filme King Kong, em 1977, e o show do golfinho Flipper, astro da famosa série americana de mesmo nome, em 1983. O período áureo já passou? Marcelo Gutglas — Essa é uma impressão restrita aos saudosistas, pessoas que frequentaram o parque quando crianças e hoje são adultas. Por muitos anos, o Playcenter foi a principal alternativa de lazer dos paulistanos. Não concorríamos nem mesmo com Shoppings Centers. Mas o cenário mudou nos últimos anos. Não poderíamos continuar apostando nas mesmas fichas que nos trouxeram sucesso no passado. A maior parte de nosso público atual não viu o King Kong, mas mesmo assim adora o parque.

Veja São Paulo — Não faltou investir em novos brinquedos? Marcelo Gutglas — Importar grandes brinquedos rotineiramente é quase inviável. Até os anos 80, para cada dólar importado era preciso pagar 60 centavos de dólar de impostos. Era uma beleza. Hoje, de cada dólar importado, cobra-se 1,4 dólar, mais que o dobro. Para o segundo semestre, no entanto, está prevista a chegada de um novo brinquedo. Mas só posso adiantar que ele custou 4 milhões de reais.

Veja São Paulo — Uma curiosidade: foi ideia sua convidar o popstar Michael Jackson para uma visita exclusiva ao Playcenter em 1993? Marcelo Gutglas — Quem nos procurou foi a então empresária da Xuxa, Marlene Mattos, que agenciava o cantor no Brasil. Ela me ligou e disse que o Michael queria conhecer o parque. Mas ele exigia que o Playcenter fosse fechado só para ele e que nenhuma divulgação fosse feita. Concordei, mas agendei a visita para um horário em que normalmente já estaríamos fechados. Em seguida, telefonei para a redação do "Jornal Nacional", da Rede Globo. “Tenho um furo para vocês: o Michael Jackson virá ao Playcenter”, avisei. “Vocês podem fazer a cobertura, mas ninguém pode perceber e o nome do parque precisa ser citado na reportagem”. O cantor veio com dois meninos e andou em todos os brinquedos. A repercussão foi incrível. Até um amigo meu que estava em Moscou me ligou para comentar a visita do astro, pois a CNN a havia noticiado.

Fonte: VEJA SÃO PAULO