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Leia a entrevista com o artista chinês Cai Guo-Qiang

O responsável pelas cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, traz suas impressionantes obras para o CCBB e o Prédio Histórico dos Correios

Por: Livia Deodato - Atualizado em

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O artista chinês Cai Guo-Qiang mora há 17 anos em Nova York, mas ainda assim pouco fala e mal entende inglês. “Ele meio que se acomodou com a nossa ajuda na tradução simultânea”, diz, entre risos, uma de suas assistentes chinesas, que veio ao Brasil acompanhá-lo nas montagens de sua exposição Da Vincis do Povo, que já passou por Brasília e chega a São Paulo, antes de seguir viagem para o Rio de Janeiro.

Até o dia 23 de junho, trabalhos inéditos feitos com pólvora, além de robôs, um porta-aviões e outras obras similares e igualmente impressionantes tomam conta do Centro Cultural Banco do Brasil e do Prédio Histórico dos Correios.

Ainda que não fale outra língua além do mandarim, Cai (pronuncia-se “Tsai”) dá a impressão de se fazer entender e expressar muito bem as suas ideias. Afinal, não poderia ser diferente para um artista tão ambicioso, que não enxerga nem o céu como limite. Quem passear por esses dias pelo calçadão do centro, no entorno do CCBB, vai notar objetos gigantes presos por cabos de aço no topo dos prédios.

Há um disco voador, um submarino, diversos aviões e até uma asa delta. De pelo menos dez pessoas observadas pela reportagem de VEJASAOPAULO.COM na terça (16), nove tiraram o celular do(a) bolso(a) para tirar uma foto, em meio a uma expressão incrédula.

Algumas das obras, principalmente as que estão pelas ruas, são de camponeses autodidatas que vivem no interior da China. Encantado com os trabalhos, Cai os adquiriu e agora os incorpora à sua mostra.

Na entrevista abaixo, ele conta um pouco sobre o seu processo de trabalho, que rendeu um convite para ser o diretor de efeitos especiais das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim.

VEJASAOPAULO.COM – Qual foi a parte mais trabalhosa no processo de produção das obras aqui expostas?

CAI GUO-QIANG – Na verdade, foi a montagem daquela instalação que montamos pelas ruas, no entorno do CCBB. Ela está presa por cabos de aço, sobre as cabeças dos pedestres. Justamente por este motivo não poderíamos montar de dia, mas somente à noite. E, para conseguirmos realizar tudo isso, precisamos de uma série de autorizações: da Prefeitura, dos proprietários dos edifícios vizinhos, dos bombeiros, da polícia militar, do CET, etc. Faz parte da obra de todo o artista o espaço que ela vai ocupar. No meu caso, precisei levar em consideração o céu, a arquitetura do local e os pedestres que passam por baixo.

VEJASAOPAULO.COM – Por que a pólvora, não por acaso inventada pela China, ganhou um status tão importante no seu trabalho?

CAI GUO-QIANG – A explosão da pólvora dura apenas dois segundos e é imprevisível: você nunca sabe como ela vai reagir ao fogo. Foi o modo que encontrei de destruir a minha própria personalidade, muito conservadora e racional. Além disso, acredito que essa forma de produzir arte seja muito similar à maneira como os humanos vivem as suas vidas. E há também uma outra metáfora para a pólvora: ela foi descoberta há anos atrás por alquimistas que estavam à procura da imortalidade. Eles acreditavam que ela tinha poder medicinal de cura.

VEJASAOPAULO.COM – Por que você decidiu incorporar os trabalhos dos camponeses chineses à sua mostra?

CAI GUO-QIANG – Era 2004 quando eu descobri estas maravilhosas obras feitas por gente do interior da China, que vinham sendo noticiadas pela imprensa de lá. A primeira obra com que me deparei foi o submarino, em exposição do lado de fora do CCBB, e pensei: “Isso é incrível. É algo que eu definitivamente faria como artista.” E, então, comecei a colecioná-las. Fiquei muito tocado pelo espírito com que aquelas obras nasciam e a criatividade daqueles inventores. Em 2010, quando comecei a montar esta mostra que vocês veem agora, decidi trazer 60 obras que eu tinha colecionado até aquele momento. Tudo isso porque eu queria mostrar os valores individuais daqueles camponeses, sua independência e a forma como eles, bravamente, perseguiam os seus sonhos.

VEJASAOPAULO.COM – Você se considera tão independente quanto eles?

CAI GUO-QIANG – Estou sempre em busca disto.

VEJASAOPAULO.COM – Como foi trabalhar para os Jogos Olímpicos? Conseguiu ter alguma liberdade?

CAI GUO-QIANG – Foi desafiador. Mas não no sentido da criatividade e sim em conseguir trabalhar dentro de um quadro que já estava desenhado. Um evento internacional deste porte impõe uma série de restrições e não têm um caráter pessoal ou local, ainda mais porque você não está trabalhando sozinho: há uma imensa equipe por trás. Há muitas responsabilidades também como, por exemplo, o fato de não poder errar. Você só vai ter uma única chance. Ainda mais porque terá bilhões de pessoas no mundo todo assistindo àquilo.

VEJASAOPAULO.COM – É notável também uma certa atmosfera alienígena nos seus trabalhos. O que mais encanta você nesse universo?

CAI GUO-QIANG – Desde pequeno, olhava para as estrelas à noite e começava a pensar sobre vidas extraterrenas. Sou muito fascinado sobre o mundo invisível. Quando me mudei para o Japão [viveu lá entre 1986 e 1995], comecei a notar a forma como o ocidente olhava para a gente. Esta discussão oriente X ocidente, de um achar que é superior ao outro, ganha uma metáfora por meio dos alienígenas, que são ao mesmo tempo tão diferentes dos humanos, mas querem estar próximo do modo de vida deles.

VEJASAOPAULO.COM – Outro artista contemporâneo chinês, Ai Weiwei, também ganhou recentemente uma enorme mostra individual por aqui. O que acha de seu trabalho?

CAI GUO-QIANG – Cada artista trabalha com um tipo diferente de abordagem e objetivo. Ai Weiwei usa os seus trabalhos para criar uma voz para grupos minoritários na China e, às vezes, também conduz pesquisas e estudos sobre estes grupos minoritários. Eu me considero uma pessoa amável e leve.  A arte, para mim, é uma amiga.

Fonte: VEJA SÃO PAULO