Educação

"Convivência cotidiana não precisa ser caso de polícia", diz nova chefe de segurança da USP

Antropóloga Ana Lúcia Pastore afirma que questões ligadas à homofobia, violência contra a mulher e racismo precisam ser discutidas na universidade

Por: Juliana Deodoro - Atualizado em

ana lucia pastore
Professora da FFLCH, Ana Lúcia Pastore é pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência (Foto: Marcos Santos/USP)

Em meados de abril, a chefia de segurança da USP mudou de mãos. No lugar do oficial reformado da Polícia Militar Luiz de Castro Júnior entrou Ana Lúcia Pastore, especializada em direitos humanos, integrante do Núcleo de Estudos da Violência da universidade e doutora em Antropologia Social. A decisão foi uma das primeiras tomadas pelo novo reitor da universidade, Marco Antonio Zago.

 

Em entrevista a VEJASÃOPAULO.COM, a professora falou sobre questões controversas, como a presença da Polícia Militar e da Tropa de Choque no câmpus. A antropóloga afirmou ainda ser importante discutir outras violências no ambiente universitário, como a homofobia, o racismo e a violência contra a mulher.

Como reagiu ao convite para assumir a Superintendência? A princípio fui chamada para organizar um grupo de trabalho e de estudos sobre a segurança na USP, um convite traquilo, afinal é isso que estou acostumada a fazer. O convite para a Superintendência me pegou de surpresa, mas entendo que de fato o professor Zago está dando à questão da segurança nos campi a atenção que realmente merece. É um tema interdisciplinar que precisa de alguém que faça pontes com outros colegas para que possamos pensá-lo de forma ampla.

A segurança é um problema na USP? Há problemas em todos os campi que sempre aconteceram, problemas de ordem patrimonial, como furtos e roubos. Isso tudo não está fugindo ao que vinha ocorrendo, não é um momento de exceções. Já há várias soluções em andamento, como a mudança da iluminação, que é importante para resolver isso.

O que precisa ser aprimorado? Não se discutem na universidade questões fundamentais da segurança ligadas à homofobia, à violência contra a mulher e ao racismo. São temas que dizem respeito à convivência e que são próprias à comunidade universitária. Podemos fazer cursos de capacitação, seminários, workshops e trazer profissionais que pensam essas questões nas áreas das humanidades e saúde pública. A violência contra a mulher, por exemplo, precisa ser discutida com dados e opiniões entre estudantes, professores e funcionários.

A presença da PM dentro do câmpus é questionada por integrantes do movimento estudantil. Qual é a sua posição? Os campi, especialmente o do Butantã, estão totalmente integrados às cidades. Não dá para pensar questões da vida urbana que não dizem respeito também à universidade e seus espaços. Se vamos levantar a questão de qual deve ser a abordagem da polícia na USP, precisamos levantar o que a universidade pensa sobre a abordagem a qualquer cidadão. Temos esse papel de pensar uma polícia realmente mais cidadã para todos.

Mas a PM deve agir dentro do câmpus? A USP não é uma ilha que vai se fechar a uma instituição prevista na Constituição. Não é que sou a favor, mas a polícia tem competência para agir em ocorrências que podem acontecer aqui dentro. Acredito, porém, que questões de convivência cotidiana não necessariamente precisam ser casos de polícia. É da alçada da universidade pensar como pode lidar com essas questões.

Nas duas últimas invasões à reitoria, a Tropa de Choque foi chamada. O que acha dessa forma de mediação de conflitos? Não entendo isso como resolução de conflito, é uma forma de encerrar o conflito. Uma série de medidas que são de ordem mais consensual precisam ser priorizadas. Entretanto, situações limites fogem ao alcance. Se elas acontecerem, vou pensar com outras pessoas o que é mais conveniente e evitar conflitos mais violentos.

Quais serão suas primeiras decisões práticas? A primeira medida necessária será repensar o convívio interno entre os vários setores da Superintendência. Pensar como fazer fluir melhor a relação entre agentes operacionais e administrativos. Abrir para o diálogo é a palavra de ordem. Vamos tentar encaminhar questões emergenciais sem perder um projeto de médio prazo que vai permitir que as pessoas encontrem um campo de compreensão dentro da segurança.

Fonte: VEJA SÃO PAULO